O Brasil vive um momento que merece ser analisado com menos pessimismo estrutural e mais objetividade econômica — apesar de ainda operar sob a lógica do chamado “tripé macroeconômico” (metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário), herança do ciclo neoliberal iniciado nos anos 1990.
Mesmo sob o peso persistente do rentismo na estrutura financeira, os números reais recentes mostram uma economia resiliente, dinâmica e com enorme potencial de transformação social:
- O PIB brasileiro voltou a crescer de forma consistente, o desemprego recuou para níveis historicamente mais baixos, o agronegócio manteve forte desempenho exportador, a indústria iniciou processo de reanimação (ainda que tímido) e o setor de serviços segue aquecido;
- Enquanto a renda média real também segue se recuperando e a massa salarial atingiu patamares recordes — apesar de ainda estar muito aquém do desejado e esperado para um país tão rico como o Brasil;
- Além disso, programas de transferência de renda, a retomada de investimentos públicos e o novo ciclo de crédito vêm fortalecendo o mercado interno.
Em síntese, o dado central é este: mesmo com juros bastante elevados e com forte remuneração ao capital financeiro, o Brasil cresce.
Isso demonstra que há força estrutural na economia produtiva e também capacidade de expansão quando há coordenação entre política fiscal, investimento público e fortalecimento do consumo popular.
Conforme as emblemáticas palavras da saudosa Professora Maria Conceição Tavares, “o povo não come PIB”. É preciso avançar um passo além. E isso pode ser viabilizado adotando políticas práticas concretas, como por exemplo:
- Tarifa zero no transporte público;
- Consolidação da escala 5×2;
- E elevação do Salário Mínimo para um patamar compatível com a grandeza da economia do Brasil e a real necessidade do Povo Brasileiro.
Adotar tarifa zero no transporte público urbano, realizando uma política econômica, não apenas social, com transporte gratuito e redução direta do custo de vida, promoverá um aumento imediato da renda disponível das famílias, maior circulação de pessoas na cidade — e dinamização do comércio, serviços e pequenas empresas.
Consolidar a escala 5×2 como padrão efetivo, reduzindo jornadas extenuantes e ampliando qualidade de vida, promoverá ganhos indiretos de saúde pública, aumento de produtividade e fortalecimento da economia do lazer, cultura e turismo.
E elevar o Salário Mínimo, por exemplo para algo próximo de 500 dólares (cerca de R$2.500) — promoverá a ampliação do mercado interno de forma decisiva, reduzindo desigualdades e acelerando a formalização do emprego.
Isso não é nada radical, tampouco pode ser considerado algo inovador ou fora da realidade histórica da humanidade:
- Diversos países já compreenderam que o bem-estar não é inimigo do crescimento — e sim condição para ele;
- Caminhar nessa direção política significa, portanto, aliar produtividade e inclusão.
Não se trata de copiar modelos, mas de compreender que crescimento e proteção social não são incompatíveis:
- O Brasil já possui uma das maiores economias do mundo, vastos recursos naturais, base industrial ainda relevante, sistema financeiro robusto e capacidade tecnológica crescente;
- O que nos separa de padrões de bem-estar semelhantes aos de países bem sucedidos nessa área, não é falta de riqueza é a forma como distribuímos e priorizamos essa riqueza — esses países combinaram mercado com forte proteção social, serviços públicos universais e valorização do trabalho.
O Brasil precisa compreender, definitivamente, que o bem-estar social amplia o capital humano, a inovação e a estabilidade econômica. O país já demonstrou que quando fortalece o salário mínimo, amplia políticas públicas e investe no mercado interno, cresce com inclusão:
- A experiência histórica mostra que ciclos de expansão sustentada ocorreram quando houve valorização do trabalho e coordenação do investimento público;
- A questão, portanto, não é se o Brasil pode dar esse salto. É quando decidirá fazê-lo.
Os números atuais mostram que a base está posta. Se avançarmos na direção de transporte público gratuito, jornada de trabalho digna e salário mínimo robusto, poderemos construir um modelo de desenvolvimento mais próximo de um padrão de bem-estar desejado — adaptado, é claro, à nossa realidade continental, tropical e diversa — mesmo quando ainda continuamos presos a amarras impostas pelo modelo neoliberal.
O Brasil tem escala econômica, mercado consumidor, capacidade produtiva e riqueza natural. O que falta é decisão política para deslocar o centro do modelo — do rentismo e do ideário neoliberal — para o desenvolvimento produtivo e social:
- Isso é plenamente viável e possível de executar;
- Basta haver reorganização de subsídios, organização de uma reforma tributária progressiva, redução do custo da dívida, e combate à regressividade.
Enfim, se o Brasil cresce apesar da submissão ao modelo neoliberal de gerir a economia, imagine se superar esses limites?
Quando isso acontecer, o salto será histórico.

