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A política de reprodução das desigualdades, por Rodrigo Medeiros

Enquanto o lucro rentista cresce, o Orçamento de 2026 sacrifica universidades e programas sociais para manter o modelo econômico

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Original em: https://jornalggn.com.br/artigos/a-politica-de-reproducao-das-desigualdades-por-rodrigo-medeiros/

Enquanto alguns ainda comemoram o recuo do tarifaço norte-americano sobre os
produtos brasileiros, prefiro destacar um dado incômodo. Conforme observou Pedro
Cafardo, em coluna no Valor Econômico de 9 de dezembro, tais produtos eram “em sua
esmagadora maioria, commodities agrícolas”. Cui bono?

O colunista alertou que “nenhum país ficou rico apenas exportando commodities
agrícolas”. A desindustrialização precoce iniciada no Brasil a partir de 1986
comprometeu a consolidação de setores tecnológicos estratégicos e inviabilizou a
construção de um sistema nacional de inovação robusto. Há anos, o ex-ministro Luiz
Carlos Bresser-Pereira vem alertando que, sem a redução das desigualdades, o Brasil
será incapaz de se modernizar e de construir uma sociedade verdadeiramente digna de
se viver.

Professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, Bresser-Pereira desenvolveu análises
centrais no livro ‘Em busca do desenvolvimento perdido’ (FGV, 2018). Entre as suas
proposições, destaca-se a necessidade de uma nova coalizão de classes
desenvolvimentista, capaz de escapar tanto do populismo liberal quanto do populismo
desenvolvimentista.

Segundo o acadêmico, o populismo liberal se expressa por meio de políticas de
crescimento baseadas em endividamento externo, apreciação artificial da taxa de
câmbio e déficits crônicos em conta-corrente. O populismo desenvolvimentista, por sua
vez, combinou crescimento com endividamento externo e expansão fiscal desnecessária.
Os resultados dessas orientações são conhecidos: crises recorrentes, instabilidade
macroeconômica e perda de capacidade produtiva.

A partir da teoria do novo desenvolvimentismo, Bresser-Pereira enfatizou que
“investimento e desenvolvimento econômico dependem da taxa de câmbio”. Mesmo em
setores competitivos, alguma intervenção do Estado é indispensável, seja para proteger
a indústria nascente, conduzir políticas industriais ou, sobretudo, neutralizar os efeitos
da chamada doença holandesa.

Dados recentes reforçam a gravidade do quadro brasileiro. O Relatório da Desigualdade
Mundial de 2025 (World Inequality Report), coordenado por pesquisadores liderados
pelo economista francês Thomas Piketty, revelou que o Brasil ocupa a quinta posição
entre 216 países e territórios em desigualdade de renda. Apenas África do Sul,
Colômbia, México e Chile apresentaram piores quadros de desigualdades.

Políticas sociais compensatórias são necessárias entre nós, porém elas mostram-se
insuficientes para enfrentar desigualdades estruturais e históricas. De acordo com o
relatório, os 10% mais ricos concentram cerca de 59% da renda, enquanto os 50% mais
pobres ficam com apenas 9%. A desigualdade patrimonial é ainda mais extrema no

Brasil: os 10% mais ricos detêm 70% da riqueza total e o 1% mais rico concentra mais
de um terço da riqueza. Uma coalizão oligárquica e rentista capturou o Estado brasileiro
e, desde os anos 1990, impõe a semiestagnação como modelo econômico.

Números públicos do Banco Central do Brasil confirmam essa perversa dinâmica. Em
2025, no acumulado de doze meses até outubro, os juros nominais atingiram R$ 987,2
bilhões (7,88% do PIB), frente a R$ 869,3 bilhões (7,48% do PIB) no mesmo período
de 2024. Trata-se de uma verdadeira política de “Robin Hood às avessas”, que transfere
recursos da base da sociedade para o topo da pirâmide.

Não surpreende, portanto, a recente decisão do Congresso Nacional de aprovar cortes de
quase R$ 500 milhões no orçamento das 69 universidades federais para 2026, reduzindo
os recursos disponíveis para apenas R$ 6,43 bilhões. O mesmo Congresso autorizou R$
61 bilhões em emendas parlamentares para o ano eleitoral. O Orçamento de 2026 ainda
prevê cortes em despesas previdenciárias e em programas sociais como o Pé-de-Meia e
o Auxílio Gás.

A política de reprodução das desigualdades não é fruto do acaso no Brasil. Ela é o
resultado de escolhas reiteradas ao longo do tempo, que privilegiam rendas financeiras,
desorganizam o sistema produtivo e corroem as bases de um projeto nacional de
desenvolvimento. Enquanto essas escolhas persistirem, as desigualdades extremas
seguirão como o eixo principal da tragédia brasileira.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)

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