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O controle das fontes de energia e o processo civilizatório. Por Pedro Augusto Pinho

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Energia (foto de Matthew Henry na Unsplash)

Original em: https://monitormercantil.com.br/o-controle-das-fontes-de-energia-e-o-processo-civilizatorio/

Os 30 países que mais consomem energia no mundo e as percentagens de energia importadas são, em Exajoules (EJ), para o período 2023/2024:

País Consumo % importada
China 176,35 15% (exportador líquido de eletricidade)
EUA 95,50 30% de petróleo bruto, parte é processada e exportada
Índia 40,81 35% exportador líquido de eletricidade
Rússia 32,58 exportador líquido de energia
Japão 17,26 87%
Brasil 14,11 10%
Canadá 13,99 exportador líquido, usando o fracking
Coreia do Sul 13,02 85%
Irã 12,92 exportador líquido
Arábia Saudita 11,85 exportador líquido
Alemanha 11,50 75%
Indonésia 10,75 exportador líquido, também pelo carvão
França 9,07 45%
Reino Unido 8,32 44%
México 7,54 14%, principalmente gás natural
Itália 6,97 83%
Turquia 6,11 65%
Tailândia 6,02 57%
Egito 5,85 3%
Austrália 5,48 exportador líquido
África do Sul 4,85 18%
Taiwan 4,80 95%
Holanda 4,60 87%
Paquistão 4,37 40%
Malásia 4,28 exportador líquido
Espanha 4,21 18%
Polônia 4,12 48%
Vietnã 3,96 34%
Cazaquistão 3,00 exportador líquido
Nigéria 2,10 exportador líquido

As análises das dependências de energia devem levar em consideração variáveis tais como a população do país, seu nível de desenvolvimento tecnológico e a participação em programas de transição energética. O Reino Unido, por exemplo, tem quase toda sua eletricidade obtida das fontes eólica e solar.

O controle interno da energia pelo país também varia.

Antes da criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep – 14 de setembro de 1960), quase todos os países tinham sua energia fóssil produzida e comercializada por empresas dos Estados Unidos da América (EUA), anglo-holandesa e britânica; eram as famosas sete irmãs: Standard Oil of New Jersey (Esso, depois Exxon); Standard Oil of New York (Socony, depois Mobil); Standard Oil of California (Socal, depois Chevron); Texaco (depois fundida com a Chevron); Gulf Oil (depois absorvida pela Chevron); Royal Dutch Shell (Shell); e Anglo-Persian Oil Company (depois British Petroleum BP).

No entanto, os países de Oriente Médio, onde se encontram segundo relatório da BP Statistical Review (1951) cerca de 70% das reservas mundiais, aceleraram a constituição de suas empresas estatais. Em 1964, o Iraque cria a Iraq National Oil Company, porém, desde 1956, países islâmicos da África e do Oriente Médio já buscavam administrar esta riqueza natural: Egito, 1956, Egyptian General Petroleum Corporation; Síria, 1958, Syrian Petroleum Company; Argélia, 1963, Sonatrach; Líbia, 1970, National Oil Corporation; Emirados Árabes Unidos, 1971, Abu Dhabi National Oil Company.

Caso curioso é o da estatal da Arábia Saudita, a Saudi Aramco. Ela era a Socal, das sete irmãs, que operava na Arábia Saudita, e, em 1933, teve início a negociação para transferir o controle da empresa estadunidense para o Reino que então se formara. Mas esta negociação só foi concluída em 1980.

As denominadas “crises do petróleo”, na década de 1970, se constituíram na verdade pela troca de comando da administração do petróleo no Oriente Médio e no norte da África.

Simultaneamente, o poder no mundo ocidental passava dos empresários industriais para os donos do capital monetário e seus banqueiros, ou seja, para os especuladores e gestores de ativos financeiros. Em outras palavras, cerca de dois terços das reservas mundiais de hidrocarbonetos saíam da administração de empresas ocidentais para “Estados Nacionais do Terceiro Mundo”. Inaceitável para a arrogância e orgulho dos colonizadores ocidentais.

E, o que era pior, as guerras não resolveriam a questão da dominação política, pois desde a década de 1950 havia forte sentimento de independência, com apoio da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) pela África e Ásia; restava pois criar nova imagem da energia, que veio com as questões ambientais, climáticas e a “transição energética”.


Transição energética ou a colonização do mundo subdesenvolvido

A expressão “transição energética” surge exatamente na década de 1970, quando o petróleo sai das mãos do ocidente colonizador. A criminalização do petróleo como prejudicial à humanidade, por corrompidos agentes políticos ou ingênuos ambientalistas, faz surgir a expressão salvadora de novas fontes de energia, na verdade a reintrodução na matriz energética mundial de fontes já superadas. E por que superadas?

O que as energias fósseis provocaram, e daí seu sucesso, foi seu menor custo de produção, sua garantia de fornecimento contínuo e a possibilidade de armazenamento. Analisemos estes fatores.

O custo de produção de um barril de petróleo no pré-sal brasileiro está em 10 dólares estadunidenses, podendo ser menor para reservatórios de maior porosidade e permeabilidade das rochas. Já nos campos terrestres do Oriente Médio nem alcançam US$ 5, muito embora possam atingir valores mais elevados pela aplicação de novas técnicas de recuperação, porém não superam o do pré-sal dos campos marítimos do Brasil.

No entanto, o petróleo do fracking no Canadá e nos EUA pode facilmente atingir e superar US$ 40. Adotando a conversão de 1,63 MWh por barril de petróleo, temos que um barril equivalente em energia solar fotovoltaica ficaria em torno de US$ 37, e em energia eólica terrestre, mais barata do que a marítima, em US$ 40.

A garantia de fornecimento das energias alternativas é nula. Primeiro por não serem armazenáveis. É como a energia hidrelétrica de barragens fluviais, se não for consumida quando produzida ela se perde. A energia do sol e dos ventos depende de haver sol e vento, senão não há produção de energia. Imagine um hospital atendido somente por placas de captação da energia fotovoltaica. Como funcionaria nos dias sem sol e nas noites estreladas?

O que está mantendo as energias ditas alternativas, como se vê na tabela dos 30 países de maior consumo de energia apresentada no início deste artigo, é a importação ou produção doméstica de petróleo e de carvão mineral.

A energia no Brasil, em 1970, era majoritariamente fornecida pela lenha, carvão vegetal, que atendia 64% das necessidades e foi quando começaram a construção das grandes hidrelétricas, pois o petróleo não passava a 160 mil barris/dia.

A própria expressão “transição energética” é matreira, ardilosa; pois nos leva a imaginar algo para o futuro, mais avançado, quando, efetivamente, faz retroceder aos séculos pré-industriais, antes de 1700, quando não havia exploração do carvão mineral.

Com a ameaça de emissão de gases de efeito estufa, ter-se-ia um mundo inabitável pelas condições climáticas, desertificação de áreas férteis e perda da biodiversidade, aumentariam os problemas de saúde, especialmente de natureza respiratória, e, num pé de página, estes ambientalistas alertam para os riscos econômicos e geopolíticos. E é nesta perda de poder político e econômico pelo mundo ocidental do Atlântico Norte que está a verdadeira razão.

Em 2020, o mundo produziu 90 milhões de barris de petróleo por dia (bpd), sendo 54% do Oriente Médio, 24% da América Latina, 7% da África, 5% da Rússia e da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) e, dos 10% restantes, boa parte veio da Ásia e da Oceania (China, Indonésia, Malásia e Austrália). Registre-se que a produção da Índia, na ordem de 0,5 milhão bpd, é integralmente consumida pelo próprio país.

Restou para o Atlântico Norte, a Noruega (2 milhões bpd), com produção menor do que a do Brasil (3,7 milhões bpd), mas para população de 5,5 milhões de habitantes.

Assim, pode-se concluir que não é a questão ambiental ou climática destes séculos interglaciais que motivam as finanças apátridas, universalistas, concentradoras de bens e riquezas a combater as energias fósseis; é o poder político que se esvai com a multipolaridade e a conquista das soberanias fora da órbita EUA-União Europeia.

Se em uma família, que os membros são sempre e quase totalmente as mesmas pessoas, há disputas e brigas irreconciliáveis, imagine entre países onde ocorrem trocas de governos, não apenas das pessoas, mas de grupos, de interesses políticos e mesmo adotando ideologias antagônicas.

As moedas que os países emitem precisam dar alguma garantia de valor para as trocas; a equivalência em porção de ouro, o padrão-ouro, foi a vigorou no século 19, quando o atual Reino Unido era o mais importante país e a libra era tão desejada que Noel Rosa cantava: “No mercado da vida, a libra sempre foi o coração”. Esta ideia teve seus fundamentos em David Hume (1711-1776), pelo que tinha de liberal o seu pensamento. Com a ascensão dos EUA nos pós-guerras, o padrão-ouro passou da libra para o dólar.

Mas as restrições impostas pelo padrão-ouro eram incompatíveis com os projetos de desenvolvimento industrial, tecnológico e geopolítico daquela nação. Então os EUA negociaram e acordaram, em 1974, com a Arábia Saudita, a comercialização do petróleo ser realizada unicamente em dólares, pelo que dariam proteção militar àquele país da Península Arábica, e foi usada a denominação de petrodólar. Em agosto de 2018, a Venezuela declarou que iria precificar seu petróleo em euros, yuans e outras moedas.

O petrodólar fracassou, e os capitais ocidentais encontraram na “transição energética” o ponto de união para enfrentar o petróleo, mais do que o carvão mineral, e para reassumir o controle mundial das fontes e da comercialização da energia.

Embora o acordo principal persista, a Arábia Saudita busca atualmente diversificar suas parcerias, negociando acordos de gás liquefeito (GNL) e explorando outras moedas, tentando reduzir a dependência do dólar e equilibrar sua economia. Os sauditas buscam, entretanto, no campo da defesa, um acordo mais sólido, como os da Otan, o que tem a dificuldade de exigir a aprovação do Congresso estadunidense.

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