No Brasil, a Taxa Selic (taxa básica de juros da economia) sempre foi tratada como um fenômeno técnico, quase natural, restrito a planilhas, modelos econométricos e reuniões herméticas do Banco Central:
- Essa narrativa cumpre uma função política muito clara;
- Esconder que os juros altos são uma escolha de poder, não uma fatalidade econômica.
A Selic elevada, na verdade, serve para organizar a economia brasileira em favor do rentismo (o sistema financeiro, os detentores de títulos da dívida e os grandes fundos e bancos) — e isso desestimula o investimento produtivo, encarece o crédito e sufoca a indústria.
Ou seja, a Selic transfere renda de quem trabalha e produz para quem vive de renda financeira. Sendo, portanto, um instrumento de concentração de riqueza e de bloqueio do desenvolvimento.
Paralelamente, vende-se à sociedade o mito de que o “Estado é caro e ineficiente”:
- Lógica, segundo a qual o problema do Brasil estaria nos gastos sociais, no funcionalismo, nos investimentos públicos;
- Narrativa que ignora, convenientemente, o maior dreno estrutural das contas públicas — o serviço da dívida — alimentado por uma das maiores taxas reais de juros do mundo.
Ao contrário, o Estado brasileiro não é grande demais para o povo — ele é, na verdade, apequenado para enfrentar o poder do mercado financeiro: visto que, quando se corta investimentos em ciência, infraestrutura ou políticas sociais em nome do “ajuste” da economia, não se está fazendo austeridade responsável; está-se preservando privilégios.
A austeridade nunca chega ao topo da pirâmide e o discurso do Estado mínimo também não resiste aos fatos:
- Onde o mercado foi deixado sozinho — energia, transporte, saneamento, logística — o que se viu foram tarifas altas, serviços precários e falta de planejamento de longo prazo;
- O mercado só se preocupa com um tipo de eficiência — maximizar lucro no curto prazo, de forma alguma organizar um projeto nacional.
Não por acaso, os países que hoje lideram a economia global abandonaram há muito o dogma neoliberal:
- Estados Unidos, China e União Europeia praticam política industrial ativa, protegem setores estratégicos, usam bancos públicos e compras governamentais;
- Enquanto o Brasil, quando aceita juros estratosféricos e demoniza o Estado, escolhendo a estagnação.
A queda dos juros, portanto, não é apenas uma discussão monetária. É uma disputa sobre que país queremos ser:
- Um país que remunera o capital improdutivo;
- Ou um país que investe em trabalho, indústria, ciência e soberania.
Romper com o rentismo exige coragem política, pressão social e uma mudança profunda de narrativa:
- Juros altos não resolvem inflação de oferta e a inflação brasileira é, muitas vezes, cambial, energética e de alimentos;
- Juros mais baixos não são irresponsabilidade, são condição para o desenvolvimento e o desenvolvimento também é política anti-inflacionária no médio prazo.
Enfim, um Estado forte não é um problema — é a única solução possível para um país que se recusa a ser eternamente periférico. O debate é simples: ou o Brasil toma as rédeas da sua economia, ou continuará sendo governado por ela e condenado à estagnação.
