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Paulo Nogueira, ideal para a fazenda. Por José Carlos de Assis

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José Carlos de Assis
José Carlos de Assis
Economista, doutor em Engenharia de Produção pela UFRJ, professor de Economia Internacional na Universidade Estadual da Paraíba e autor de mais de 20 livros sobre economia política.

Depois da tragédia política e econômica orquestrada pelo neoliberal Fernando Haddad, Lula poderia reconstruir uma base progressista no Congresso enfrentando de uma tacada a direita, a extrema direita e o ambíguo centrão. Para isso bastaria nomear para  a Fazenda o íntegro economista Paulo Nogueira Batista Jr, o mais experiente e reputado economista brasileiro no exterior. A Faria Lima não gostaria. Contudo, num ano eleitoral, quem tem que gostar ou não é o povo, não a oligarquia paulista.

É claro que a Faria Lima, com ajuda da extrema direita externa, vai despejar bilhões de reais para comprar a eleição. Muitas das bigtechs já se manifestaram em favor dos bolsonaristas. Além disso, tem o fator Donald Trump, que certamente vai meter sua colher de pau no pleito deste ano. Tudo isso indica um quadro de grande dificuldade para os progressistas conquistarem a ambicionada posição de maioria no Congresso  e eleger o presidente da República, sendo Lula ou alguém indicado por ele.

A nomeação de Paulo Nogueira para a Fazenda, uma prerrogativa presidencial, sinalizaria uma virada de 180 graus na política econômica. Sei que essa virada não pode ser feita enquanto se mantém a maioria regressiva no Congresso, mas seu simples anúncio como plataforma de campanha pelo Presidente, reforçado pela nomeação do Ministro, poderia levantar o ânimo e as esperanças da população em relação à melhora de suas condições de vida e, no cenário latino americano atual, na afirmação das  políticas nacional desenvolvimentistas atacadas por Trump, exceto quando se trata dos próprios interesses norte-amricanos.

O mais importante, porém, é que Paulo Nogueira na Fazenda suscitaria no País um verdadeiro turbilhão político opondo classes dominantes e classes dominadas, com o transbordamento desse debate sem precedentes para as camadas mais desfavorecidas do povo. Querendo ou não, ricos e muito ricos teriam que justificar perante o povo seus privilégios infamantes, a começar por seu papel na transformação do Estado num instrumento de expropriação dos pobres pelos afortunados, através da dívida pública, que transfere para seus titulares, só de juros, R$ 1 trilhão por ano, enquanto o Estado Social é esmagado!

O debate franco nos conduziria a uma espécie de pedagogia da realidade, que compensaria a fraqueza material relativa dos progressistas em face dos bilionários que exploram o povo. Seria muito fácil para um candidato a Presidente progressista, seja Lula ou alguém indicado por ele, mostrar o conluio entre a Faria Lima e parlamentares corruptos e envolvidos com traficantes e milícias, manipuladores de emendas, que estão sendo desmascaradas pelo Supremo Tribunal Federal através dos corajosos despachos do ministro Flávio Dino.

Nesse contexto, a palavra do ministro da Fazenda vale muito. Sobretudo se é alguém, como Paulo Nogueira, ex-representante brasileiro no FMI e no BRICS –  altos postos que ocupou sem deixar neles qualquer vestígio de favorecimento pessoal. Também não se deixou  contaminar pela ideologia neoliberal, como Fernando Haddad. Com um jeito suave e educado, como seu pai – embaixador Paulo Nogueira Batista -, o filho  mantém erguida a bandeia do nacional desenvolvimentismo, sustentada apenas por poucos, como o ex-governador do Paraná e ex-senador Roberto Requião.

É importante recordar que Paulo Nogueira Batista pai, no governo Geisel, negociou com a Alemanha o acordo para desenvolvimento de um projeto nuclear no Brasil. Por azar, devido à crise de final dos anos 1970, desistimos do programa, posteriormente enterrado de vez pela Constituição de 1988. Se não tivesse havido esse contratempo, talvez teríamos construído a bomba no Brasil e hoje não dependeríamos de parceiros nucleares globais, como Rússia e China, para nos defender do apetite voraz de líderes loucos como Donald Trump, que ameaça nossa soberania com armas atômicas.

Voltando à questão da Fazenda, estou certo de que Paulo Nogueira, como ele tem destacado em vários de seus artigos, discorda radicalmente das políticas monetária e fiscal adotadas por Haddad e pelo presidente do Banco Central. Isso é uma preliminar importante para uma virada política, já que ninguém no Brasil, com conhecimentos mínimos de economia, concorda com a taxa Selic  no nível de 15%. Os mais informados, e Paulo Nogueira é um deles, sabe também que a política de equilíbrio fiscal e o absurdo do superávit fiscal são contracionistas, e contariam o crescimento do País.

Contudo, o debate sobre essas questões é sistematicamente tirado de pauta pela mídia conservadora, que assume, em nome das oligarquias econômicas, um papel regressivo e ativo de encobertamento da realidade. Por isso que a nomeação para a Fazenda de uma pessoa como Paulo Nogueira Batista tem um significado muito maior para o País do que questões técnicas ligadas à ação prática do Ministério: o problema é essencialmente político  e de comunicação, e está dentro dos limites do jogo de poder econômico na sociedade.

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