Responder precisamente é difícil, porque Samuel era polivalente. Vou dar aqui minha visão, selecionando algumas das múltiplas e marcantes personalidades em que se desdobrava o personagem. Espero acrescentar uma gota de decifração da esfinge samuelina. Mas, alerta! É visão de amigo e seguidor, portanto suspeita. Fica a promessa: vou tentar ser o mais isento possível pois é a melhor maneira de produzir algo legível e, assim, homenagear tanto Samuel como as leitoras e leitores que se dispuserem a me acompanhar na viagem de memória.
- i) Samuel – diplomata econômico
Samuel, o diplomata economista, era antes de tudo um resistente. Não fazia concessões e perseguia objetivos tenazmente, sem se afastar de suas crenças e seu método.
Conheci SPG no final dos anos 1980 e limiar dos 1990. O mundo, e o sistema internacional andavam em metamorfose kafkiana, desde que a Guerra Fria terminara, com a reunificação da Alemanha (1990) e a implosão da URSS (terminada em 1991). Aqui na terra, a era de governo militar fechara-se em 1985. Durou uma eternidade de 21 anos! Deixou-nos herança difícil, nos campos político e social. Por outro lado, às vezes surpreendente, convenhamos, nos campos econômico e diplomático. A escala da economia ampliara-se, com reforço da indústria. A política externa consolidara-se sobre uma base soberanista que retomava as plataformas de ação da Política Externa Independente, dos anos 1960. E também do ISEB – o lendário instituto que profetizava um desenvolvimento nacional sobre bases nacionais.
Superado o ciclo autoritário, grassou, no Brasil da época, uma campanha feroz contra tudo que fosse tentativa de industrialização e autonomia. O combate à hiperinflação, que batia à porta, era uma justificativa universal usada pelas Cassandras de plantão para defender o economicídio como solução final para o sistema produtivo brasileiro. Que emancipação econômica, que nada!, ao descarte a teoria da dependência, a substituição de importações, o estruturalismo, o industrialismo… A nova cartilha do desenvolvimento era o neoliberalismo do consenso de Washington – vindo à luz em decálogo, em 1989. E notem, por favor (é importante!), a coincidência de datas e momento. Enquanto a URSS implodia, o decálogo de Washington era apresentado ao mundo como as novas tábuas da lei econômica.
Voltando para o Brasil, depois de meu primeiro momento diplomático no exterior engajo-me na Divisão de Comércio Internacional que tratava das rusgas comerciais entre Brasil e o Primeiro Mundo. Samuel era o chefe do Departamento Econômico, do qual a DCI fazia parte. Trabalhar em sua equipe logo me reconciliou de vez com o Itamaraty. Confirmou-me que, mesmo que a independência e o sonho do desenvolvimento estivessem em declínio como lema e parâmetro, naqueles tempos do pensamento único, ainda existiam intelectuais resilientes, que se encastelavam na defesa da soberania econômica e política brasileira e abominavam as capitulações e a aceitação de ingerências. Da trincheira do DEC e da DCI, lutávamos contra as sobretaxas injustas, os antidumping marotos, os sistemas de cotas indecorosos, o desrespeito gritante à Cláusula de Habilitação do GATT – todos os mecanismos, enfim, que eram aplicados ao Brasil por países ricos, para manter nossa indústria de cabeça baixa… Samuel, chefe do Departamento Econômico, era o maestro da resistência.
E não se fazia de rogado. Resistia, como podia, ao rolo compressor da prédica neoliberal que movia batalha ingrata contra o desenvolvimento nacional. Porém, a pressão era muita. Pelo novo códex ideológico, que invadia a mídia e a academia, o entreguismo virava virtude, o industrialismo virava tabu. Pregar a autossuficiência e o planejamento econômico passava a significar autoconceder-se atestado de descapacidade mental. E o Brasil foi forçado a renunciar (ou, ao menos, a adiar) seus mais dourados sonhos industriais. E aí, chegamos a 1990… Para desespero dos que queriam ver o Brasil como país desenvolvido, um governo neoliberal iria instalar-se no poder.
Nesse tempo, Samuel foi eclipsado da sua posição de chefia e luta, e enviado a Paris. Precisava acumular tempo no exterior para progredir na carreira. Permanece por cinco anos no destino de ouro, trabalhando, escrevendo, pensando e preparando sua volta à terra firme. E a volta lhe proporcionaria dedicar-se uma de suas preferidas atividades: editar.
- ii) Samuel-editor
Voltando ao Brasil Samuel-editor assumiu o IPRI, um órgão tributário do Itamaraty. Foi em 1994. Seguiram-se anos de atividade fértil e febril. Publicação e cultivo da memória diplomática brasileira. Fiel a suas ideias, Samuel desenvolveu intensíssimo trabalho editorial em temas como: desenvolvimento; estratégia e poder; reflexões sobre a divisão entre centro e periferia no sistema mundial; visões sobre a inserção internacional do Brasil; soberania nacional; dinamização e consolidação do MERCOSUL.
Nessa época, além de editar, teve campo livre na área do ensino. Organizou programas de mestrado, extensão e pesquisa, sempre sobre a economia brasileira e seu quadro de inserção internacional. E ainda lhe sobrou tempo para escrever e editar, em 1999, o clássico Quinhentos anos de periferia.
Mas, a fase editorial acabaria, como foi praxe na vida do personagem, em conflito e luta por ideias e ideais.
Na virada do milênio, a tentativa de implantação da ALCA entornou o caldo. Era o neoliberalismo travestido em anulação do Brasil com organização produtiva própria. Naquele momento, até Celso Furtado (então, ainda, íntimo da equipe no poder), embora com a saúde fragilizada, e quase retirado da vida pública, reuniria a força do universo para declarar publicamente que, se aquela ideia castradora prosperasse, na forma em que vinha prosperando, o Brasil deixaria de ser país independente no prazo de não mais que duas décadas.
Sim, a ALCA seria o tiro de misericórdia na economia brasileira, que acabaria por tornar-se formalmente tributária da economia norte-americana e manietada por centros de poder externo. Aliás, misericórdia não haveria nenhuma! O ataque à economia nacional seria eficiente e operativamente cruel. Entretanto, que conste… o governo da época, já então entrando no ocaso do segundo mandato presidencial, sabia bem disso, e procurava ganhar tempo e reagir como era possível, prevenindo o pior. Adotava a estratégia de negociação escalonada. Porém, o rolo compressor do neoliberalismo era implacável. Buscava a vitória imediata e total.
Samuel estrilou. Pintou pintura de guerra e apresentou armas. Bateu de frente contra o a negociação em curso e seus condutores. A ALCA anularia nossos sonhos de desenvolvimento industrial! Que a trocássemos pela ALCSA – Área de livre comércio da América do Sul (que havia sido proposta no governo Itamar Franco quase uma década antes).
Fired! Samuel, que tinha sido promovido a embaixador em 1999, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, por seu mérito de organizador e intelectual, foi, dois anos depois, sumária e rumorosamente demitido do IPRI. E, diziam: um diplomata em funções não pode atacar as políticas de seu governo e seu chefe – então o Professor Celso Lafer, um respeitável adversário. Samuel nunca concordou com aquela proibição.
No choque de sumô, entre dois lutadores com peso governamental diferente, Samuel caiu fora do círculo. Saiu com a consciência tranquila. Mais que isso: com a consciência de ter atuado, quando calar seria autoemascular-se moralmente.
iii) Samuel Secretário-Geral
E a ALCA não passou. Veio o Governo Lula da Silva. Celso Amorim, outro sem-medo, assumiu o Itamaraty e Samuel tornou-se o todo-poderoso Secretário-Geral das Relações Exteriores. Primeira providência: fazer reavaliar o projeto-ALCA, que já fazia água. Também por ter murchado a vontade norte-americana de conceder livre-comércio a seus pares regionais. Vencia o prazo da chamada fast track (e me desculpe o leitor não familiarizado com esse vocabulário e tanta sigla já mencionada … estou pronto a explicar tudo em privado, se preciso, mas aqui não há espaço).
Por esse tempo, a economia brasileira entrou em ciclo luminoso. Lula da Silva montou um Governo de coalizão entre o capital e o trabalho. Era uma aliança por muitos tida como improvável, condenada a naufragar. Revelou-se possível e virtuosa! Dezenas de milhões de brasileiros pobres, gradualmente desempobrecidos, foram sendo convidados a sentarem-se à mesa do mercado de consumo. O aumento da demanda desencadeou ciclo de crescimento.
Com o PIB revigorado, muita coisa se tornou possível de realizar no plano externo. E a obra de Celso-Samuel se multiplicou. Vieram a UNASUL e a CELAC, o Brasil na CAF, as mesas IBAS, a ABC finalmente vertebrada, a ASA (América do Sul – África), a ASPA (América do Sul – países árabes). Mais que nunca, o Brasil tornou-se um país com influência global, impulsionado por sua economia e suas empresas já de alcance mundial. E, também, pelo seu soft power mobilizador, usado para catalisar os anseios do mundo-Sul por uma sociedade internacional mais justa. E tudo isso, sem negligenciar uma relação, sadia e paritária, com os países desenvolvidos, potencializadora de resultados de parcerias densas, não raro apelidadas de “estratégicas”.
Nesse manobrar em tantas frentes, o dado básico, sem dúvida, era a integração com o entorno. Ecoando Amorim, Samuel sempre ressaltou a simbiose de nosso ethos puramente brasileiro, com a cultura da pátria grande latino-americana. E a integração sociocultural refletia o que se passava no plano econômico, com o transbordo da economia brasileira por todos os quadrantes vizinhos, induzindo a um surto de crescimento de dimensão continental.
Não por acaso, no corredor frontal aos cômodos palaciais da Secretaria-Geral do Itamaraty, Samul fez alinhar, em escultura de busto, os próceres da independência continental sul-americana. Lá posavam, severos, orgulhosos e heroicos – homenageados, de coração, pelo oráculo samuelino, e como que convocados a voltar a combater em uníssono…
Já na área doméstica de um MRE operacional, Samuel (sempre jogando em dupla com seu chefe, Celso Amorim, e sempre contando com uma equipe fiel e empolgada de colaboradores diretos e indiretos) foi provocando sucessivas revoluções benignas. Benignas porém magnas. Nem dá para fazer um relato exaustivo. Recordo, apenas, que, sob sua orientação, surgiu o sistema mais aperfeiçoado de gradação de postos que o Itamaraty já conheceu. Avanço enorme em matéria de tratamento justo aos servidores do MRE. E o Brasil ampliou como nunca sua rede no exterior. Espalhou olhos, bocas e ouvidos diplomáticos por toda a África, todo o Caribe, e na Ásia profunda. O desafio logístico foi tremendo, e Samuel, do alto de seu prestígio crescente junto ao Governo brasileiro e à intelectualidade do país, descobriu-se um negociador de verbas capaz de movimentar mares e montanhas.
Para povoar a pletora de novas repartições, admitiram-se novos diplomatas, em número inédito. Todo o quadro do Itamaraty renovou-se. Valorizaram-se as carreiras do Serviço Exterior, que dividem a responsabilidade de operar ou apoiar a representação brasileira no exterior. E (aspecto fundamental!), empreenderam-se ações afirmativas, por origem racial, enquanto a força de trabalho feminina era, também, valorizada. E ascendia.
E mais um toque revolucionário: o exame de acesso à carreira foi democratizado e modernizado, com a ênfase da seleção passando a recair, não mais, apenas, nas provas de língua e expressão, mas agora, também, nas de matérias substantivas: direito, economia, história, geografia. O Instituto Rio Branco modernizou-se, assumindo novo padrão operacional e profissionalizante.
Tempos de mudança e reciclagem! E, outra novidade – essa causadora de muita polêmica, envolvendo os diplomatas experimentados que iam completando tempo de exterior e voltando a Brasília: Samuel nos cominava, a todos, a ler livros de sua escolha antes de abraçar o trabalho em alguma lotação de destino. Era um estágio de leitura, de quatro ou cinco obras sobre economia brasileira, história diplomática e teoria do desenvolvimento. Um momento de reflexão e renovação intelectual. Cumpria-se na própria Secretaria-Geral do Itamaraty. Lidos os livros, ao longo de muitos dias, o SG Samuel convocava os leitores a um congraçamento e brainstorm sobre o exercício.
Que remédio?…, às vezes era difícil convencer as pessoas a aceitarem sem resmungo o tal retiro neoescolar. Seria algo como reaprender o que devia já estar bem sedimentado. E, no entanto, eu garanto: todos saíam daquele rito de passagem enriquecidos. Mesmo aqueles que talvez preferissem a escolha de outra bibliografia. Porque, em qualquer hipótese, a leitura era útil, e fazia pensar. Para muitos de nós, chegava a ser um deleite.
E nessa altura dos comentários sobre a rotina de trabalho, chegamos a um ponto menos óbvio, mas que não pode ser esquecido ou evitado: Nem sempre era fácil trabalhar com Samuel Pinheiro Guimarães, chefe e amigo.
Justamente porque Samuel não era um só. Era um bloco movente de personalidades intensas e intelectualizadas. Era diplomata, era professor, era administrador, era reformador, era escritor e polemista, era editor, era palestrante, era estrategista, era historiador, era filósofo. E ainda ocupava seus momentos de ócio, exercendo os hobbies de bibliotecário, orientador intelectual e crítico acadêmico – adorava criar listas de boas obras: filmes, ensaios e livros da cultura brasileira e da cultura universal.
E era incansável. Acompanhar seu ritmo não era fácil. Reclamações de parte dos assessores por acúmulo de tarefas? Jamais. Preocupação sim! sobre a capacidade real que teríamos de dar conta de um rosário multiplicativo de tarefas e missões. Porque Samuel nos provocava. E nos desafiava a fazer o trabalho ou cumprir as missões na forma exata que ele considerava ideal.
Imbuído de sua missão diplomático-civilizadora-desenvolvimentista-soberanista. ele não perdia de vista o mote de que as tarefas de reformar o Itamaraty, o Brasil e o mundo eram urgentes. São urgentes. E era essa urgência ampla, febril e dramática que explicava tanta exigência de performances exemplares. De si mesmo e dos outros. Dos despachos com o chefe, plenos de cobranças, os assessores às vezes saíamos sobrecarregados, preocupados, apressados, devidamente banidos de nossas zonas de conforto. Mas, saíamos, também, contaminados por sua vontade de acertar e de contribuir para o aperfeiçoamento constante da política externa brasileira e para a construção dessas quimeras de muitas décadas: um Brasil forte e produtivo; uma América Latina autoconsciente e integrada; uma ordem mundial mais justa. Reforçávamos a convicção de que era privilégio andar na órbita daquela figura singular e nos desdobrávamos, todos nós, em cada missão, em cada texto preparado, para arrancar-lhe o sorriso recompensador do trabalho bem feito.
Nunca discordei daquela sua atitude radical de cobrança. Samuel estava certíssimo. Cabe ao funcionário público carregar sempre a ânsia e a vocação obsessiva de fazer o máximo pelo Brasil, pois é do desenvolvimento econômico e administrativo do Brasil que advirá a sonhada remissão dos sofrimentos sociais do país. Chefes do funcionalismo devem cobrar sem descanso a aplicação, a qualidade produtiva, e até a hiperatividade… de si mesmos, e de seus comandados, em busca dos objetivos comuns.
Agora… quando a pressão parecia subir demais e as exigências ameaçavam me fazer protestar, eu tinha minha metodologia própria para enfrentar seu comando: recordava, para mim mesmo, que o oráculo-Samuel foi a pedra no caminho do pensamento único. Não vacilou em remar contra a corrente. Sabia o que estava fazendo. Ao pensar assim, eu redobrava a dedicação ao mestre.
- iv) Samuel ideólogo
Eu gostava mesmo era de ouvir as conferências do meu chefe Samuel! porque ele dizia o que ninguém dizia… e seu discurso nacionalista inflamado era tudo o que as plateias queriam ouvir – pensamento vivo em defesa do Brasil e de um sistema internacional mais justo. Sem concessões. Ouvi-lo e testemunhar a empolgação das plateias era uma terapia – uma lavagem de alma e intelecto.
O efeito de sua pregação era o mesmo entre empresários, militares, acadêmicos, parlamentares, diplomatas. Eram muitos, por esse tempo, os que andavam saturados do pensamento único, mas se recolhiam, reduzidos ao silêncio pelo rolo compressor da comunicação mediática, social e acadêmica. A todos, Samuel servia – com poucas modulações que se fizessem necessárias conforme o ambiente – um discurso denso, libertador e vibrante. Incentivador da autoestima brasileira.
E abria o debate. Exortava a resistir, denunciar, construir uma economia complexa e expansiva, defender a soberania do Brasil e a nossa capacidade de pensar com nossa própria cabeça, andar com nossos próprios pés, de brasileiros e de latino-americanos. O que se pode dizer, em resumo, dessa pregação e exposição constantes, que Samuel enfrentava e desenvolvia, considerando-as parte de suas atribuições de trabalho, é que comunicou à sociedade brasileira o padrão crítico e analítico que figuravam na base de sua atuação diplomática, sempre inspirada no desenvolvimentismo e na emancipação brasileira. E, também, na observância de uma disciplina administrativa robusta, garantidora da eficiência funcional do Itamaraty.
Mas, atenção! No dia a dia da burocracia e dos contatos oficiais, Samuel não era nenhum irresponsável. Ao contrário, era habilidosíssimo. Dominava a arte de agir e expressar-se, como diplomata, conforme o ambiente. Apenas, se tivesse que moderar a retórica por exigência do momento ou do interlocutor, em nenhuma hipótese renunciava completamente a sua cota pessoal de crítica e polêmica.
De tudo que dizia dava para concluir que o primeiro e principal roteiro de ação para alcançar o nirvana político era contestar poderes impositivos externos, inspiradores e manipuladores do pensamento único. Contestava-os desabridamente, em suas palestras, em suas entrevistas, nos encontros com diplomatas brasileiros, nas conversas cotidianas. Exortava-nos a que os contestássemos também. Mas exortava-nos, sobretudo, ao estudo, a frequentar a academia, a abrir o debate de ideias junto à sociedade.
Não! esperar que o mercado livre e o atrelamento cego de nossa economia a comandos externos resolvessem nossos problemas seculares para nos tornar fortes e desenvolvidos era pura carochinha. Dizia isso com todas essas letras. Vociferava, com arte e com ciência, advogando, sustentadamente, pelo reforço da produção nacional, a recomposição de nossa economia, o investimento em indústria de base, o incentivo à inteligência inovadora. Defendia as reformas sociais brasileiras, dinamizadoras do mercado consumidor através da redução das disparidades. E pregava, aí também sem medo de contestação e polêmica (ele, que vivia sob pressão mediática permanente), o fortalecimento da defesa nacional e o diálogo constante com o estamento militar brasileiro. E tudo aquilo, todo seu discurso programático, era dito com coerência e naturalidade, sem traço de temor dos estilingues liberais ainda muito poderosos no Brasil do início do século XXI.
Tudo, também, em clima, indispensável, de fidelidade e dedicação às diretrizes do Ministro das Relações Exteriores, de quem Samuel era executor de políticas e conselheiro – ambos, de resto, umbilicalmente afinados às políticas reformadoras dos governos Lula da Silva, ao final dos quais Samuel seria nomeado Ministro-Chefe de Assuntos Estratégicos na estrutura do governo federal brasileiro.
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Esse foi Samuel Pinheiro Guimarães… ou, pelo menos, aqui fica um resumo incompleto de sua trajetória e narrativa. Que tenha o poder, este resumo, de animar a leitora, o leitor, a aprofundar o conhecimento e a reflexão sobre o grande personagem. Ou até de levá-la(o) a revisitar o Desafio Brasileiro na Era dos Gigantes ou os Quinhentos Anos de Periferia, como eu mesmo fiz antes de embarcar nestas recordações. Para recordar o pensamento vivo de SPG.
- v) Finalizando. Samuel presente!
E para fechar esse texto de homenagem, só vejo uma solução digna do meu amigo Samuel, escritor e pensador. Recordo, evoco e invoco, a imagem forte e tocante de tantos brasileiros anônimos, atônitos, despossuídos, sem acesso à educação e cultura, sem-terra ou sem-teto, nascidos para trabalhar e servir às classes favorecidas. São personagens vitais de nossa sociedade moedora de gente. Era a eles, e à emancipação deles, essencialmente, que Samuel dedicava sua força de trabalho, seu sonhar-ação constante. E era pensando neles que, obstinadamente e mesmo sob ataque, não recuava de suas convicções e mantinha intacta sua vontade inesgotável de contribuir para o desenvolvimento brasileiro.
E essa lembrança do nosso povo ainda carente de resgate econômico, após cinco séculos de história, nos recorda conteúdo básico das lições do professor Samuel:
A diplomacia não é uma atividade estanque e fria, desligada de nossas realidades, às vezes coloridas, às vezes trágicas. Ao contrário: ela influi direta e significativamente sobre nosso cotidiano e sobre nossa organização social e econômica. Porque é sobre nosso cenário interno de país que tantos atos externamente realizados ou acordados vão-se refletir. Como tal, a Política Externa Brasileira, e a de qualquer país democrático, tem de ser participativa, inclusiva e aberta ao debate. E tem de ser conduzida com o coração e a mente permanentemente alertas e tenazmente mobilizados para a ação.
Samuel foi um grande. É um grande. Faz imensa falta.

