
Original em: https://hojepr.com/coluna-gennaro-o-carrinheiro/
Naquela manhã de céu indeciso, nem cinza nem azul — coisa típica de Curitiba — Jovélio Silva empurrava seu carrinho como quem conduz uma carruagem real. Faltava-lhe o cavalo, sobrava-lhe dignidade. Aos 38 anos, moreno, 1,78 m de altura e uma disposição que faria atleta olímpico pedir arrego, era um dentre os 35 mil catadores de recicláveis que cruzavam a cidade em silenciosa procissão diária.
Doze horas por dia, religiosamente, percorria ruas, avenidas e vielas. Conhecia o humor dos bairros pelo tipo de lixo que produziam. No Batel, garrafas importadas; no Alto da XV, papelada filosófica; no Centro, promessas amassadas. O carrinho rangia como se opinasse sobre política, mas seguia firme — ao contrário de muita convicção por aí.
Foi numa dessas andanças, já próximo ao Centro Cívico, reduto onde os prédios são imponentes e as decisões, às vezes, nem tanto, que o destino resolveu brincar de roteirista. Ao lado de um centro político, entre papéis timbrados e copinhos de café esquecidos, Jovélio avistou objetos pessoais espalhados pelo chão, como se alguém tivesse tido pressa — ou culpa.
Havia uma agenda com anotações cifradas, um lenço perfumado demais para ser inocente e, por fim, uma estatueta. Mas não era qualquer estatueta. Tinha motivos eróticos, inequívocos, de natureza assumidamente priapesca. Uma peça que faria corar até estátua de praça.
— Valha-me Nossa Senhora do Reciclável! — murmurou Jovélio, ajeitando o boné surrado.
A peça trazia uma inscrição na base: um apelido gravado com capricho. Jovélio, homem de princípios e curiosidade moderada, decidiu consultar alguém de confiança. E eis que, como se convocado por roteiro divino, um pároco atravessava a rua.
O religioso, homem de passos curtos e olhar longo, ouviu a história com surpreendente compostura.
— Meu filho — disse ele, pigarreando como quem engole uma enciclopédia moral —, objeto achado deve ser devolvido. Procure o dono. Há um nome aí. A caridade também se faz com discrição.
Jovélio agradeceu. Guardou a estatueta com o cuidado de quem transporta dinamite social e, mesmo vestido com roupas puídas e impregnadas de sua lida honesta, decidiu adentrar os gabinetes do poder.
Ao atravessar as portas de vidro, sentiu o contraste: ali dentro o ar era condicionado; do lado de fora, condicionado era o destino. Foi recebido com olhares que misturavam desconfiança e alergia social.
— Vim devolver um pertence — explicou, erguendo a sacola como quem exibe troféu.
Passou por recepcionistas, assessores, subassessores e um sujeito que parecia assessor de si mesmo. Mostrou a inscrição, mencionou o apelido. Uns negaram conhecer, outros disseram que ali só se tratavam de “assuntos elevados”. Houve quem sugerisse que ele procurasse “a secretaria adequada”, embora ninguém soubesse qual.
Ao final, a solução institucional foi simples: convidaram-no a se retirar. O convite tinha a delicadeza de uma porta giratória empurrada com firmeza. Jovélio saiu com sua estatueta intacta e sua esperança amassada, mas não reciclada.
Durante dias, pensou no episódio. Devolveu o objeto ao esconderijo improvisado em sua humilde morada. Concluiu que certos mistérios preferem o anonimato.
Até que, numa tarde de garoa persistente, um homem engravatado — gravata discreta demais para ser honesta — aproximou-se enquanto ele separava latinhas.
— O senhor é Jovélio Silva, o carrinheiro? — perguntou, como quem confirma endereço de entrega.
— Depende do assunto — respondeu Jovélio, prudente.
O emissário sorriu com os lábios, não com os olhos. Informou que representava alguém que preferia permanecer desconhecido. Agradecia pela discrição e pela tentativa de devolução do “objeto pessoal”. Como prova de reconhecimento, entregava-lhe uma motoneta novinha, adaptada para transporte de resíduos, equipada com compartimentos, cobertura para chuva e até farol de LED que faria vaga-lume pedir demissão.
Além disso, um voucher — que o emissário pronunciou “walcher”, com convicção estrangeira — garantindo pernoites num hotel duas estrelas da capital por dois anos. Nada de luxo exagerado, mas cama macia, banho quente e café da manhã com pão de queijo digno.
Jovélio ficou mudo. Pela primeira vez em anos, seu silêncio não era cansaço, era espanto.
— E quem manda? — arriscou.
— Um amigo grato — respondeu o homem, já se afastando como personagem secundário que cumpriu sua função.A motoneta reluzia sob a garoa curitibana. O carrinho, aposentado com honras, parecia até suspirar de alívio. Nos dias seguintes, Jovélio tornou-se uma espécie de lenda urbana sobre duas rodas. Subia e descia ruas com eficiência invejável. Colegas catadores perguntavam se havia ganho na loteria.
— Foi promoção por honestidade — dizia ele, piscando um olho.
Nunca soube quem fora o proprietário da estatueta de intenções tão explícitas. Tampouco voltou a ver o pároco conselheiro. Mas aprendeu algo valioso: às vezes, a moral pública tropeça, a privada se esconde, e quem acaba acelerando rumo a dias melhores é justamente quem empurra o mundo com as próprias mãos. Atualmente Jovélio tem 4 carrinheiros catadores sob o manto de sua microempresa de reciclagem e recebe orientações administrativas e financeiras de instituições estatais.
Jovélio tem rezado muito, agradecido aos milagres da Nossa Senhora do Reciclável e consegue comer até três Chess burgers por dia no Big Mac. E claro, leva as embalagens para reciclar. Transitando 12 horas por dia nas ruas da Cidade. Roupas novas. Bons Tenis nos pés. Nem pensa na tal estatueta e ou em seu formato.

