Quando publiquei minha primeira análise sobre o crescente distanciamento entre Cuba e Venezuela, há alguns dias, recebi alguns comentários que me fizeram refletir. Uma colega que admiro muito apontou que meu texto poderia parecer apressado. Sua perspectiva crítica, expressa com carinho e respeito profissional, me levou a esperar, a observar com mais calma, a permitir que a situação se consolidasse antes de escrever novamente.
Neste, 19 de fevereiro de 2026, os fatos falaram por si. E doeram.
I. Os fatos que não admitem debate
3 de janeiro de 2026. Uma operação militar dos EUA em Caracas altera o cenário político venezuelano. O novo governo, liderado por Delcy Rodríguez, assume o poder com uma mensagem ainda não explícita, mas que o tempo revelará.
Janeiro-fevereiro de 2026. Uma após a outra, visitas de alto nível dos EUA acontecem em Caracas: o diretor da CIA, John Ratcliffe; o secretário de Energia, Chris Wright; e a reabertura formal da embaixada dos EUA, fechada por sete anos.
18 de fevereiro de 2026. A notícia que finalmente confirma o que muitos de nós não queríamos ver:
O general Francis L. Donovan, chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, reúne-se em Caracas com a presidente interina Delcy Rodríguez, o ministro da Defesa Vladimir Padrino López e o ministro do Interior Diosdado Cabello.
Qual a agenda? De acordo com declarações oficiais de ambos os lados, “cooperação bilateral para combater o narcotráfico, o terrorismo e lidar com os fluxos migratórios”, no âmbito da implementação do “plano de três fases” do presidente Donald Trump para a Venezuela.
Ambos os governos enfatizaram, textualmente, “a via diplomática” como um mecanismo para resolver as divergências.
O ministro da Defesa e o ministro do Interior da Venezuela — duas figuras que durante anos foram símbolos de proximidade com Cuba — reúnem-se com o chefe militar dos EUA para elaborar uma agenda conjunta.
Enquanto isso, Cuba mantém suas missões humanitárias no país.
II. O que isso significa para a relação entre Cuba e Venezuela
Durante vinte anos, a relação entre Havana e Caracas foi definida por uma frase que ambos os governos repetiam como um mantra: “incondicionalidade”.
A Venezuela exportava petróleo a preços preferenciais, chegando a 90 mil barris por dia no auge das exportações. Cuba enviava médicos, professores, treinadores esportivos e colaboradores para diversos setores sociais. Era uma relação assimétrica, mas mutuamente necessária. E, acima de tudo, era uma relação apresentada como inquebrável por se basear em princípios compartilhados.
Hoje, o petróleo venezuelano não chega mais a Cuba por ordem expressa dos Estados Unidos. O presidente Trump anunciou isso em 3 de janeiro: “uma completa cessação dos embarques de petróleo e da assistência financeira que a Venezuela fornecia a Cuba”. E o novo governo venezuelano, longe de resistir, aprofundou sua reaproximação com Washington.
Qual é o papel da “incondicionalidade” quando não há mais reciprocidade da outra parte?
III. Relativamente às observações recebidas
Aquela colega que questionou meu primeiro artigo, sem saber, me ajudou a ser mais rigorosa. Ela apontou que minhas conclusões poderiam parecer precipitadas e que era melhor esperar por mais informações antes de tomar qualquer coisa como certa.
Hoje, com os eventos de 18 de fevereiro esclarecidos, acredito que a espera valeu a pena. Não para confirmar um preconceito, mas para reconhecer uma realidade:
O Ministro da Defesa da Venezuela se reúne com o Comando Sul para planejar uma “agenda de cooperação conjunta”.
• As missões cubanas continuam na Venezuela, enquanto o governo que as recebe coopera abertamente com Washington.
• O petróleo, que sustentou a relação durante décadas, já não flui para Cuba.
Não se trata de ideologia. Trata-se de fatos.
IV. A pergunta incômoda
Cuba ainda mantém suas missões humanitárias na Venezuela. Milhares de médicos, professores e outros profissionais de saúde cubanos continuam a servir o povo venezuelano. Isso honra os princípios da Revolução Cubana, e acho importante reconhecer isso.
Mas a questão que se coloca, e que eu levanto respeitosamente, mas honestamente, é:
Até que ponto a solidariedade cubana está sendo usada por um governo que, na verdade, optou por se alinhar com Washington?
Havana permanece em silêncio até o momento. Não há queixas na ONU, nem declarações na CELAC, nem comunicados da ALBA-TCP. E esse silêncio, vindo de Cuba — um país que historicamente denunciou toda e qualquer mudança geopolítica adversa — é, por si só, significativo
V. Cuba pode continuar a ver a Venezuela como o que ela já foi?
Essa é a pergunta que me acompanha há semanas. E depois de 18 de fevereiro, acho que a resposta merece uma reflexão honesta:
Cuba pode e deve defender seus princípios. A solidariedade com o povo venezuelano não precisa acabar simplesmente porque o governo atual mudou de rumo. Mas há uma diferença entre demonstrar solidariedade com um povo e manter a ficção de uma aliança estratégica com um governo que já não age como tal.
O governo venezuelano hoje:
• Coopera abertamente com o Comando Sul.
• O país aceitou o corte no fornecimento de petróleo a Cuba como parte do acordo com os EUA.
• Recebe visitas de altos funcionários da CIA e do Departamento de Energia.
Ele declara que o “caminho diplomático” com Washington é a forma de resolver seus problemas.
Nada disso se parece com a Venezuela que conhecíamos. É uma Venezuela diferente. E reconhecer isso não é deslealdade; é realismo.
VI. Reflexão final
Escrevo estas linhas com a convicção de alguém que observa com atenção e respeito uma relação histórica em transformação. Não pretendo ditar verdades absolutas, mas sim compartilhar uma interpretação pessoal dos acontecimentos.
A geopolítica é complexa. Os Estados tomam decisões difíceis, muitas vezes guiados pela sobrevivência em vez de pelo afeto. Mas as pessoas têm memória longa. E o povo cubano, que tanto deu durante duas décadas de colaboração com a Venezuela, merece saber a verdadeira dimensão do que está acontecendo.
Agradeço à minha colega, cuja opinião prezo e respeito, por ter colocado uma pausa onde eu havia colocado urgência. O tempo provou que ela estava certa sobre a necessidade de esperar. Mas também me permitiu ver com clareza o que, até então, era apenas uma intuição.
Hoje os fatos são claros. Que cada um tire suas próprias conclusões.–
Caracas – Havana, fevereiro de 2026