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Empreendedorismo de exaustão e rumos republicanos. Por Rodrigo Medeiros

Em ambiente econômico de elevada precariedade e informalidade laboral, não é difícil entender o fenômeno do “empreendedorismo de exaustão”. Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)

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Foto de Fernando Frazão – Agência Brasil

Original em: https://jornalggn.com.br/analise/medeiros-empreendedorismo-de-exaustao-e-rumos-republicanos/

De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, o emprego celetista no Brasil apresentou expansão ao longo de 2025, pois houve um saldo positivo de 1.279.498 postos de trabalho. Os serviços responderam pela maior parte desse saldo.

O salário médio de admissão foi de R$ 2.294,62, um aumento real de R$ 31,77 no salário médio de admissão em relação ao ano anterior. Esse seria um sinal de mercado de trabalho aquecido e que justificaria uma taxa básica de juros tão elevada? No Espírito Santo, por sua vez, o salário médio de admissão foi de R$ 2.124,29.

Tendo em vista o caráter estruturalmente precário do mercado laboral brasileiro, mesmo após a reforma trabalhista (2017), considero que o livro ‘Brasil no espelho’ (Globo Livros, 2025), do cientista político Felipe Nunes, trouxe uma interessante contribuição para o debate público. Irei citar elementos do capítulo 4 do livro.

Segundo Nunes, “os brasileiros formam um povo sofrido e cansado, resignado, mas que continua sonhando e batalhando em busca de uma vida melhor”. Ainda de acordo com o professo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), “o sentimento de cansaço prevalece na sociedade”. Mulheres se declaram mais cansadas do que os homens por conta de razões históricas e tradicionais que conhecemos.

Nesse ambiente econômico de elevada precariedade e informalidade laboral, não é difícil entender o fenômeno do “empreendedorismo de exaustão” no Brasil. Conforme revelou o professor, 84% dos brasileiros necessitam de mais de um trabalho para complementar a renda. Portanto, é razoável que 83% das pessoas digam que querem (e precisam) ter um negócio próprio.

A pesquisa analisada ao longo do livro aponta para um empreendedorismo de exaustão. O cansaço, em síntese, “está relacionado à insatisfação com a vida atual como um todo e com a situação financeira”. Quem está insatisfeito se sente mais cansado.

Nunes afirmou que os “brasileiros são individualistas e descrentes das soluções coletivas”. Em números, 74% acreditam que só podem contar com suas próprias forças. O sentimento de desamparo é maior entre os mais pobres. Conforme revelou o professor, “71% dos brasileiros concordam com a ideia de que o Estado deve atuar para reduzir a desigualdade”.

Em termos de perspectivas futuras, Nunes afirmou que “os brasileiros não acreditam em mobilidade social”. Eles acreditam que as boas oportunidades da vida dependem do berço de nascimento. Não se trata então de uma obra de esforço e de um real mérito individual, segundo descreveu do professor: “Deus no comando”.

A leitura do livro de Felipe Nunes me fez refletir sobre o Brasil e os seus eternos retornos. Para alguns, as eternas reformas regressivas precisam continuar puxando o país para o passado de desamparo social e liberalismo darwinista, como foi o caso da Primeira República, oligárquica e antissocial. Com o orçamento secreto e o que vier “para ajudar”?

Estamos testemunhando uma onda de destruição lunático-libertária na Argentina. Como sabemos, a nostalgia liberal argentina disputou o palco político principal com o peronismo desde meados do século passado. Crises diversas se sucederam desde então naquele país e os argentinos não conseguiram superar essas duas nostalgias políticas até o momento.

Nunes encerrou o capítulo 4 do seu livro afirmando que “as visões dos brasileiros sobre riqueza, pobreza e desigualdade combinam elementos contraditórios”. Dizem haver falta de merecimento na explicação da pobreza e “duvidam de que a riqueza dos ricos venha do trabalho, mas não aceitam a ideia de que os ricos devem partilhar sua riqueza”. Construiremos, afinal, qual tipo de república assim?

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