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O cálice. Por Rubens Gennaro

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Original em: https://hojepr.com/coluna-gennaro-o-calice/

Reza a lenda — e toda boa crônica começa com algo que reza — que um cálice de prata desembarcou em Curitiba por volta de 1670, depois de enfrentar o Atlântico, o porto de Paranaguá, o lombo suado de mulas e a paciência infinita de religiosos católicos portugueses. Não era um cálice qualquer. Tinha peso, brilho e aquela solenidade silenciosa das coisas feitas para durar mais que seus donos.

Destinava-se a missas, sacramentos e pecados bem confessados. Mas Curitiba, desde cedo, mostrou que não respeita muito o destino das coisas.

Em algum ponto mal documentado da história — talvez durante uma procissão, talvez numa madrugada chuvosa, talvez num cochilo de sacristão — o cálice foi saqueado. Não com violência, é claro. Cálices não são roubados aos berros. São extraviados com elegância, quase por distração, como se quisessem sair caminhando sozinhos.

A partir daí, o objeto sagrado iniciou uma vida social intensa.

Passou pelas mãos festivas de famílias abastadas, cada uma deixando nele não marcas visíveis, mas histórias invisíveis. Italianos brindaram com vinho espesso, falando alto e gesticulando mais ainda. Poloneses o encheram de vodca, em silêncios respeitosos que só quebravam após o terceiro gole. Alemães testaram sua resistência com cervejas densas e brindes sincronizados. Portugueses, nostálgicos, talvez tenham derramado nele vinho do Porto e saudades do além-mar.

Árabes o observaram com curiosidade, respeitando mais o metal do que o uso. Judeus o trataram com aquela distância respeitosa que se tem diante de objetos alheios à própria tradição — mas nunca recusaram um brinde, porque a vida, afinal, também é celebração.

O cálice, que nascera para o sagrado, foi aprendendo o profano com rapidez. Tornou-se testemunha de noivados improvisados, acordos comerciais duvidosos, reconciliações alcoólicas e discussões filosóficas que começavam profundas e terminavam em gargalhadas sem sentido.

Os séculos passaram. As famílias mudaram. As casas foram demolidas. E o cálice, como certos personagens de Curitiba, simplesmente continuou por aí.

Há poucos anos, surgiram boatos inquietantes — e deliciosos. O cálice teria sido visto em bares e botecos do centro da cidade. Não em vitrines, não atrás de vidros, mas em plena ação. Circulando de mão em mão, sendo preenchido com cerveja artesanal, cachaça envelhecida, drinks de nomes impronunciáveis.

Homens e mulheres jubilosos — e alguns francamente devassos — beberam nele sem a menor ideia de que seus lábios tocavam um objeto que já ouvira latim, pecados coloniais e promessas feitas de joelhos. Brindaram aniversários, divórcios, vitórias do Coritiba, derrotas do Atlético e até reconciliações que duraram menos que a bebida.

O cálice não julgava. Nunca julgou. Prata aprende cedo a guardar silêncio.

E então, como acontece com tudo que vira lenda, ele sumiu outra vez.

Hoje ninguém sabe ao certo onde está o cálice. Alguns dizem que repousa esquecido numa prateleira de antiquário, disfarçado entre bugigangas caras. Outros juram que virou troféu numa cobertura da Batel, usado apenas em noites especiais, quando a consciência pesa menos que o vinho.

Há quem aposte que está no fundo de um bar decadente, servindo como taça comunitária em comemorações improvisadas. E há os mais místicos, que garantem: o cálice aparece apenas a quem realmente precisa beber dele — não importa o motivo.

A pergunta persiste, ecoando pelos séculos e pelas calçadas de Curitiba:

— Onde estará agora o cálice… e com quem?

Talvez esteja exatamente onde sempre esteve: passando de mão em mão, ouvindo histórias, absorvendo risadas, pecados e brindes. Um objeto sagrado que aprendeu, com o tempo, que o divino e o profano costumam beber no mesmo copo.

Depois disso, o cálice desapareceu.

Não foi vendido, não foi doado, não foi apreendido. Simplesmente deixou de ser visto. Nenhuma foto, nenhum recibo, nenhuma história bem contada. Só versões — e versões mal contadas sempre dizem mais do que a verdade.

Há quem jure tê-lo visto pela última vez numa mesa de canto, num bar sem nome, numa noite em que ninguém lembrava bem o motivo da comemoração. O cálice passou de mão em mão, foi erguido, tilintou uma única vez — som seco, curto, quase metálico demais — e depois disso não estava mais lá.

Alguns dizem que voltou ao sagrado. Outros, que afundou de vez no profano. Há quem afirme, em voz baixa, que ele nunca some: apenas escolhe com quem ficar. Não por fé, nem por mérito, mas por necessidade.

Talvez esteja agora num armário fechado, envolto em pano grosso, longe da luz. Talvez esteja cheio neste exato momento, sendo erguido por alguém que não faz ideia do que segura — e que, estranhamente, sente um certo peso na mão, como se não fosse só prata.

O fato é que ninguém procura um cálice desaparecido com muita insistência. Certas coisas preferem não ser encontradas.

E se, algum dia, você entrar num bar qualquer de Curitiba e lhe oferecerem beber num copo antigo, pesado, frio demais para a temperatura ambiente, aceite.

Mas não pergunte de onde veio.

O cálice nunca responde.

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