Quando comecei a participar do movimento estudantil nos idos dos anos 1980, o nacionalismo não era palavrão nem falso slogan de campanha da extrema direita. Era debate concreto sobre soberania, indústria, cultura e projeto de país. Falava-se de um Brasil dominado em escala crescente, não só pelo capital estrangeiro, mas pela colonização simbólica, pela ideia de que tudo que vinha de fora era melhor, mais moderno, inevitável. Havia poucos empresários brasileiros nacionalistas. Pouquíssimos. Daqueles que acreditavam que desenvolver tecnologia e indústria próprias era parte da democracia.
Xavante, Carajás, Tocantins, Ipanema, Itaipu. Não eram apenas nomes de carros. Eram declarações políticas. Com eles, o engenheiro mecânico e eletricista João Augusto Conrado do Amaral Gurgel fundava uma montadora 100% nacional, sustentada pela convicção de que o Brasil podia projetar, produzir e decidir. Em meio a tantas inovações, criou o primeiro carro 100% elétrico nacional, isso mesmo, e da América Latina, pra quem ficou surpreso. Era o Itaipu E150.
Apresentado como protótipo no Salão do Automóvel de 1974 e lançado no ano seguinte, o Itaipu homenageava a usina hidrelétrica que ainda estava em construção no Paraná. O nome condensava um horizonte: energia, soberania, futuro. Um automóvel pequeno, quase tímido, mas que carregava uma ambição gigantesca, a de romper a dependência tecnológica num país acostumado a importar até seus sonhos. A crise do petróleo de 1974 reforçava ainda mais a proposta.
Mas, anos depois, podemos afirmar que a Gurgel não quebrou apenas por erros de gestão ou limitações técnicas. Quebrou porque ousou existir num ecossistema moldado para não permitir autonomia nacional. Enfrentou bancos que não financiavam, políticas públicas que não protegiam, um mercado capturado por montadoras estrangeiras e um Estado que oscilava entre a omissão e o abandono da indústria nacional. O nacionalismo, ali, não foi derrotado pelo atraso, mas pelo alinhamento automático aos interesses de fora.
Meio século depois, o mundo redescobre o carro elétrico como se fosse novidade. Gigantes globais recebem incentivos bilionários, subsídios estatais e tapetes vermelhos. No Brasil, voltamos a comemorar fábricas que chegam, não porque produzem tecnologia aqui, mas porque montam o que já vem pronto. A transição energética virou discurso, mas a soberania tecnológica segue ausente do debate.
O Itaipu elétrico nasceu cedo demais para um país que nunca resolveu sua relação com o futuro. Preferimos a condição confortável de consumidores dependentes à condição arriscada de produtores autônomos. O fracasso não foi o da Gurgel. Foi o de um projeto nacional interrompido, mais uma vez, em nome da falsa ideia de modernização.
Talvez por isso a história da Gurgel incomode tanto. Ela nos lembra que o Brasil já ousou pensar grande, mas desistiu. E que, enquanto não voltarmos a tratar desenvolvimento como política de Estado, todo “novo ciclo” será apenas repetição: mais moderno no discurso, mas igualmente dependente na essência.

