O sequestro ou remoção forçada de Nicolás Maduro do poder na Venezuela, vitória de Pirro celebrada por setores políticos e midiáticos alinhados a Washington, exige mais prudência na análise e uma leitura menos passional da realidade internacional.
Por um lado é possível supor que os Estados Unidos, com a arrogância habitual, agiram como se ainda estivessem no auge do mundo unipolar, ignorando que a Venezuela de hoje está inserida em uma arquitetura multipolar consolidada, com Rússia, China e o próprio Sul Global desempenhando papéis centrais.
Mas, como o poder real — o controle dos fluxos energéticos — já não está nas mãos do Ocidente:
- Mesmo que Washington logre relativo êxito ao executar esta ação direta contra a liderança venezuelana, isso não se traduz, necessariamente, no controle político, econômico ou energético esperado pelo império em decadência;
- Rússia e China já possuem presença estrutural na indústria do petróleo venezuelano, seja via financiamento, fornecimento tecnológico, contratos de longo prazo ou mecanismos de compensação fora do sistema financeiro tradicional.
Por outro lado há ainda um elemento geopolítico frequentemente ignorado – a possibilidade de existência de entendimentos “táticos” entre grandes potências – não no formato clássico de tratados, mas como uma administração pragmática das zonas de influência:
- Enquanto os EUA priorizam determinados teatros de contenção, Rússia e China avançam de forma calibrada em seus interesses estratégicos — Ucrânia e Taiwan — sem que isso leve a uma confrontação global direta;
- Nesse arranjo instável, a Venezuela atua como peça de equilíbrio, mas não como território disponível à força.
Em meio a tudo isso, também não podem ser desconsiderados ou subestimados os efeitos regionais da ação perpetrada pelos EUA:
- Qualquer intervenção explícita contra a Venezuela tende a ativar um espírito de coesão na América Latina, historicamente sensível a ações imperialistas;
- Conforme visto, países com posições distintas passaram a convergir em torno da defesa da soberania regional, abrindo, assim, canais de integração política, diplomática e até econômica.
Além disso, esse movimento, longe de isolar Caracas, pode fortalecer blocos alternativos como o BRICS, ampliando a legitimidade de mecanismos financeiros fora da órbita do dólar, acelerando acordos energéticos em moedas locais e aprofundando a cooperação Sul–Sul:
- Ou seja, em vez de enfraquecer o eixo multipolar;
- Os EUA podem estar oferecendo exatamente o empurrão necessário para sua consolidação.
Nesse cenário, a própria Venezuela tende a preservar seu governo com relativa autonomia(?), ajustando-se às pressões externas, mas sem colapso institucional: a história recente mostra que intervenções sem base regional e sem consenso internacional produzem mais resistência do que submissão.
É óbvio que o que está em jogo são as maiores reservas de petróleo do mundo e a hegemonia do poder global. A realidade é incontornável, mas a era das mudanças de regime fáceis terminou:
- O mundo já não responde a comandos unilaterais, e ações de força tendem a gerar efeitos sistêmicos adversos;
- Rússia e China operam no tempo longo, controlando ativos estratégicos e redes de dependência, enquanto os EUA insistem em soluções de curto prazo.
Embora “pareça” haver um certo “acordo” quanto a “ zonas de influência”, se Washington insistir nessa lógica, o resultado pode ser paradoxal: menos influência, mais isolamento e um Sul Global ainda mais articulado.
A Venezuela, apesar de sua fragilidade econômica e do cerco permanente, torna-se símbolo de uma transição histórica já em curso: o declínio da capacidade dos EUA de impor mudanças de regime sem custos sistêmicos.
Ao que tudo indica, Washington reage de forma cada vez mais errática — às vezes jogando conforme o tabuleiro multipolar, outras vezes apostando em movimentos fora dele. Em ambos os casos, o resultado tende a ser o mesmo: mais resistência, mais articulação do Sul Global e menos controle efetivo sobre os ativos estratégicos que realmente importam.
Aguardemos os próximos movimentos — não apenas na Venezuela, mas no próprio centro do poder global.

