
As polêmicas listas de imóveis que o GDF cogita transferir para cobrir o rombo nas finanças do BRB incluíram, na primeira versão, um lote no Lago Sul que foi doado ao Ministério da Cultura, para a implantação do Parque Nelson Mandela e a criação do Museu Nacional da Memória Afrodescendente. No governo de Jair Bolsonaro, a administração federal devolveu o imóvel, segundo informa a Terracap.
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O terreno de 65 mil metros quadrados no Lago Sul, incluído na primeira relação de imóveis encaminhada à CLDF pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), para recapitalizar o Banco de Brasília (BRB), deveria abrigar um museu federal e o Parque Nelson Mandela. Uma pedra fundamental chegou a ser fixada em 1991, quando o próprio Mandela visitou Brasília. Localizado às margens do Lago Paranoá, à direita da cabeceira da Ponte JK, ele foi doado pelo GDF, em outubro de 2014, ao Ministério da Cultura, com o propósito de ali abrigar o Museu Nacional da Memória Afrodescendente (MNMAfro), sob responsabilidade da Fundação Cultural Palmares (FCP). Seria o primeiro museu afro de abrangência efetivamente nacional.

O projeto conceitual do MNMAfro foi elaborado pelo já falecido embaixador Alberto da Costa e Silva, renomado africanista brasileiro, eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2000. Diferentemente de outros museus dedicado às raízes africanas no Brasil, o museu inserido dentro do Parque Nelson Mandela não seria voltado somente à guarda de coleções, mas registrar e preservar a memória da trajetória dos afrodescendentes no Brasil, fomento à pesquisa científica, produção cultural e produção de conhecimento e educação. A instituição seria dividida em quatro módulos expográficos: Da África, com um acervo focado nos séculos XV e XIX; De Angolas, Congos e Moçambiques a Africanos, retratando o tráfico de escravos para as Américas; e Brasil pós-Abolição. Caberia a Fundação Cultural Palmares a gestão do espaço cultural.
Com o impeachment da presidente Dilma Roussef, o projeto foi deixado de lado no governo de Michel Temer (MDB). Na gestão de Jair Bolsonaro, a situação piorou, pois o ministério da Cultura foi extinto, transformado numa secretaria na estrutura interna do ministério do Turismo. No período de Bolsonaro, o principal presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, nomeado no final de 2019 e exonerado em março de 2022, teve sua gestão marcada por intensa polêmica e duras críticas ao movimento negro, no Brasil. Removeu homenagens a personalidades negras, como Zezé Motta e Gilberto Gil, do site da instituição.
O GDF informa que foi no último ano do governo Bolsonaro que o terreno foi devolvido à Terracap. Não há informações se a pedra fundamental ainda está no local. A soma da área do Museu mais a do Parque resultaria em aproximadamente 124 mil m².

Doação
Ex-governador Agnelo Queiroz (PT), sob cuja gestão, o lote foi doado ao Ministério da Cultura, lamenta que os governos subsequentes abandonaram o projeto que além de vitalizar o turismo local, seria um grande centro para a pesquisa acadêmica e preservação da cultura afrodescendente.
“Incluir esse terreno na lista de socorro ao BRB, fruto do desmando lá verificado para salvar o Banco Master, é mais um desatino. A concessão que fizemos tinha como objetivo um projeto futuro da cidade de resgate da cultura afrodescendente de todo o Brasil. O certo seria a retomada desse projeto que visa reforçar a cultura e o turismo no Distrito Federal” – disse ele a esta coluna.

O Projeto
Segundo relatos da época em que o museu foi idealizado, a proposta era que, no campo arquitetônico-urbanístico-paisagístico, o MNMAfro viesse a constituir mais um marco no acervo da arquitetura de Brasília, idealizada de acordo com os cânones modernistas, e por isso mesmo, tombada pelo IPHAN, patrimônio da humanidade.
Um concurso público internacional seria lançado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil para a elaboração do projeto arquitetônico. Pelas informações obtidas a ideia do concurso não foi igualmente executada, mas as referências conceituais chegaram a ser redigidas.
“O projeto arquitetônico testemunhar a qualidade da arquitetura pública contemporânea, observar a escala urbana do terreno; valorizar a relação com o lago Paranoá; manifestar, de forma explícita, que a edificação se integra à arquitetura da cidade capital, valorizando, assim, o patrimônio já existente. O edifício deve atender aos princípios universais de sustentabilidade e acessibilidade, como: conforto térmico; eficiência energética e do uso da água; acesso fácil e não discriminatório para todos os usuários. Dentre as hipóteses de implantação, volumetria e partido, devem ser considerados elementos arquitetônicos relacionados à cultura afro-brasileira” – descreve um documento da Fundação Cultural Palmares, datado de 2014.
“A obediência às condições ambientais favoráveis à guarda, exposição e preservação de acervos – prossegue o documento – deve nortear a fase inicial de definição de um projeto arquitetônico voltado para esse fim. Para isso, deve ser previsto o estabelecimento de um microclima, onde os níveis de temperatura, de umidade relativa do ar, de pureza do ar e de luminosidade possam ser controlados. O projeto paisagístico deve reforçar o sentimento de pertença e autoestima, prevendo a criação de áreas de lazer e fruição. Especialistas em espécies vegetais devem orientar sobre a seleção e adaptação da flora de origem africana ao cerrado, observando a escala bucólica da área.
Instituições internacionais, tais como o National Museum of African American History and Culture, o United States Holocaust Memorial Museum, o National Museum of African Arts/ Smithsonian Institute e o Schomburg Center chegaram a ser contatadas pelo ministério da Cultura do Brasil, no sentido de colaborar para a instalação do MNMAfro.

Hotel
Atualmente, a destinação do Lote B da atual QL 24 do Lago Sul – QL 9, pela antiga nomenclatura de endereçamento do Lago Sul– é o uso institucional. Mas no passado, ele já foi destinado a instalação de um hotel de luxo, estilo resort, rodeado de uma galeria comercial. Essa era a destinação prevista até o PDOT de aprovado em 2009.
No governo de Cristovam Buarque, cogitou-se usar o terreno como moeda de troca para a construção da Ponte JK, dentro de uma Parceria Público Privada. Do lado da margem do Plano Piloto, outro imóvel destinado a shopping – hoje fracionado em pequenos lotes – complementaria a compensação financeira à construtora que com recursos próprios viesse a pagar os custos da ponte.
O terreno não está mais na relação de bens a serem potencialmente doados ao BRB, para a cobertura do déficit gerado pelas negociações com o Banco Master. Entretanto, ele é sempre considerado uma joia da coroa, tendo em vista sua proximidade com o centro de Brasília e, ao mesmo tempo, com a natureza.

