Tem sido uma experiência nauseabunda observar a maneira como certos conservadores hipócritas caminham pela cena pública em flagrante contradição com a própria biografia. No auge do poder, travestiam-se com a farda do guardião da moral, apontavam o dedo inquisidor como promotores autoproclamados da justiça, exigiam penas mais duras, celebravam a exposição vexatória dos “meliantes” e repetiam, sem pudor, o bordão de que “bandido bom é bandido morto”. Nesse estágio, a empatia tornara-se sinônimo de leniência e os direitos humanos passaram a ser tratados como pauta de “protetores de criminosos”. Tudo se resolvia na espetacularização do castigo e no linchamento da imagem pública de quem se arriscasse ao contraditório, sob a liturgia agressiva do extremismo de direita.
A reviravolta tragicômica desse enredo se inicia quando as penas da lei passam a recair sobre os ocupantes das trincheiras reacionárias. Flagrados em crimes, fraudes, abusos de poder ou nas mesmas práticas que antes condenavam com fúria moral, esses personagens trocam, sem qualquer constrangimento, o discurso do endurecimento penal pelo da vitimização. O que antes era “justiça doa a quem doer” transforma-se, de súbito, em “perseguição política”. O Judiciário, antes celebrado quando castigava pobres, negros, periféricos e adversários ideológicos, passa a ser rotulado como “ditadura de togas”, “fábrica de injustiças” ou mero “instrumento de vingança pessoal”.
O pior é que toda essa epifania discursiva não nasce de reflexão ética, mas do puro oportunismo e da instrumentalização tosca da moral. Não houve conversão de princípios, apenas conveniência torpe. O critério não é a sede por justiça, mas o lugar ocupado no tabuleiro. No alto exigiam rigor, em queda suplicam por abrandamento. Como nos lembra Michel Foucault, em Vigiar e Punir, o sistema punitivo está longe de ser uma máquina neutra de justiça; é, antes, uma engrenagem de poder que decide quem deve ser vigiado, marcado e castigado. Os extremistas de direita só reconhecem direitos quando deles necessitam, só descobrem a crueldade do sistema quando sentem o punhal penetrar e girar na própria carne.
Mais absurdo ainda é o modo como tentam mobilizar a empatia que sempre negaram aos outros. Pedem compreensão, clamam por humanidade, falam em família, em sofrimento desproporcional. Mas nunca se lembraram dessas categorias quando defendiam prisões desumanas, execuções sumárias, tortura, assassinato de reputações nas redes sociais e o extermínio moral de quem não se curvava a seus caprichos. É oportuno recordar Zygmunt Bauman que, em Ética Pós-Moderna, observa que a empatia deixou de ser compromisso com o próximo e passou a ser frequentemente administrada conforme interesses de ocasião. A moralidade, para os reacionários, não é princípio, é privilégio de classe, de grupo, de ideologia moldado pela conveniência.
Assim, o vitimismo, essa rota de fuga que agora mimetiza fragilidade humana naqueles que ontem desfilavam brutalidade, não é apenas incoerente, é quase uma encenação nonsense. Ofende a inteligência de quem assiste e zomba da memória de quem sofreu de verdade a injustiça. Revela a banalização de uma moral sem raiz ética, que muda de conteúdo conforme muda quem sente a dor, incapaz de reconhecer no outro a dignidade que só reivindica quando a própria está ameaçada. Não há aí aprendizado nem arrependimento, apenas ajuste oportunista diante do revés de ter sido apanhado em flagrante.
Encaminho esta crônica ao seu desfecho sustentando que o que se coloca em jogo não é apenas a crítica à hipocrisia de um ditador bananeiro qualquer, mas a uma concepção perversa de comunicação social que faz escola na política. Uma sociedade justa não se constrói fundada no casuísmo. Direitos não podem servir de bálsamo para aliados nem de castigo para adversários. Quem defende um sistema duro, desumano e vingativo precisa ter a grandeza de se resignar quando for alcançado por ele. Caso contrário, não é conservador, nem moralista, nem defensor da ordem. É apenas um oportunista que se fantasia de cidadão de bem.
Entendo que o maior ensinamento que essa tragicomédia política deixa não se deva ler apenas pela veia irônica. Trata-se de algo incisivamente lógico. Quem faz do asco pelos direitos humanos um artifício político agregador na subida não deve se surpreender quando a dignidade lhe falta na queda, pois a empatia que hoje imploram é a mesma que ontem negaram com sarcasmo e desprezo. Não se trata, portanto, de destino trágico, mas de consequência histórica, porque toda ordem fundada na desumanização cobra seu preço, cedo ou tarde, dos próprios artífices.
Não há nada de reparador em rogar por humanidade depois de ter feito do discurso de ódio uma profissão de fé. Até figuras ilustres da Revolução Francesa aprenderam isso pela via amarga da experiência. Pena que os extremistas de direita desprezem a História. Se a estudassem, saberiam que resta apenas o desespero àqueles que descobrem, tarde demais, que a violência política, uma vez retirada da caixa de ferramentas, não deve lealdade a ninguém.

