Home Brasil O monopólio da informação em tempo de guerra. Por Pedro Pinho

O monopólio da informação em tempo de guerra. Por Pedro Pinho

*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado, ex-membro do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra (ESG) e membro do Conselho Editorial do Pátria Latina.

0

Original em: https://patrialatina.com.br/o-monopolio-da-informacao-em-tempo-de-guerra/

A Guerra Fria ainda está nas mídias e nas escolas, embora com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1991, não mais houvesse esta bipolaridade, assim reconhecida pelas partes. No entanto, é a presença dominante que está impedindo, desde o fim do Governo Geisel, de o Brasil defender seus interesses diante de terceiros.

Pode-se considerar que a Guerra Fria inicia com a morte de Stalin (1953) e o fim do governo de Harry Truman nos Estados Unidos da América (EUA).

Talvez a mais marcante demonstração da mudança do mundo, na passagem do século XX para o século XXI, esteja na tecnologia da comunicação. Quando assumiu o primeiro presidente da transição do interesse nacional brasileiro para o interesse das finanças internacionais, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918-1999), foi criada a Comissão Cotrim, para encerrar o desenvolvimento autônomo da informática brasileira.

“Tão logo seu antigo chefe foi indicado para comandar a nação, a ‘comunidade de informações’ do SNI formou a Comissão Cotrim, com a finalidade de investigar o setor de informática. Essa comissão, conhecida pelo nome do embaixador informante que dela fez parte, foi integrada por ‘coronéis’ do SNI e outros informantes que gravitavam em torno do ‘serviço de informações’, alimentando-o com seus informes confidenciais” (Ivan da Costa Marques, “Minicomputadores brasileiros nos anos 1970: uma reserva de mercado democrática em meio ao autoritarismo”, História, Ciências, Saúde-Manguinhos, vol. 10(2): 657-81, maio-ago. 2003).

“O Brasil foi um dos poucos países em que empresas sob controle local conseguiram suprir uma parte significativa do mercado interno de minicomputadores com marcas e tecnologias próprias. Equipes de engenheiros e técnicos brasileiros haviam absorvido a tecnologia de produtos originalmente licenciados e efetivamente conceberam e projetaram sistemas completos (hardware e software) de minicomputadores e diversos outros artefatos de computação, colocados no mercado por empresas brasileiras com sucesso econômico e técnico. A comparação entre as características técnicas dos sistemas de minicomputadores colocados no mercado pelas empresas brasileiras e as características dos sistemas então oferecidos no mercado internacional indica o quanto as equipes brasileiras se aproximaram daquelas existentes no mundo desenvolvido no início dos anos 1980” (Ivan da Costa Marques, citado).

Sem a informática brasileira, toda mídia passou a ser instrumento de desinformação. Hoje, países das dimensões e recursos como o Brasil estão com mais e melhores informações do que o nosso, salvo aqueles que colocaram nos poderes do Estado representantes das finanças e não do seu povo.

Apenas um exemplo que demonstra esta subserviência colonial. Em todos os canais de televisão, aberta e paga, há sempre um jornalista transmitindo notícia e análise de Israel, e é um país em guerra. Mas todos os demais, agredidos por Israel não contam com um jornalista, nem mesmo de agências internacionais, cobrindo a guerra que Israel e os EUA, sem qualquer ato declaratório, lhes movem. E veja que muitos são tradicionais aliados estadunidenses, como Dubai, Arábia Saudita, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos. O que dizer então da ausência de um jornalista no Irã, mostrando a destruição de uma escola para meninas, onde mais de 160 pessoas morreram após ser atingida na cidade de Minab, no sábado (28/2/2026).

Ao menos três fatos novos exigiriam uma comunicação de massa diferente e também postura mais firme e de interesse nacional do Brasil: o sequestro do presidente da Venezuela e sua esposa por forças armadas estadunidenses; o ataque conjunto dos EUA e Israel ao Irã, sendo os atacantes dotados de armas atômicas, o que não ocorre com a vítima, e mais um “tarifaço” de 15%, indistintamente aplicado a todos os países que exportam para os EUA.

A atitude do governo brasileiro, inclusive tentando agendar uma visita do presidente Lula a Washington, quando os EUA estão em guerra contra países com os quais o Brasil sempre manteve relações diplomáticas e comerciais, chega a ser ridícula, senão humilhante. Nem mesmo se é lembrado que, há pouco tempo, a Venezuela supriu o Brasil de oxigênio durante a crise ocorrida na Região Norte brasileira atingida pelo Covid 19. E agora se esconde quando a Venezuela precisa de insulina, que o Brasil fabrica, mas não lhe envia.

O mundo está em guerra e os interessados são os de sempre: os fabricantes de armas e munições estadunidenses e europeus. Quanto a estes últimos, envolvidos numa guerra que nem é deles, como a Alemanha, teve que pedir a devolução das armas vendidas ao Brasil, para prosseguir na farsa do ataque da Rússia à Ucrânia, quando se deu exatamente o contrário, em 2014, como consequência das ações das espionagens estadunidenses e do Reino Unido (sabe-se lá se o Mossad também participou) na Praça Maidan, em Kiev.

A desinformação campeia, num país que não sabe se defender. Notícia vinda da França nos diz que o abandono do petróleo russo causou, em quatro anos, um prejuízo de 30 bilhões de euros àquele país.

Vergonha ainda maior passam os brasileiros, quando um candidato a presidente da República no Brasil desfila com as bandeiras dos EUA e de Israel, ao invés do pavilhão nacional.

AS FORÇAS ARMADAS EXERCEM FUNÇÃO DE ESTADO, NÃO DEVEM FAZER POLÍTICA PARTIDÁRIA

Sou do tempo em que os militares não gostavam de ser envolvidos nas questões políticas dos governos, embora sempre houvesse exceções e aqueles, como o Marechal Lott, que evitavam serem lvados a se expor, mas os interesses de parcela da população, por desconfiar da lisura dos civis, o impulsionou à participação.

A chegada à Presidência daquele que o General Geisel qualificou como “mau militar”, confirmou a avaliação de quem sempre soube diferenciar sua ação de militar daquela consequente de cargo civil.

Se enfatizamos a informática não significa que o domínio da tecnologia nuclear seja menos importante.

Examinemos dois países vizinhos, fruto da mesma luta pela independência do Japão sob a liderança do coreano Kim Il-sung (1912-1994). Os EUA, já no embalo da Guerra Fria, resolveram divulgar que a Coreia do Norte seria submetida ao governo marxista soviético. Isso era mentira, a ideologia que Kim Il-sung divulgava era denominada “Juche”; a autossuficiência e independência nacionais, com o forte poder militar.

Vê-se pelos resultados atuais. A Coreia do Norte desenvolveu sua tecnologia nuclear, tem bomba atômica, população de 26.519 mil pessoas (2025), totalmente alfabetizada no sistema de educação universal e gratuita, e nos 120.540 km² não há morador de rua, com população 64% urbana. A Coreia do Sul, com território pouco menor, 100.450 km², população de 51.600 mil habitantes, 50% urbanos e 98% alfabetizados, não tem bomba atômica. A Guerra da Coreia, impulsionada pelos EUA, cessou em 1953 sem um Tratado de Paz definitivo.

Os EUA invadem o Irã que rejeitou desenvolver a energia nuclear para guerra, mas não se atrevem a fazer o mesmo com a Coreia do Norte.

Os presidentes Costa e Silva (15/3/1967-31/8/1969) e Emílio Médici (30/10/1969-15/3/1974) jamais foram qualificados como “esquerdistas”, mas promoveram o desenvolvimento brasileiro de modo bastante semelhante a Kim Il-sung, exceto pelo desenvolvimento da tecnologia nuclear, que coube ao presidente Geisel (Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, de 1975), assim como a informática (COBRA Computadores e Sistemas Brasileiros, de 1974) e a pesquisa petrolífera em águas oceânicas brasileiras e, com a Braspetro (1972), acordos de cooperação técnica e pesquisa exploratória no Iraque (levando à descoberta do campo de petróleo gigante em Majnoon e outro menor em Nahr Umr), Angola, Irã, Líbia e Arábia Saudita, além de acordos com países da América Latina.

O Brasil se recolhe. Não há militares com a convicção e patriotismo de Costa e Silva, Médici e Geisel. Também não há outro milagre brasileiro. Mas há militares que conhecem suas obrigações onde a defesa nacional se destaca. E para desempenhar a contento esta incumbência, o Brasil precisa se espelhar na Coreia de Kim Il-sung e não na Argentina de Javier Milei, na França de Emmanuel Macron, na Alemanha de Friedrich Merz, cujos resultados são conhecidos.

O Brasil precisa de seus militares, não dos bolsonaros, que nunca honraram a farda. E que, agora, balançam as bandeiras do genocida sionista e do senil amigo do abusador sexual Jeffrey Epstein.

NO COMMENTS

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Sair da versão mobile