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Se a tecnologia aumenta a produtividade, onde foi parar o tempo que ela deveria nos devolver? “A resposta honesta ficou retida. Capturada por quem controla as plataformas, os algoritmos e o capital. O progresso técnico aconteceu. A redistribuição de seus frutos, não”, explica o professor Marcio Pochmann, um dos maiores especialistas em trabalho do Brasil, no artigo “Menos horas, mais civilização”, publicado esta semana pelo GGN, colocando em outro patamar a discussão sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de 44 horas.
Pochmann, atualmente presidente do IBGE, destaca que vivemos um paradoxo perturbador: “A produtividade da economia digital cresce em ritmo sem precedentes. Algoritmos fazem em segundos o que levaria dias (…) E, ainda assim, trabalhamos tanto quanto antes ou até mais. O celular que deveria nos libertar se tornou correia de transmissão de uma jornada sem fim. O home office dissolveu a fronteira entre expediente e vida privada. O trabalhador de plataforma não tem patrão, não tem escritório, não tem horário, mas também não tem descanso garantido, nem previdência, nem direito à desconexão.”
O economista garante que o Brasil reúne as condições para inaugurar um quarto ciclo histórico ou para desperdiçá-lo. Toda vez que o Brasil avançou estruturalmente como nação, o tempo de trabalho diminuiu, tornando a vida dos trabalhadores mais digna. “Não é coincidência. É padrão.”
“O primeiro grande momento foi a abolição da escravidão, em 1888. O segundo momento chegou com a industrialização da Era Vargas. Em 1943, a Consolidação da Leis do Trabalho (CLT) fixou a jornada em 48 horas semanais, garantiu férias remuneradas e instituiu o descanso semanal obrigatório. O Brasil saía do agrarismo extensivo e entrava no século 20 com a modernidade do trabalho regulado. O terceiro momento foi a Constituição de 1988. (…) A jornada caiu para 44 horas semanais, direitos sociais foram ampliados, a previdência foi universalizada.”
“Reduzir a jornada legal atual, regulamentar o trabalho em plataformas, criar mecanismos para financiar a transição digital sem sacrificar emprego e renda não são propostas radicais. São a continuação lógica de uma trajetória civilizatória que o Brasil já percorreu três vezes”,
“O debate sobre a jornada de trabalho não é corporativo, nem anacrônico. É uma escolha estratégica sobre como repartir os frutos da tecnologia, pois o progresso serve tanto para concentrar renda ou para devolver às pessoas aquilo que é mais valioso do que qualquer salário. O tempo e a qualidade de vida digna!”, finaliza Pochmann.
Cartéis da inflação
Dois “cartéis informais” (se é que se pode chamar assim) turbinaram a prévia da inflação (IPCA-15) de fevereiro: a educação, com alta na casa de 8% nas mensalidades dos ensinos básico e médio; e a gasolina, em que distribuição e revenda embolsaram a redução dos preços nas refinarias feita pela Petrobras ao final de janeiro.
Gabriel Pestana, economista sênior da Genial Investimentos, destacou que a “gasolina ficou bem acima do projetado, enquanto víamos viés de baixa na projeção”.
Chuvas levam gestão de Zema para o ralo
O estrago em Juiz de Fora (MG) e cidades vizinhas não pode ser debitado somente a São Pedro. O governo de Romeu Zema (Novo) reduziu as verbas para combate a problemas causados pelas chuvas, de R$ 134,8 milhões (2023) para R$ 5,8 milhões (2025), segundo reportagem do UOL.
A desgraça mostra, de forma concreta, os efeitos dos “cortes de gastos” e a falácia da gestão privada do Estado.
Rápidas
O desembargador do TRT-2 Homero Batista lançará CLT Comentada 2026 no IAB na próxima quarta-feira, 16h, com terá transmissão pelo canal TVIAB no YouTube *** A Procuradoria Especial da Mulher do Senado Federal e a juíza do TJDFT Rejane Suxberger farão, na Biblioteca do Senado Federal, o lançamento da 2ª edição do livro Invisíveis Marias: histórias além das quatro paredes”, que aborda a violência contra a mulher *** A Niad lança a campanha “Mulher com M de Multiplicidade”, para celebrar o Dia Internacional da Mulher em 7 shoppings administrados pela companhia, em 4 estados (RJ, ES, PR e GO) e no Distrito Federal.


