No próximo dia 29 de janeiro de 2026 completa dois anos da morte de Samuel Pinheiro Guimarães.
Conforme palavras do nosso companheiro Samuel Gomes, membro fundador do Movimento Paraíso Brasil: “…nós brasileiros que sabemos o que representa ser brasileiro e sonhamos os sonhos que ele (Samuel Pinheiro Guimarães) sonhou, transformamos a efeméride em oportunidade de reflexão e de luta pela nossa inserção autônoma no mundo”.
O Movimento Paraíso Brasil apresenta, em sua homenagem, a Semana Samuel Pinheiro Guimarães (de 26 a 31 de janeiro de 2026), cuja primeira manifestação foi feita, de forma antecipada, justamente por Samuel Gomes – com a publicação: A urdidura da nação e o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães.
Hoje, 26 de janeiro de 2026, abrimos a #SemanaSamuelPG com o editorial a seguir, no qual o Movimento Paraíso Brasil reivindica, ao final, a inclusão do nome de Samuel Pinheiro Guimarães no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
Editorial
Desenvolvimento, Soberania e Integração Regional: A Atualidade do Pensamento de Samuel Pinheiro Guimarães.
Samuel Pinheiro Guimarães Neto (1939–2024) ocupa um lugar singular e elevado na história da diplomacia brasileira e do pensamento estratégico latino-americano.
Mais do que um diplomata de carreira exemplar:
- Foi um intelectual orgânico do projeto nacional;
- Um formulador de ideias comprometido com a soberania, o desenvolvimento e a superação da condição periférica que historicamente aprisiona o Brasil e a América Latina no sistema internacional.
Em um Itamaraty muitas vezes marcado por visões excessivamente acomodadas à ordem global vigente, Samuel Guimarães destacou-se pela coragem intelectual e pela coerência política.
Sua atuação no primeiro governo Lula, especialmente como Secretário-Geral das Relações Exteriores entre 2003 e 2009, foi decisiva para a inflexão estratégica da política externa brasileira: conduzido pelo chanceler Celso Amorim e por ele, o Itamaraty abandonou a postura passiva e subalterna que caracterizara períodos imediatamente anteriores e e retomou a tradição de busca da nossa autonomia estratégica, marcadamente das gestões de Jânio e Jango e Geisel, como registrado aqui no Paraíso Brasil. Com ele, o Itamaraty voltou a focar na integração sul-americana, na cooperação Sul-Sul e na defesa intransigente dos interesses nacionais.
O grande embaixador compreendia, com rara clareza, que política externa não é exercício retórico nem diplomacia protocolar, mas instrumento de poder, desenvolvimento e afirmação nacional.
Por isso, combateu com firmeza iniciativas como a ALCA e acordos comerciais assimétricos com grandes potências, que ameaçam cristalizar a especialização regressiva da economia brasileira, limitar a política industrial e comprometer a soberania tecnológica do país:
- Sua crítica não era ideológica no sentido raso do termo, mas histórica, estrutural e estratégica;
- Para se desenvolver, o Brasil precisa preservar graus reais de liberdade decisória frente às potências centrais.
Essa visão está profundamente elaborada em sua obra intelectual, em especial no clássico “Quinhentos Anos de Periferia” (1999), leitura obrigatória para quem deseja compreender a inserção dependente do Brasil na economia mundial:
- Nesse livro e em “Desafios do Brasil na Era dos Gigantes” (2006), Samuel Pinheiro Guimarães desmonta a narrativa liberal, que naturaliza o subdesenvolvimento;
- O embaixador expõe como a hierarquia internacional é reproduzida por mecanismos econômicos, políticos e institucionais que beneficiam poucos e subordinam muitos.
Sua obra dialoga com o melhor da tradição desenvolvimentista latino-americana, atualizando-a para os desafios do século XXI.
No plano regional, Samuel Pinheiro Guimarães foi um dos maiores defensores do Mercosul e da integração sul-americana como estratégia de fortalecimento coletivo diante das pressões externas:
- Para ele, a América do Sul é o entorno estratégico do Brasil;
- O subcontinente é nossa prioridade geopolítica máxima, no qual devemos realizar projetos próprios de desenvolvimento, infraestrutura, ciência, tecnologia e defesa.
Sua nomeação como Alto Representante-Geral do Mercosul, em 2011, simbolizou esse compromisso profundo com a integração regional como eixo estruturante da soberania. Mas, infelizmente, ele decidiu renunciar ao cargo por não encontrar visão e apoio dos presidentes dos países do bloco.
Não surpreende que sua postura crítica tenha despertado incômodo nas grandes potências, especialmente nos Estados Unidos, como revelaram documentos diplomáticos divulgados pelo WikiLeaks:
- Longe de ser um demérito, isso apenas confirma a densidade, a independência e a relevância de seu pensamento;
- Samuel não buscava agradar centros de poder – mas servir ao Brasil e à América Latina.
Sua partida deixa uma lacuna imensa.
Em um mundo marcado pela recrudescência do imperialismo, pela financeirização extrema, pela fragmentação da ordem internacional e pela tentativa permanente de subordinação dos países periféricos, a falta que Samuel Pinheiro Guimarães faz é profunda e irreparável.
Faz falta sua lucidez estratégica, sua firmeza intelectual, sua capacidade de dizer não quando o interesse nacional estava em jogo. Faz falta uma voz que combinava erudição, coragem e compromisso com o futuro do país.
Samuel Pinheiro Guimarães deixa um legado que vai muito além dos cargos que ocupou:
- Deixa uma escola de pensamento, uma referência ética e intelectual, e uma lição que permanece atual e urgente;
- Fortalece a ideia de que não há desenvolvimento sem soberania, nem política externa eficaz sem projeto nacional.
Em tempos de regressão, submissão e perda de horizonte estratégico, sua obra e trajetória seguem como farol para todos aqueles que acreditam que o Brasil pode — e deve — ocupar um lugar digno, autônomo e protagonista no mundo.
Sua memória seguirá viva entre todos os que defendem um Brasil soberano, industrializado, integrado à América Latina e comprometido com seu próprio povo.
Samuel Pinheiro Guimarães: sem dúvidas, um dos maiores quadros da diplomacia brasileira e do pensamento estratégico latino-americano – cujo nome precisa estar registrado no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria — abrigado no Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

