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“Se uma guerra maior estourar, a Europa simplesmente deixará de existir”. Por Jenny Farrell

Entrevista revela a visão de Sergei Karaganov sobre o risco de guerra nuclear, a decadência da Europa e a guinada estratégica da Rússia rumo à Eurásia.

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Sergey Karaganov | Foto: Mikhail Sinitsyn /RG

Original em: https://vermelho.org.br/2025/11/17/se-uma-guerra-maior-estourar-a-europa-simplesmente-deixara-de-existir/

O cientista político e historiador russo Sergei Karaganov tem aconselhado a elite política da Rússia há décadas e integra comitês influentes de política externa e econômica. A Multipolar conversou com ele sobre o perigo de uma guerra nuclear, sua opinião sobre líderes europeus e suas propostas para que a Rússia se afaste do Ocidente e volte seu foco de forma mais intensa para a Sibéria. As afirmações de Karaganov são decididamente beligerantes e radicais, mas, segundo ele, são compartilhadas por 95 por cento da liderança militar e política da Rússia. Multipolar publica a entrevista para fornecer uma visão do pensamento dessa figura pública influente e da correspondente fração da elite russa, que considera a postura de Vladimir Putin em relação ao Ocidente como excessivamente moderada.

As declarações de Karaganov também ilustram a pressão política interna à qual Putin está submetido e o tipo de tomadores de decisão que um dia podem sucedê-lo em Moscou. A entrevista foi realizada em Moscou no dia 30 de outubro por Éva Péli e traduzida do alemão por Jenny Farrel.

Multipolar: Sergei Aleksandrovitch, quão alto o senhor estima atualmente o perigo de uma guerra nuclear, e quais fatores — militares, políticos, psicológicos — o senhor vê como as principais causas?

Karaganov: O perigo de uma guerra nuclear é alto e continua crescendo. Provavelmente está tão alto quanto no fim dos anos 1950 — exceto na Crise do Caribe, como chamamos a Crise dos Mísseis de Cuba, quando estivemos à beira do abismo. Por quê? Existem várias razões para essa escalada. Primeiro, a mudança no equilibrio de poder: a mudança mais rápida no equilíbrio de poder da história humana, em que novas potências estão ascendendo e antigas estão ficando para trás. Segundo, a perda de compreensão fundamental: a perda de entendimento sobre o que é “bom” e “mau” nas relações internacionais, bem como a ausência de uma base moral para a ação. Terceiro, a contra-ofensiva do Ocidente: a desesperada contra-ofensiva de um Ocidente que está perdendo sua dominância de 500 anos, que lhe permitiu enriquecer às custas do restante do mundo. Quarto, a degradação da elite: a imensa degradação intelectual e moral da elite, especialmente no Ocidente. Por isso, estou muito preocupado.

O senhor exige o restabelecimento do medo das armas nucleares. Na prática, como definir um “alvo limitado” na Europa cujo ataque, em sua visão, seria justificado sem provocar uma resposta nuclear da OTAN?

Precisamos superar o parasitismo estratégico que se desenvolveu nos últimos anos, afetando sobretudo a população europeia. Eles perderam o medo da guerra — especialmente da guerra nuclear. Ironicamente, esse medo foi um fator estabilizador nos últimos 70 anos. A Europa, que historicamente foi uma fonte de grandes conflitos, de racismo e colonialismo, pôde temporariamente esquecer sua responsabilidade e sua culpa perante o mundo graças à estabilidade bipolar entre os EUA e a URSS. Agora que a maior ameaça vem da Europa, deve-se lembrar que a Europa historicamente sempre esteve envolvida em grandes guerras. Não é necessariamente preciso recorrer à violência direta, mas sim restabelecer o medo da guerra, incluindo o renascimento do medo da guerra nuclear. Esse é um elemento-chave para trazer a Europa de volta a sua responsabilidade geopolítica.

O físico americano Theodore Postol alerta, com base em precedentes históricos como o exercício da OTAN “Able Archer 83”, que qualquer uso de armas nucleares — mesmo inicialmente limitado — inevitavelmente levaria a uma escalada nuclear incontrolável. Como o senhor avalia o risco de que um ataque nuclear limitado, pretendido pela Rússia, possa ainda assim sair de controle?

O uso de armas nucleares é um grave pecado moral. O mito da escalada incontrolável — ao qual eu mesmo contribuí parcialmente para evitar guerras — é ainda assim apenas uma lenda. Uma guerra nuclear pode ser vencida, mas Deus nos livre que ela comece! Se absolutamente necessário, o arsenal nuclear pode ser usado. Mas, além do risco de uma escalada incontrolável, o próprio uso de armas nucleares é uma séria falta moral, e espero sinceramente que não sejam usadas.

As suas teses recentes foram interpretadas no Ocidente principalmente como uma ameaça nuclear direta, não como um sinal estratégico destinado a forçar a desescalada ou o diálogo. Diante da subsequente recusa de comunicação por parte dos atuais líderes ocidentais: que passos concretos o senhor considera necessários para preencher a lacuna entre sua “catarse” pretendida para o Ocidente e a reação política real de “portas fechadas”? O que exatamente deve demonstrar a força e a eficácia de seu projeto estratégico?

Estamos lidando — especialmente na Europa — com pessoas absolutamente insanas. A elite europeia, nos círculos na qual cresci e que agora pertence ao passado, degenerou. Pelo que vejo, em vários países há pessoas com “cérebros de hiena” no poder, pessoas completamente inconscientes das consequências de suas ações. Por isso, o diálogo com elas é inútil. Elas só temem uma coisa — dor física. No entanto, podemos negociar com os americanos, que preservaram muito do seu potencial humano e sua compreensão do que a guerra realmente significa. Espero que ainda haja pessoas sensatas também na Europa. Simplesmente não as vejo mais.

Quais grupos específicos — políticos, profissionais, militares ou civis — no Ocidente, além dos governos atuais, o senhor vê como aqueles que poderiam levar suas ameaças a sério como um impulso final para o diálogo necessário para evitar uma catástrofe global e redesenhar a arquitetura de segurança? Quem poderia participar de tal processo?

Essa pergunta não é para mim, mas para vocês. Vocês vêm do Ocidente; estou aqui em Moscou. O Ocidente se isolou de nós — especialmente a Europa — para preparar sua população para a guerra. Atualmente não temos canais de cooperação com o Ocidente além dos oficiais, no mais alto nível. O Ocidente se isolou de nós. Portanto, somos forçados a negociar apenas a partir de uma posição de força. Embora, naturalmente, preferíssemos que ainda existissem pessoas razoáveis lá com quem seria possível um diálogo construtivo.

Muitos observadores acreditam que as sanções e a ajuda militar ocidentais criam uma dinâmica de escalada que força a Rússia a um dilema: ou demonstrar dissuasão eficaz ou correr o risco de ser lentamente desgastada. Como o senhor vê esse dilema estratégico?

Esse dilema existe. Critico nossa liderança por sua indecisão, mas acho que minhas palavras serão ouvidas. Acredito que, se uma guerra econômica está sendo travada contra nós, devemos responder com meios militares. É guerra. Por isso, sanções devem ser respondidas com ataques militares. A escala e o tipo de retaliação precisam ser cuidadosamente considerados em cada caso. A confiscação de ativos russos no valor de bilhões não é nada além de roubo e banditismo. Por isso, até um milhão de pessoas na Europa deve arriscar suas vidas. Caso contrário, sofrerão ataques devastadores. Considero isso uma etapa correta e inevitável, embora deseje sinceramente que não chegue a isso. Estou plenamente consciente de que tal cenário é um grande pecado envolvendo a morte de inúmeros inocentes, e desejo que isso permaneça apenas como um aviso. Devemos apresentar ao Ocidente um ultimato severo e exigir o seguinte: primeiro: a cessação imediata de todo apoio militar ao conflito na Ucrânia. segundo: a devolução plena e incondicional de nossos fundos soberanos.

A UE adotou o 19º pacote de sanções, e o presidente Trump anunciou novas sanções americanas contra empresas russas como Rosneft e Lukoil. Segundo Seymour Hersh, funcionários dos EUA acreditam que a economia russa já está significativamente enfraquecida e pode ser forçada “aos seus joelhos”. Como essas sanções são percebidas em Moscou?

A economia russa não pode ser forçada aos seus joelhos. Estamos vivendo muito bem. Você sabe disso, pois está em Moscou — uma das mais belas cidades do mundo. Acabo de voltar da Sibéria. É tão bonita lá. Mas tentativas de chantagem devem finalmente ser respondidas com meios militares. O elemento-chave da nossa resposta deve ser o conceito de assimetria. A vulnerabilidade dos ativos externos dos EUA é muitas vezes maior que a nossa. Devemos estar preparados para discussões diretas e duras, que avançarão para uma fase de destruição do capital acumulado do adversário em resposta às sanções.

Na sociedade russa, aparentemente há vozes que esperam uma reação mais dura de Moscou à política ocidental. Como o senhor avalia isso e como poderia ser essa reação sem expandir a guerra além das fronteiras da Ucrânia?

O que parecia radical há apenas alguns anos — a necessidade de ataques preventivos ou até de uma retaliação nuclear — agora é a opinião predominante. Minhas declarações anteriores, que causaram desconforto, agora refletem um amplo consenso: na minha estimativa, até 90 por cento da população e 95 por cento da elite político-militar compartilham essa visão. Não posso repetir o suficiente: o uso de armas nucleares permanece uma decisão moral grave e um grande pecado contra inocentes. Mas se surgir uma emergência extrema, o objetivo de tal passo seria trazer os loucos à razão e forçar o inimigo a encerrar a escalada. Por isso, estou convencido de que a sociedade russa apoiaria de forma plena e incondicional tais decisões estratégicas se se tornassem verdadeiramente necessárias. Além disso, diariamente enfrento críticas de cidadãos. Eles me acusam de falta de perseverança e consistência: apesar de meu apelo público ao uso do arsenal nuclear, eu supostamente falhei em fazer a liderança ativá-lo. Quero enfatizar: não quero que nossa liderança o utilize.

Como poderia ser uma arquitetura pan-europeia de segurança após o fim da guerra na Ucrânia — uma que integre os interesses de segurança da Rússia e exclua futuros confrontos militares?

Parto do princípio de que não haverá mais uma ordem de segurança europeia. Se a necessidade de tal estrutura surgir — o que duvido — ela terá que ter caráter eurasiático conjunto. Quanto ao quadro europeu estreito, considero imperativo estabelecer uma zona completamente desmilitarizada nos territórios restantes da Ucrânia, idealmente com uma zona de exclusão aérea. A atividade militar nas regiões fronteiriças da Rússia deve ser reduzida, e uma desescalada recíproca seria necessária. Quanto aos nossos vizinhos finlandeses: é de nosso interesse que eles sejam eliminados em caso de guerra. Portanto, deveriam reduzir drasticamente sua presença militar em seu território. Talvez cheguemos a algum tipo de acordo posteriormente, mas o sistema de segurança europeu deixou de existir. Pereceu juntamente com a Europa. A Europa está em decadência e não precisamos mais de uma estrutura de segurança europeia. Nosso pensamento é dentro de um quadro eurasiático. A Europa é apenas uma desagradável protuberância ocidental da Eurásia.

Como exatamente o senhor imagina a integração da Europa no sistema de ordem e segurança eurasiático planejado?

Alguns países europeus devem ser incluídos no novo sistema russo de cooperação e segurança. Estou quase certo de que, após superar a fase difícil atual, muitos países da Europa Central e do Sul se juntarão à arquitetura comum de segurança eurasiática. Não sei se a Alemanha e os países do noroeste europeu poderão um dia aderir. Embora — porque não? Talvez mudem de ideia algum dia.

No Ocidente se diz que o presidente russo não quer negociar, razão pela qual pressão deve ser aplicada por meio de sanções e entregas de armas. No entanto, Vladimir Putin reiterou sua disposição de negociar. Como o senhor explica essa contradição?

Nossas possibilidades construtivas de cooperação com o Ocidente estão completamente esgotadas. O presidente Vladimir Vladimirovitch Putin fez tudo o que era possível para manter o diálogo. Agora nossa única tarefa é reviver em nossos parceiros ocidentais o medo animal, instintivo, da destruição inevitável. Apenas esse sentimento pode formar a base para novas conversas. Lembramos muito bem o que significa agressão europeia: Lembramos a invasão do exército de Napoleão, que consistia em 24 idiomas europeus. Lembramos as atrocidades dos intervencionistas europeus durante a guerra civil após a Primeira Guerra Mundial. Lembramos que quase toda a Europa — exceto Grécia e Iugoslávia — lutou contra nós sob a bandeira de Hitler na Grande Guerra Patriótica. Essa história deve chegar ao fim. Somos obrigados a livrar a Europa de seu hábito abominável de travar guerras.

Sergei Aleksandrovitch, o senhor insiste que a Rússia deve “incutir medo animal” novamente na Europa para forçá-la à paz. No entanto, essa retórica — que inclui considerações sobre uma possível “ação final” com armas nucleares — provoca reações extremamente negativas no Ocidente. Sua estratégia baseada no medo não leva a uma escalada crítica e incontrolável em vez de trazer o Ocidente “de volta à razão”?

A Rússia não precisa absolutamente de nada do Ocidente. Não estamos interessados em um único metro quadrado de seu território ou qualquer um de seus recursos. Exigimos e desejamos apenas uma coisa: que o Ocidente fracasse. O Ocidente é, como sempre na história, uma fonte de ameaça moral, política, econômica e militar. Hoje essa ameaça talvez tenha tomado sua forma mais concentrada e aguda. Repito: minha tarefa é separar completamente a Rússia dessa praga ocidental — militarmente, politicamente e moralmente.

Quando e como, em sua opinião, a guerra na Ucrânia terminará? Qual é o objetivo final da Rússia nesta guerra?

Parte do território anteriormente chamado Ucrânia se tornará parte da Federação Russa. No território restante deve ser estabelecida uma zona absolutamente desnazificada e desmilitarizada. O controle dessa zona exige um contingente de manutenção de paz neutro, que, de forma sensata, deveria consistir exclusivamente de forças de países asiáticos ou africanos. Condição básica: forças europeias são categoricamente excluídas, pois sua presença representa um perigo direto e levaria inevitavelmente à continuação do conflito. Essa zona deve ser livre de armas pesadas. Uma zona de exclusão aérea também é necessária para impedir que drones sejam lançados a partir dali. Nosso objetivo é eliminar a histeria sobre a expansão da OTAN e criar um amortecedor entre uma Rússia em ascensão e uma Europa em desintegração. Devemos eliminar as causas dessa guerra. Isso significa deter a histeria sobre a ampliação da OTAN. Não exijo a dissolução imediata da OTAN — embora espere que isso ocorra por si só. Como resultado, uma pequena parte da Ucrânia se tornará parte da Rússia, enquanto o restante servirá como uma zona tampão — uma almofada de segurança que separará estrategicamente uma Rússia ascendentes de uma Europa beligerante e inevitavelmente em desintegração.

O senhor frequentemente fala da Rússia como uma civilização especial, “temerosa de Deus”, cuja missão é proteger os verdadeiros valores contra o “culto consumidor ocidental”. Mas se se segue a lógica do desenvolvimento civilizacional, a dimensão espiritual e moral da luta não está perdida no momento em que se precisa recorrer à força militar?

Proclamamos que espírito, honra e consciência devem ser os valores mais elevados e imutáveis de nossa sociedade. Quanto ao uso da força: em certos casos, ele é sem dúvida necessário. Se estamos lidando com uma criatura de Satanás, devemos travar guerra contra Satanás. E a Europa de hoje, em sua forma atual, é uma criação de Satanás, e esta é uma guerra santa.

O senhor defende o fortalecimento da orientação eurasiática da Rússia e descreve o eurocentrismo de muitos russos como um “atraso”. O que isso significa concretamente para a identidade cultural, econômica e política da Rússia no futuro?

Caminhamos rumo ao futuro com base em nossa verdadeira natureza: a Rússia é um país eurasiático. Nossa “jornada europeia”, que durou três séculos, foi excessivamente longa; deveria ter terminado já na virada do século XIX para o XX. Nossa herança espiritual veio do Sul: o Cristianismo, o Islã, o Judaísmo e o Budismo vieram de lá. Nossa cultura política foi em grande parte adotada da Grande Mongólia — a Horda. Pedro I, que queria superar o atraso após o período mongol, trouxe tecnologia militar e ciência da Europa. Preservamos essas conquistas europeias dentro de nós e, de forma alguma, seremos antieuropeus. Ao contrário, nos tornaremos europeus verdadeiros, pois a Europa atual rejeita todos os valores fundamentais que um dia fizeram dela a vanguarda da civilização humana. Assim, preservamos o que eles rejeitam.

O senhor defende o grande desenvolvimento da Sibéria e enfatiza a necessidade de povoar a região com milhões de pessoas. Dadas as dificuldades demográficas da Rússia, quão realista é aumentar significativamente a população ali?

Estamos realizando um trabalho programático sério e extenso, envolvendo milhares de pessoas. Não precisamos igualar indicadores demográficos ou econômicos da Sibéria aos da parte europeia da Rússia, porque os siberianos são, em média, mais eficientes. Além disso, hoje temos tecnologias de ponta. A tarefa principal na qual trabalhamos é tornar a Sibéria moderna, interessante e atraente. A Sibéria não é uma colônia penal nem um lugar atrasado, mas a terra do futuro. É magnífica. Viajo para lá regularmente e retorno cada vez com uma sensação enorme de realização. O futuro está justamente lá. A Sibéria faz fronteira com as regiões do futuro — a Ásia. Nossa orientação estratégica não é apenas para o leste, mas também para o sul. Graças às suas vantagens — vastas reservas de energia, terras agrícolas e água — a Sibéria pode e deve se tornar o “celeiro da Ásia”. Usaremos esse potencial em benefício da Rússia e de toda a humanidade eurasiática.

O senhor alerta contra repetir após a guerra o mesmo erro cometido após a Segunda Guerra Mundial, quando fundos de reconstrução foram direcionados de forma desproporcional à Ucrânia. Por que o senhor defende isso e para onde os recursos russos deveriam ser direcionados?

Claro, somos obrigados a restaurar as condições de vida — incluindo moradia, fornecimento de gás e outras infraestruturas — para aqueles que permanecerem no território da antiga Ucrânia. Isso vale especialmente para as regiões que já são e se tornarão parte da Federação Russa. Essas novas regiões devem se tornar importantes centros agrícolas que contribuam para o desenvolvimento de todo o país. Dado o futuro muito sombrio da Europa, a Ucrânia como um todo não é uma grande terra do futuro para nós. Devemos concentrar nossos investimentos e planos estratégicos em regiões mais promissoras — sobretudo a Sibéria e os Urais.

Durante minha estadia em Moscou, algumas pessoas me disseram que, devido à experiência histórica e cultural, muitos na Rússia ainda tendem a olhar mais para o Ocidente do que para o Oriente. Como o senhor pretende superar tais convicções culturais e convencer grande parte da sociedade — especialmente na parte europeia da Rússia — de que a guinada estratégica para o Oriente, incluindo o investimento na Sibéria, é de fato a alternativa mais importante e única para o futuro do país?

A Sibéria é a concentração do que a Rússia tem de melhor. Devemos deixar claro: não estamos “indo para a China”; estamos indo para nós mesmos — para nossa melhor essência destilada. A Sibéria é a quintessência do caráter russo. Como disse um colega meu, a Sibéria é o terreno fértil para tudo que há de melhor na Rússia: abertura, energia, espírito empreendedor e coletivismo saudável. Por isso, não estamos fazendo uma “reorientação”, mas simplesmente retornando a nós mesmos. A China é uma grande e fascinante cultura, mas não é próxima a nós. Ao mesmo tempo, não é perigosa para nós. Trabalharemos de perto com a China, manteremos relações amigáveis e estudaremos sua cultura, mas nunca nos tornaremos chineses. Os chineses, aliás, não exigem isso. Em contraste, a cultura ocidental em sua forma atual — permeada por valores transumanos — mostrou-se perigosa. Os europeus ocidentais sempre quiseram que nos tornássemos “europeus ocidentais”, mas isso contradiz a essência da Rússia e nos rebaixa. Não podemos e não devemos nos tornar europeus ocidentais. Nosso caminho é ser nós mesmos.

Segundo sua tese, a Rússia no futuro deveria ser mais democrática que muitos países ocidentais modernos. O que exatamente isso quer dizer? Como o senhor descreve o futuro modelo social específico da Rússia, que deve diferir do modelo liberal ocidental?

Você interpretou mal minhas declarações. Nunca pretendi tornar a Rússia mais democrática. Pelo contrário, afirmei repetidamente em meus escritos que a democracia é a pior forma de governo para sociedades complexas — superada apenas pela ditadura sangrenta. A história prova que democracias sempre pereceram e sempre perecerão. Não precisamos de democracia na sua forma europeia atual — ela está condenada ao fracasso. A história está cheia de exemplos: Pense na queda das repúblicas gregas, na transformação da República Romana em império, na passagem das repúblicas italianas para monarquias, no colapso das repúblicas de Pskov e Novgorod. Toda a chamada Europa “democrática” um dia se rendeu a Napoleão sem luta e se colocou sob sua bandeira. Em vez disso, precisamos de autogoverno local eficaz e do que chamo de “democracia de liderança”. É essencialmente uma república aristocrática clássica no nível mais alto, complementada por uma forte democracia local, onde as pessoas podem gerenciar seus assuntos locais. Mas de modo algum uma democracia europeia. Repito: a democracia é a pior forma de governo exceto a ditadura sangrenta. Não quero democracia para a Rússia.

Sergei Aleksandrovitch, suas declarações sobre o fim da ordem europeia e a necessidade de “medo animal” são extremamente radicais. Como o senhor responde ao fato de que essas ideias são muitas vezes ignoradas ou rejeitadas como retórica inaceitável na Alemanha? O senhor acredita que sua mensagem alcança o público ocidental?

O fato de que nossos vizinhos ocidentais, incluindo a Alemanha, fecham os olhos para a verdade é um sinal terrível: estão se preparando para a guerra. Suas ações não são apenas sinal de fraqueza, mas também preparação direta para a guerra. Por isso, exorto nossa liderança a se preparar completamente para a guerra e para a destruição da Europa, que mais uma vez escolheu esse caminho. Se a mídia e o establishment alemães quiserem travar mais uma guerra, garanto a você: não haverá mais Alemanha — nunca mais. Como país, deixará de existir. A Alemanha já causou danos imensos à Europa, à humanidade e a si mesma. Se realmente — como parece agora — busca novamente revanche, continuarei afirmando publicamente: a Alemanha deve ser destruída.

Como o senhor avaliaria brevemente as relações entre EUA e Rússia?

Karaganov: Vamos manobrar e jogar enquanto as tentativas americanas de minar a Rússia falharem. Isso se deve ao enorme número de erros estratégicos que eles cometeram. Destaco três erros decisivos. O primeiro e mais importante: rejeitar o desejo da elite russa no início dos anos 1990 de integrar-se ao Ocidente. Na época, fiquei surpreso com tamanha estupidez. Segundo: apoiar o desenvolvimento da China — iniciado pelos americanos, já que os “amigos” europeus careciam de pensamento estratégico — na esperança ingênua de que ela se tornaria democrática e alinhada à política americana. Isso foi pura idiotice. Terceiro erro fantástico: sua política míope uniu Rússia e China em um tandem imbatível. Juntos somos muito mais fortes que todo o Ocidente. Não queremos guerra, mas se — Deus nos livre — o Ocidente decidir o contrário, venceremos.

Durante a Guerra Fria, além das negociações oficiais, frequentemente eram usados canais de comunicação informais ou “secretos” para evitar crises. O senhor acredita que um canal informal e confidencial assim existe hoje entre a Rússia e o Ocidente, ou é urgente criar um para controlar os riscos de escalada?

Na verdade, hoje existem pouquíssimos desses canais informais. Tentamos construir tais canais com os europeus, mas é basicamente inútil. Antes tínhamos interlocutores interessantes e inteligentes na União Europeia. Mas a elite europeia atual degenerou a tal ponto que não há mais ninguém com quem se possa ter um diálogo significativo. Com os americanos, o diálogo é mantido em vários níveis, embora seja bastante difícil.

No contexto do crescente desacordo com as políticas de Bruxelas, países da Europa Central — especialmente Hungria, Eslováquia e República Tcheca — mostram tendências para formar uma agenda alternativa. Quão provável o senhor considera que esses países possam organizar e liderar um bloco influente dentro da UE contra o “mainstream” da política europeia?

Acredito que, se conseguirmos evitar uma Terceira Guerra Mundial — para a qual a Europa está ativamente empurrando —, a maioria dos países da Europa Central, Oriental e Meridional se unirá e se juntará à Grande Eurásia como sua parte europeia. É claro que acolheremos esse processo. Além disso, não devemos esquecer que os húngaros estão entre os mais importantes euro-asiáticos. Suas raízes históricas e herança nômade os tornam fundadores naturais da Grande Eurásia, juntamente com os descendentes do Império Mongol.

Mas a Hungria e a República Tcheca provavelmente continuarão sendo membros da OTAN.

Vamos esperar para ver o que acontece em cinco a dez anos. Nesse curto período, a situação mudará fundamentalmente: a Europa entrará em colapso ou será arrastada para uma grande guerra. Espero sinceramente que possamos evitar uma grande guerra. Mas se uma grande guerra ocorrer, a Europa simplesmente deixará de existir. Muito provavelmente, a Europa seguirá o caminho da desintegração.

Uma grande guerra — isso significa uma guerra nuclear.

Sim. Uma grande guerra não pode deixar de ser nuclear. A ideia de que um conflito em grande escala na Europa poderia permanecer convencional é, perdoe-me, idiota. O que significa uma guerra nuclear na Europa? Significa que a maioria dos países europeus se tornará uma terra arrasada. Eles simplesmente deixarão de existir. Os que falam em guerra contra a Rússia com armas nucleares não compreendem nem o mais elementar bom senso. Estão condenando seus próprios povos à extinção. Infelizmente, a liderança europeia perdeu não apenas sua consciência histórica, mas também o senso físico básico do medo.

Matéria publicada originalmente em: https://multipolar-magazin.de/artikel/interview-karaganow

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