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Reindustrialização Sem Enfrentar o Rentismo é Ilusão. Por Ricardo Guerra

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Depois de anos de desmonte, abandono e submissão ao rentismo, há sinais de esforço do governo Lula para retomar uma política industrial:

  • O Brasil até começou a se mover nessa direção;
  • Mas é preciso dizer com clareza  — ainda é muito pouco, muito pouco mesmo.

A questão central é que não basta retomar o que foi destruído. É preciso avançar e ir além do que já fomos. Mas tentar fazer isso sem enfrentar o rentismo é pura ilusão.

A reabertura da CEITEC, a tentativa de recuperação da Avibrás, a reativação de plantas de fertilizantes, o projeto do submarino nuclear, o investimento para a conclusão da planta da Hemobrás, o crédito público voltando a cumprir papel indutor e a reconstrução do diálogo entre Estado e produção importam. Mas, isoladamente, não rompem com o vazio neoliberal.

A dimensão do estrago não é retórica — é estrutural. Nos anos 1980, a indústria de transformação chegou a representar cerca de 25% a 27% do PIB brasileiro. Hoje, gira em torno de 11%:

  • Trata-se de uma das maiores desindustrializações precoces do mundo em desenvolvimento;
  • Perdemos complexidade produtiva, densidade tecnológica e capacidade de gerar empregos qualificados.

Não é apenas uma queda estatística — é perda de soberania econômica. E recuperar o estrago exige muito mais ousadia:

  • Exige grande aporte de investimento público e centralidade real da indústria no projeto nacional;
  • A indústria é um dos pilares fundamentais da soberania – e não se reconstrói a base industrial de um país com passos tímidos.

Após décadas de desindustrialização, o Brasil tornou-se cada vez mais refém do exterior: vulnerável às crises globais, dependente de tecnologia alheia e incapaz de garantir empregos de qualidade ao seu povo.

Nesse contexto, movimentos de retomada de empresas estratégicas como a Avibrás e o complexo naval de Itaguaí — grande instalação industrial dedicada à indústria naval de defesa — não podem ser improvisados nem episódicos:

  • Um país que não domina sua própria defesa aceita ser tutelado;
  • Indústria de defesa significa tecnologia, inovação, engenharia avançada, capacidade de dissuasão e, evidentemente, geração de divisas para o Brasil.

O mesmo vale para a CEITEC, estatal de semicondutores no Rio Grande do Sul. Sua reabertura é um passo decisivo, mas isolado:

  • Em um mundo marcado por disputa tecnológica aberta, reabrir uma fábrica não é suficiente;
  • É preciso escala, continuidade, encomenda pública e integração entre universidades, indústria e defesa;
  • Sem isso, permaneceremos consumidores permanentes de tecnologia estrangeira.

Esse raciocínio também se aplica ao Complexo Econômico-Industrial da Saúde. A pandemia deixou evidente que depender de insumos farmacêuticos ativos, vacinas e equipamentos hospitalares importados é uma vulnerabilidade estratégica:

  • Saúde não é apenas política social — é política industrial;
  • Países desenvolvidos tratam o setor como eixo de inovação, biotecnologia, pesquisa científica e produção de alto valor agregado;
  • O Brasil possui Fiocruz, Butantan, Hemobrás, universidades públicas e um parque farmacêutico relevante — mas sem coordenação industrial e encomenda tecnológica consistente, continuaremos dependentes do exterior em áreas críticas.

Seguindo a mesma linha de abordagem, a reativação das plantas de fertilizantes no Paraná, em Sergipe e na Bahia aponta na direção correta, mas não resolve o problema estrutural da dependência externa:

  • Fertilizantes são segurança alimentar, estabilidade de preços e soberania nacional;
  • O Brasil não pode aceitar ser uma potência agrícola dependente de insumos importados;
  • Afinal, nenhuma nação forte abriu mão de produzir internamente ou terceirizou o próprio futuro.

Empresas nacionais como Petrobrás, Embraer, WEG, Moura Baterias, Tramontina, Taurus, Alpargatas, Positivo, Romi, Eurofarma, EMS, Libbs e Biomm, ao lado da indústria alimentícia, da siderurgia, da mineração e dos estaleiros, demonstram que o capital produtivo brasileiro responde quando o Estado lidera:

  • Mas essas empresas não podem caminhar sozinhas;
  • Ainda mais pressionadas por juros elevados, câmbio instável e um sistema financeiro que premia o rentismo e penaliza quem produz.

É importante observar que o mundo desenvolvido não abandonou a política industrial — ao contrário:

  • Os Estados Unidos aprovaram o CHIPS Act e o Inflation Reduction Act, mobilizando centenas de bilhões de dólares para fortalecer semicondutores, energia e manufatura avançada;
  • A China articula planejamento estatal, crédito direcionado e política tecnológica há décadas;
  • A Alemanha subsidia energia e protege sua base industrial para manter competitividade.

Política industrial não é anacronismo ideológico — é prática corrente das grandes potências. E mais do que nunca, o governo brasileiro precisa ter a compreensão de que pólos isolados não edificam um projeto nacional:

  • O Porto Digital, em Pernambuco, por exemplo — iniciativa relevante da indústria do século XXI — precisa ser integrada à indústria, à defesa, à energia e ao mercado interno em uma estratégia contínua e de longo prazo;
  • Da mesma forma, Petrobrás, BNDES, Banco do Brasil e Caixa devem ser tratados como o que são: instrumentos de desenvolvimento, não problemas a serem contidos – nenhum país se industrializou abrindo mão do seu sistema financeiro público. 

Paralelamente, a tudo isso, é indispensável valorizar o trabalho — fortalecendo o salário mínimo, ampliando o emprego e o mercado interno:

  • Essas não são “políticas sociais separadas” da indústria. São sua base material;
  • Sem povo com renda, não há indústria forte.

Além disso, o custo da energia — insumo básico de toda produção — precisa voltar a ser tratado como condição estratégica para reindustrializar o país, recuperar a competitividade da indústria nacional e reduzir a dependência externa, contexto no qual Angra III não pode ser vista como um problema, mas como parte da solução: 

  • Energia firme, estável e de baixo custo relativo no longo prazo é elemento central para qualquer projeto industrial soberano;
  • Países que lideram a indústria mundial não abriram mão de planejar sua matriz energética nem submeteram a produção aos humores do mercado;
  • Afinal, sem energia acessível, não há indústria competitiva – e sem indústria, não há desenvolvimento, apenas dependência.

Ao mesmo tempo, a pauta da energia verde — solar, eólica, biomassa e hidrogênio — oferece ao Brasil uma vantagem competitiva singular, desde que articulada à industrialização e não reduzida a um discurso ambiental vazio:

  • E isso não exclui, de forma alguma, o ainda gigantesco potencial da energia fóssil;
  • Petróleo e gás seguem sendo vetores centrais de financiamento, tecnologia e soberania, área em que o país acumulou expertise reconhecida internacionalmente;
  • Nenhuma transição energética bem-sucedida se faz negando a realidade produtiva — faz-se planejando, integrando e industrializando.

Por outro lado, o país não pode desperdiçar a oportunidade histórica de tratar como eixo estratégico suas vastas reservas de terras raras, fundamentais para a indústria de alta tecnologia, a transição energética e a disputa geopolítica do século XXI:

  • Terras raras não são apenas mineração;
  • São poder industrial, soberania tecnológica e capacidade de disputar o futuro. 

Sem política industrial, continuaremos exportando recursos brutos e importando valor agregado — repetindo a lógica colonial sob nova roupagem. E, apesar de em termos de política industrial o Brasil voltar a dar passos importantes, ainda pequenos, mas importantes — o momento histórico exige muito mais:

  • Exige política industrial explícita, com enfrentamento ao rentismo e ruptura com o dogma neoliberal;
  • Investimento público pesado, energia barata e planejamento estatal.

Enfim, nenhum país se desenvolveu ajoelhado diante do mercado. Não basta retomar o que foi destruído — e, sobretudo, é preciso reconhecer: avançar sem enfrentar o rentismo é ilusão.

Enquanto a taxa básica de juros permanecer estruturalmente elevada, drenando recursos do orçamento público e desestimulando o investimento produtivo, qualquer política industrial será limitada: não há projeto nacional consistente com o capital financeiro capturando a prioridade macroeconômica do país.

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