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Gracias a la vida: Tensão e emoção na luta armada durante ditadura militar de 1964. Por César Fonseca

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O relato de Cid Benjamin para a repórter Hildegard Angel na TV 247, “Cid Benjamin relembra luta armada, exílio e sua trajetória na esquerda”, é imperdível.
O mais interessante e tocante da entrevista é o tom pacífico sereno da maturidade do entrevistado, contando sua história dramática de guerrilheiro com toda a sabedoria acumulada por um jovem de 21 anos, quando participou do sequestro político do embaixador dos Estados Unidos, e que, hoje, aos 78 anos, apresenta clarividência e lucidez, para fazer a crítica e a autocrítica de uma trajetória política em tempos politicamente atormentados.
Cid reverencia os que enfrentaram, sem medo da morte, os ditadores, com inteligência, ousadia e coragem, em busca de um ideal, mas considera ter sido um erro a luta armada como política de ação pragmática contra a ditadura, que durou 20 anos(1964-1984); tratou-se de um heroísmo ancorado na mistura de lucidez e loucura desesperada de uma geração de 21 a 25 anos, que resolveu pegar em armas para tentar levar o Brasil ao socialismo; todos estavam embalados no sonho da luta política de Marx, Engels, Lenin, Trotsky, Stalin, Fidel Castro, Mao Tse Tung, Che Guevara etc.
Do outro lado dessa trincheira dos guerrilheiros de 1964, dos quais Cid fazia parte, como integrante de grupos revolucionários radicais como MR-8 e ALN, estavam a burguesia capitalista escravocrata e os militares anticomunistas, cuja cabeça, no pós-segunda guerra, era feita pelo exército imperialista americano, diferente da cabeça militar que fez a Revolução de 1930, adepta do nacionalismo varguista.
A correlação de forças era adversária dos revolucionários, engajados na proposta de revolução brasileira, que o movimento revolucionário de 1930 despertou para a prática do nacionalismo varguista como base para construir o Estado Novo, conduzido ditatorialmente por Getúlio, a fim de erguer o Brasil Nação Soberano, sonhado pelos revolucionários positivistas do varguismo, herdeiro do positivismo socialista de Júlio de Castilho.
Seria essa a Independência Nacional verdadeira?
SONHO E REALIDADE
Os guerrilheiros sonhadores de 1964 entraram, com armas em mãos, numa roubada ao enfrentarem o exército poderoso, aliado de Washington, oposto, ideologicamente, ao que perfilou com Getúlio, na Revolução Tenentista, para construir, na Era Vargas, a política econômica e social nacionalista trabalhista, que os comunistas renegaram por orientação de Moscou, então dominada por Josef Stalin.
Não, os guerrilheiros, de armas em punho, iriam enfrentar o exército reacionário, anti-getulista, udenista, aliado da burguesia escravocrata e do imperialismo americano, que havia, com a UDN antinacionalista, derrubado, primeiro, Vargas, em 1954, e, dez anos depois, em 1964, o Jango trabalhista, taxado de comunista pela Casa Branca, então munida de armas atômicas contra o marxismo-leninismo, em plena guerra fria.
Estava por trás dos guerrilheiros o confronto ideológico capitalismo versus comunismo entre Estados Unidos e União Soviética, pano de fundo do panorama histórico contemporâneo; naquela altura da história brasileira, entre 1930 e 1964, o poderoso partido comunista, no Brasil, conduzido pelo Kremlin, não entendeu que a luta de Vargas, padrinho político de Jango-Brizola, essencialmente, era contra o imperialismo inglês, que os americanos herdariam, no pós-guerra, para continuar o domínio imperialista anglo-saxão no mundo, hoje, com Donald Trump na cabeça.
RADICALIDADE IDEOLÓGICA FATAL
Certamente, os guerrilheiros contra a ditadura, combatida por Cid Benjamin, em seu depoimento a Hilde Angel, não contavam que iriam enfrentar, não o exército de 1930, nacionalista, simpático à Revolução Socialista Soviética, que sublevou o Brasil, em 1922, contra o imperialismo inglês, sócio interno do colonialismo econômico burguês, mas as forças armadas de 1964, antinacionalistas, orientadas pelo império americano, na tarefa de não permitir outra Cuba socialista na América do Sul; afinal, naquele momento, a geopolítica global estava polarizada, Moscou x Washington, capitalismo x comunismo, e os guerrilheiros estavam ao lado do comunismo, em radicalidade total contra o capitalismo.
A burguesia colonialista, escravocrata tupiniquim, ameaçada, ironicamente, pelas reformas(burguesas) de base, brandidas por Jango Goulart, se juntaria aos militares pró-Washington, reacionários, financiados pela campanha anti-comunista americana, para ultra radicalizar contra os guerrilheiros; dessa forma, partiram para a carnificina, nos anos 1970; eliminaram, brutalmente, os adversários alinhados aos movimentos revolucionários; os torturadores obtinham as confissões dos guerrilheiros aprisionados e em seguida os matavam, para não deixarem rastro.
O depoimento cheio de tensão e emoção de Cid Benjamin, sobretudo, exala odores ideológicos variados de um panorama histórico de uma geração na flor da idade na guerra santa pelo idealismo, onde o coração fala mais alto do que a razão, na luta contra o imperialismo; não se trata de condenar o que ele acha ter sido um erro – a luta armada entre duas forças desproporcionais –, nem de exorcizar o que poderia ter sido considerado um mal.
Ao contrário, ao assumir a realidade em sua dinâmica histórico-social dialética, Benjamin reverencia o espírito do tempo que se levantou em ira santa contra a opressão capitalista, conduzida por uma burguesia colonial militarista, apoiada pelo imperialismo americano; lucidamente, porém, o ex-guerrilheiro faz a autocrítica da luta armada.
Para ele, a pedagogia revolucionária, aos seus olhos de hoje, de um novo tempo, seria perseverar na democracia; Benjamin, nessa hora, se coloca na condição de engenheiro de obra feita, construindo idealmente o que poderia ser um sucesso: a conquista da democracia sem luta armada, conduzida por uma geração de jovens sem maturidade revolucionária, oposta à orientação revolucionária conduzida por Lenin, na União Soviética, durante a revolução bolchevique, com o apoio decisivo do poderoso Exército Vermelho, chefiado por Trotsky.
LEI DE TALIÃO ABASTARDADA
A guerrilha, para derrubar a ditadura, caia, na autocrítica de Cid Benjamin, no mesmo erro dos ditadores que derrubaram o processo democrático, com uma diferença: não tinha as armas dos ditadores, algozes da democracia; não funcionou a Lei de Talião que os guerrilheiros ergueram: olho por olho, dente por dente; perderam de lavada, conforme a lei da correlação de forças.
Ao final, a ditadura iria cair sob fogo dos que a incentivaram – os americanos com proposta do Consenso de Washington –, para evitar que as mudanças revolucionárias viessem por força do processo democrático, algo imponderável, sabendo que a burguesia brasileira nunca foi democrática, sempre submissa às forças externas, refratária do liberalismo americano que, na verdade, nunca foi democrático.
O exemplo desta evidência, do perfil imperialista americano, pode ser comprovado no momento histórico atua pelo imperialismo trumpista, que, mesmo na decadência, ainda se julga o dono do mundo; o reinado da força, como proclama Trump, faz circular pelos mares as frotas americanas, armadas de bombas atômicas, para conter adversários ideológicos, como o Irã e a Venezuela; se, hoje, a impetuosidade imperialista decadente se mostra em sua força total; imagina-se como se postava no auge do seu poder, como em 1964, quando Washington mandava e desmandava, com a força da moral vitoriosa da segunda guerra mundial.
NOVA REPÚBLICA REFÉM DE WASHINGTON
A fragilidade da esquerda brasileira, que o depoimento de Cid Benjamin deixa patente, incapaz de enfrentar os militares, iria se revelar, em essência, no pós-ditadura militar, na vigência do poder civil; com a Nova República, a partir de 1985, a verdade ficaria exposta nos anos seguintes, com os governos neorepublicanos, ideologicamente, sociais democratas, de direita, esquerda e centro, rendidos ao Consenso de Washington; este imporia o neoliberalismo ideológico depois da queda do Muro de Berlim, em 1989; portanto, do ponto de vista ideológico, o panorama político, no período pós-ditadura, seguido pela Constituinte, que culminou com a Constituição de 1988, não foi o que os guerrilheiros de 1964, entre os quais estava Cid Benjamim, sonhavam, isto é, o domínio da esquerda; não, saiu vitoriosa a direita, expressa no Centrão, que, desde lá, domina o Congresso nacional, impedindo avanço das reformas econômicas e políticas que configurariam verdadeira revolução social democrática verdadeira.
CISÃO DEMOCRÁTICA E DOMÍNIO DO CENTRÃO
Em 2018, haveria a cisão radical: a direita e a ultradireita fascistas se uniram para vencer a democracia liberal neorrepublicana, com o intuito de destruí-la, como ficou patente na tentativa bolsonarista de golpe, em 2022.
A esquerda, na qual estavam engajados os guerrilheiros de 64, dançou na história, porque, na Nova República, ela se rachou entre PSDB e PT, em governos de conciliação, sob o tacão do Consenso de Washington, do qual estão, até hoje, prisioneiros de política econômica neoliberal, no cenário da financeirização econômica.
Talvez, quem sabe, a história teria sido outra, conforme Benjamin tenta imaginá-la, idealmente, se a pedagogia democrática tivesse prevalecido na ação da esquerda então ultra-radical, em sua opção pela luta armada, para tentar alcançar o regime socialista; os dois livros que, na entrevista, Benjamin presenteia Hildegard Angel – “Gracias a la vida” e “Democracia sempre” – são o retrato histórico de um tempo do qual a democracia ainda não se libertou, inteiramente; a prova é o ensaio de luta na disputa ideológica que está em curso entre democratas e fascistas na campanha eleitoral de 2026, que se inicia agora, para valer.
Não se pode afirmar com convicção que o radicalismo político está distante, de modo a evitar surtos terroristas de correntes radicalizadas; atualmente, ao contrário de 1964, quem está na ação terrorista não são os jovens sonhadores de esquerda com a democracia, mas os fascistas que, sob o bolsonarismo, partiram para derrotar o processo democrata, na base do terrorismo de direita antidemocrática, como se tentou repetir 1964, em forma de farsa, em 2022.
O Brasil, no ano em que Lula como cabeça das forças progressistas busca o quarto mandato, continua tenso, assustador e emocionante, como mostra a entrevista de Hildegard Angel com Cid Benjamin.
Conversas com Hildegard: Cid Benjamin relembra luta armada, exílio e a sua trajetória na esquerda
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