Durante décadas, o Brasil foi conduzido por uma lógica apresentada como técnica, neutra e inevitável: o chamado tripé neoliberal, sustentado por câmbio flutuante, metas rígidas de inflação e uma obsessão permanente com o superávit primário.
Esse modelo, vendido como sinônimo de “responsabilidade”, jamais teve como prioridade melhorar a vida da maioria da população e alavancar o desenvolvimento do Brasil:
- Seu compromisso real sempre foi com o rentismo, com a valorização do capital financeiro e com a submissão do Estado Brasileiro aos interesses do mercado;
- Governando-se para agradar planilhas, não para responder às necessidades concretas do país real.
Os efeitos desse modelo são conhecidos – salários comprimidos, aposentadorias corroídas, investimento público estrangulado, e uma política econômica que trata o trabalho como custo, não como fundamento do desenvolvimento:
- Em nome do controle inflacionário, sacrificou-se o emprego;
- Em nome do equilíbrio fiscal, sacrificou-se o crescimento;
- Em nome da confiança dos mercados, sacrificou-se a capacidade do Estado de planejar e induzir o desenvolvimento nacional.
O resultado foi um país mais desigual, mais dependente e com sua base industrial enfraquecida.
Assim, o Brasil assistiu a desindustrialização avançar enquanto o rentismo se consolidava como força dominante da política econômica: tornou-se um país que abriu mão de produzir e de decidir o próprio futuro:
- Sem indústria forte, não há soberania econômica nem salários elevados;
- Países que se desenvolveram não o fizeram pela submissão ao mercado financeiro, mas pelo fortalecimento do Estado, pelo investimento público e pela proteção estratégica de seus setores produtivos.
Nesse contexto, se impõe a construção de um outro eixo para o país que denominamos, em contraposição ao tripé neoliberal, o Tripé do Povo.
Um tripé simples, direto e profundamente transformador, baseado na valorização do Trabalho e aumento imediato e real do Salário Mínimo e das Aposentadorias, Tarifa zero no Transporte Público e adoção da Escala 5×2, com o fim da jornada exaustiva 6×1.
Esse tripé recoloca a vida no centro da economia:
- Valorizar o Trabalho é fortalecer o mercado interno, dinamizar a economia local e devolver dignidade a quem vive do próprio esforço — e também a quem já trabalhou a vida inteira para construir este país;
- A Escala 5×2 é o reconhecimento de que desenvolvimento não pode significar exaustão permanente, adoecimento e perda de tempo de vida;
- E a Tarifa zero representa, além do aumento real de renda, a democratização do direito à cidade — é justiça social concreta.
Um tripé que não é apenas social, mas profundamente econômico e produtivo. Ao elevar a renda do trabalho, reduzir custos básicos como o transporte e devolver tempo de vida à população, o Estado fortalece o mercado interno, amplia o consumo popular e cria demanda estável para a produção nacional:
- É essa engrenagem — renda, consumo, produção e emprego — que sustenta uma indústria forte, salários mais altos e crescimento duradouro;
- Não há política industrial possível em um país onde o povo está permanentemente (pré)ocupado — tentando sobreviver até o fim do mês.
Mas nada disso é possível sem um Estado ativo, planejador e comprometido com o desenvolvimento nacional:
- O Estado não é obstáculo ao crescimento – é o instrumento fundamental para organizá-lo;
- É o Estado que investe onde o mercado não investe, que coordena políticas industriais, que protege empregos e que garante direitos.
Enfrentar o neoliberalismo, portanto, não é uma abstração ideológica — é uma necessidade histórica para um país que pretende crescer com inclusão, produzir com soberania e distribuir renda com justiça.
Não é uma disputa técnica, é política:
- De um lado, um tripé que governa para o mercado, protege juros altos e naturaliza a desigualdade;
- Do outro, um tripé que governa para o povo, valoriza o trabalho, fortalece a indústria e devolve dignidade à maioria da população.
Em síntese, o Brasil não precisa escolher entre responsabilidade e justiça social. Precisa escolher para quem governa.
O país não se sustenta mais apoiado por um tripé elaborado por quem nunca pegou ônibus, nunca viveu de salário mínimo e nunca trabalhou seis dias por semana.
Está na hora de o Brasil se apoiar em outro tripé – um que tenha pé no chão, compromisso com o trabalho e coragem para enfrentar o neoliberalismo – e que realmente possa garantir o bem-estar das pessoas e o desenvolvimento duradouro e sustentável do Brasil.
Sem mercado interno forte, não há reindustrialização possível — apenas dependência e precarização.

