Com Lula e o PT, a política externa brasileira é o que pode ser — não o que as elites colonizadas, entreguistas e sem imaginação histórica gostariam que fosse, um país alinhado automaticamente a Washington, sem projeto próprio, sem ambição estratégica, limitado a fornecedor de commodities, mercado consumidor de produtos estrangeiros e apoio político subordinado às decisões do centro imperial, mas tampouco aquilo que nós, nacionalistas conscientes da grandeza potencial do Brasil, sonhamos:
- Ao menos, ela é soberana, dentro de determinados parâmetros realistas – não suicida;
- Pragmática, não ideológica;
- E conciliadora, sem submissão.
Nesse momento é possível dizer que ela funciona razoavelmente bem, porque parte da realidade material do Brasil — e não de delírios geopolíticos:
- O Brasil não é inimigo estratégico dos EUA, não possui bomba atômica, não é potência militar global e não ameaça interesses vitais de Washington;
- Mas, ao mesmo tempo, não abriga bases militares estrangeiras, não confronta diretamente os EUA e também não se subordina nem aceita ser linha auxiliar subalterna da agenda imperialista estadunidense.
Lula joga no espaço que o Brasil tem, e não naquele que alguns imaginam que ele possa ter. Ou seja, no espaço da mediação, do multilateralismo possível, da diversificação de parceiros e da divisão de liderança no Sul Global:
- Isso reduz riscos, mas não os elimina;
- E o neoliberalismo, apesar de ter seu “fluxo retardado ou em alguns aspectos frenados e/ou compensados” – continua a impactar negativamente o desenvolvimento nacional.
Por outro lado, há a delirante ideia de subpotência obediente, que parece ter “contaminado” parcela do alto comando militar brasileiro, a partir da qual o Brasil exerceria uma espécie de função de capitão do mato na América Latina ou na América do Sul, como protetorado informal dos EUA:
- Um papel de “subpotência regional” sob tutela de Washington;
- Lógica simplista e equivocada que sugere que, pelo simples fato de ser submisso aos EUA, reduziria-se riscos, garantindo proteção e abrindo acesso a tecnologia e armamentos para o Brasil – lógica que, com toda a certeza, nunca funcionou dessa forma na história.
Enfim, será que, desprovidos de bomba atômica e de poderio militar autônomo, só nos resta ser o que somos hoje com Lula — ou pior, sob a lógica da subserviência, ser um país completamente subalterno e tutelado, condenado a um modelo de desenvolvimento de segunda categoria (submetido a agenda imperial) e limitado às sobras oferecidas pelos EUA?
A história recente demonstra que países que aceitaram a subserviência jamais se desenvolveram – enquanto aqueles que buscaram autonomia, mesmo sob pressão, seguiram outro caminho com um projeto pautado por soberania:
- A Coreia do Sul, aliada sim dos EUA, nunca abriu mão de um projeto nacional de industrialização pesada, protegido pelo Estado, com transferência real de tecnologia e empresas nacionais fortes (chaebols) – hoje, negocia com Washington de igual para igual em vários setores;
- A Índia, por sua vez, nunca foi satélite de ninguém. Praticou não alinhamento, enfrentou sanções, bancou autonomia tecnológica, desenvolveu indústria militar própria e construiu arsenal nuclear. Hoje, dialoga com EUA, Rússia e China sem pedir licença;
- Já a Turquia, mesmo sendo membro da OTAN, compra armas da Rússia, confronta interesses dos EUA quando convém e mantém base industrial e militar própria. Não é submissa — é pragmática e assertiva;
- Enquanto a Indonésia, após décadas de tutela e tragédia social, reorganizou sua estratégia apostando em controle estatal de recursos naturais, industrialização e diversificação de parceiros, especialmente na Ásia — não virou potência, mas escapou da armadilha da subordinação permanente.
Em síntese, nenhum desses países aceitou exercer o papel de subpotência obediente – sem projeto interno.
O dilema real do Brasil consiste no fato de que, sem poder militar autônomo, o país está condenado a poucas escolhas, mas isso não significa dizer que não pode se mover dentro de alguns caminhos possíveis, mesmo que imperfeitos e arriscados em graus distintos – dos quais podemos destacar:
- O caminho atualmente seguido por Lula, o da soberania possível, do multilateralismo pragmático, da mediação, da diversificação de parceiros e da redução de riscos diretos. Um caminho que não rompe com os EUA, mas também não se submete – preserva margem de manobra diplomática e abre espaço para desenvolvimento gradual, ainda que limitado pelas correlações de força globais;
- E o caminho da subordinação militarizada, defendido por setores das elites civis e militares colonizadas que apostam numa aliança assimétrica com Washington, na condição de subpotência obediente, com a promessa de proteção imediata e acesso condicionado a tecnologia e armamentos, e a cobrança de um preço alto e permanente – a imposição de limites estruturais ao desenvolvimento nacional, a vigilância externa sobre setores estratégicos e a consolidação do subdesenvolvimento como destino administrado.
Há, contudo, um terceiro caminho, mais complexo, mais arriscado e ainda embrionário: o de aprofundar parcerias estratégicas, alinhamento seletivo e cooperação estrutural com as grandes potências militares e tecnológicas do BRICS — especialmente China, Rússia e Índia.
Esse caminho não significa romper automaticamente com o Ocidente nem aderir a um bloco ideológico fechado, mas reposicionar o Brasil dentro de uma lógica multipolar real, buscando contrapesos estratégicos ao poder dos EUA:
- Na prática, implicaria ampliar cooperação militar, tecnológica, industrial e energética;
- Negociar transferência efetiva de tecnologia;
- Diversificar fornecedores de defesa e investir na indústria de defesa nacional;
- E reduzir a vulnerabilidade estratégica brasileira a pressões unilaterais.
É claro que China, Rússia e Índia não são aliadas “benevolentes”, nem substitutos morais dos EUA. São potências duras, com interesses próprios, mas que diferem de Washington em um ponto crucial: não exigem, como regra, a renúncia explícita ao projeto nacional do parceiro como condição prévia absoluta de cooperação.
Ou seja, com esses países a relação seria, portanto, transacional, pragmática e baseada em interesses — não de tutela permanente.
Esse terceiro caminho, no entanto, também carrega riscos evidentes: maior pressão externa, tentativas de retaliação econômica, sabotagem política interna e aumento da vigilância estratégica.
Sendo importante ter em mente que, sem projeto nacional consistente, sem base industrial forte e sem coesão interna, essa opção pode se transformar em mera retórica multipolar — ou pior, em nova dependência, apenas com outro centro.
Enfim, apesar de nenhuma dessas três vias nos oferecer segurança plena, duas delas mantêm aberta a possibilidade de mudança histórica — o caminho da soberania possível praticado por Lula e o aprofundamento cuidadoso de parcerias estratégicas no âmbito do BRICS, que, por lógica, deveria ser o seguimento natural no curso das políticas externas atualmente adotadas por Lula:
- Ambos exigem algo que o Brasil historicamente evita;
- Vontade política, conflito com interesses internos e um mínimo de projeto nacional.
Nada disso, porém, pode ser compreendido sem olhar para dentro. Sendo imprescindível não esquecer, nesse contexto, que o maior entrave ao desenvolvimento do país sempre foi a denominada elite brasileira:
- Uma elite que não quer desenvolvimento, só acumulação;
- Que aceita a obscena desigualdade aqui existente;
- E que prefere juros, renda fácil e submissão externa a qualquer pacto produtivo.
Se ao menos houvesse por parte dessa “elite” a busca pela formação de uma base industrial nacional forte, mesmo sob a divisão racional de setores estratégicos com o capital transnacional, mas com proteção mínima ao trabalho e à soberania – o sofrimento social seria menor e um pacto com o império, ainda que duro, seria compreensível. Mas nem isso.
Em síntese, do jeito que está o Brasil vai continuar seguindo com sua imensa riqueza potencial represada, pobre em projeto — sabotado por dentro, antes mesmo de ser pressionado de fora — indeciso diante de uma encruzilhada histórica crucial para o seu desenvolvimento em benefício do bem-estar de toda sua população: transformar sua soberania possível em projeto nacional, ou continuar refém de elites que preferem o atraso “seguro para elas” à mudança arriscada em prol de todo o Povo Brasileiro.

