Cadastre-se Grátis

Receba nossos conteúdos e eventos por e-mail.

Arbitragem internacional, segurança jurídica e o papel do STJ. Por Thomas Law

Thomas Law é advogado, especialista em Direito Penal Econômico, relações internacionais, Direito Internacional e cooperação jurídica entre Brasil, América Latina e China, mestre em Direito das Relações Internacionais Econômicas, doutor em Direito Comercial pela PUC-SP, pós-doutor da USP, presidente do Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina) e da Coordenação Nacional das Relações Brasil e China da OAB e professor convidado do Prolam-USP.

Mais Lidos

Original em: https://www.conjur.com.br/2026-fev-25/arbitragem-internacional-seguranca-juridica-e-o-papel-do-stj/

A crescente complexidade das operações econômicas globais impõe novos desafios à gestão do risco jurídico. A multiplicidade de jurisdições, a diversidade de sistemas legais e a elevada sofisticação contratual exigem mecanismos capazes de oferecer previsibilidade, neutralidade e segurança jurídica. Nesse contexto, a arbitragem internacional, além de ser compreendida como um simples meio alternativo de resolução de disputas, também se consolida como uma verdadeira infraestrutura jurídica das operações globais.

Evidências e arquitetura contratual internacional

A pesquisa conduzida pela Queen Mary University of London evidencia de forma clara essa mudança de paradigma. De acordo com seus dados, 87% dos agentes econômicos entrevistados preferem a arbitragem internacional como método de resolução de disputas em contratos transnacionais. Desse universo, 39% optam pela arbitragem como via exclusiva, enquanto 48% preferem a arbitragem combinada com a mediação.

Esses números demonstram que a arbitragem ocupa posição central na arquitetura contratual internacional, ao passo que a mediação surge como mecanismo complementar, integrado de maneira estratégica à gestão do conflito.

Na prática, a arbitragem funciona como uma infraestrutura jurídica de gestão de risco, incorporada desde a fase de negociação e estruturação dos contratos. A escolha pelo método visa reduzir incertezas, assegurar neutralidade decisória, permitir a escolha de julgadores tecnicamente especializados e garantir a executabilidade das decisões em diferentes jurisdições. Trata-se, portanto, de um instrumento de governança corporativa e planejamento estratégico em operações globais.

A preferência significativa pela combinação entre arbitragem e mediação reforça essa lógica. A mediação possibilita soluções consensuais, preserva relações comerciais e reduz custos e tempo de resolução, enquanto a arbitragem permanece como garantia estrutural de segurança jurídica caso não haja acordo. Esse modelo escalonado revela racionalidade econômica e maturidade institucional, com a arbitragem desempenhando o papel de eixo central do sistema.

Atuação do STJ e consolidação de um ambiente arbitration-friendly

No contexto brasileiro, a pesquisa empírica realizada pela Fundação Getulio Vargas sobre a atuação do Superior Tribunal de Justiça no controle judicial da arbitragem internacional acrescenta um elemento decisivo ao fortalecimento do instituto.

Os dados levantados indicam que o STJ adota postura claramente “arbitration-friendly”, com elevados índices de deferimento de pedidos de homologação de sentenças arbitrais estrangeiras. Os estudos apontam que mais de 90% desses pedidos são deferidos, evidenciando alto grau de previsibilidade e segurança jurídica.

Além disso, a pesquisa demonstra que o STJ, em regra, restringe sua análise aos requisitos formais previstos na Lei de Arbitragem e na Convenção de Nova York, evitando qualquer reexame do mérito das decisões arbitrais. As hipóteses de indeferimento concentram-se majoritariamente em vícios processuais objetivos, como falhas na citação ou violações manifestas à ordem pública, e não em divergências interpretativas ou revisões substanciais da decisão arbitral. Soma-se a isso a constatação de que o tempo médio de tramitação dos pedidos de homologação vem sendo progressivamente reduzido, reforçando a eficiência institucional do Tribunal.

Corte Especial, previsibilidade e mensuração do risco jurídico

Outro dado relevante destacado pela pesquisa da FGV é o fato de que a homologação de sentenças arbitrais estrangeiras é competência da Corte Especial do STJ. Essa característica institucional contribui para a uniformidade jurisprudencial, reduz a volatilidade decisória e aumenta a confiança dos agentes econômicos internacionais no sistema jurídico brasileiro. A atuação da Corte Especial permite maior previsibilidade quanto ao comportamento do Judiciário, elemento essencial para a mensuração do risco jurídico.

A partir desses dados, torna-se possível compreender a arbitragem internacional como ferramenta central de medição do risco jurídico. Em operações globais, o risco não é eliminado, mas pode ser mensurado, precificado e gerenciado. A previsibilidade procedimental, a especialização técnica dos árbitros, a estabilidade interpretativa dos contratos e a elevada taxa de reconhecimento das sentenças arbitrais pelo Judiciário brasileiro permitem que o risco jurídico seja incorporado aos modelos de decisão econômica, reduzindo custos transacionais e ampliando a segurança dos investimentos.

Assim, pode se considerar a arbitragem internacional com um papel essencial na organização das expectativas contratuais, na redução das incertezas jurídicas e na sustentação da confiança nas operações transnacionais. Amparada por dados empíricos e por uma atuação judicial consistente e previsível, a arbitragem consolida-se como verdadeira infraestrutura de gestão e medição do risco jurídico nas relações econômicas globais.

Artigos Relacionados

Glauber Fortalece Pauta De Esquerda No Congresso

Foto Rede 98 Fortalece a democracia e as pautas de esquerda, comprometidas com o desenvolvimentismo tocado pelo presidente Lula com valorização do social relativamente...

Comentários Sobre Conjuntura Internacional, por Marcelo Zero

Essequibo i. Dizer que a questão de Essequibo é uma agenda de Maduro ou do chavismo seria a mesma coisa que afirmar que a questão...

Manifesto Paraíso Brasil

Paraíso Brasil é movimento coletivo, vivencial e de conhecimento. Se refere à experiência de cada pessoa no Brasil, e à coletividade desta experiência. A...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Em Alta!

Colunistas