
Original em: https://monitormercantil.com.br/a-estrategia-da-postura-paciente/
A China observa, mais uma vez, as ações dos Estados Unidos com admiração. A China apostou na Rússia e, após quatro anos de guerra, a Rússia não conseguiu alcançar resultados significativos; esperava que o mundo muçulmano se unisse ao Hamas, mas isso não aconteceu; acreditava que a Venezuela resistiria, mas isso também não aconteceu; talvez pensasse que o Irã e Khamenei seriam difíceis de serem abalados, mas agora Khamenei está morto.
A questão é: a que ponto chegarão essa capacidade militar americana e essa incapacidade da inteligência chinesa? A duração da guerra é crucial. Se ela se transformar em um atoleiro, e os Estados Unidos ficarem atolados novamente no Irã, como no Afeganistão ou no Iraque, isso enviará uma mensagem à China, de que os Estados Unidos carecem de verdadeiras capacidades estratégicas e, simplesmente, enlouqueceram.
Nesse contexto, dada a limitada capacidade de inteligência da China e seus recursos militares e financeiros, relativamente escassos, Pequim não será forçada a reconsiderar sua estratégia. Em vez disso, ela poderá escolher um caminho diferente.
Se, no entanto, os Estados Unidos dominarem política, estratégica e militarmente o Irã, isso poderá alterar muitos cálculos políticos chineses, levando a implicações globais: a China poderia mudar sua atitude em relação aos Estados Unidos e ao resto do mundo, o que influenciaria as disputas econômicas e comerciais que dividem o mundo. A questão comercial chinesa não é apenas bilateral; diz respeito ao mundo inteiro. No final do ano passado, o superávit comercial da China era de US$ 1,2 trilhão, causando instabilidade no comércio e nas finanças.
Tal situação também despertaria ideias bizarras no resto da Ásia. Se os Estados Unidos obtiverem sucesso político no Irã, países como Índia, Japão, Vietnã e Indonésia podem estar mais inclinados a seguir a liderança americana. Por outro lado, podem decidir encarar a liderança dos EUA com ceticismo. Muitos fatores estratégicos dependem dessa escolha, e há um prazo: uma solução deve ser encontrada em Washington até 31 de março, dia do encontro de Trump com o líder chinês, Xi Ping.
Atualmente, a China detém vantagem estratégica sobre os EUA. Enquanto os Estados Unidos agem com força e rapidez, a China pode adotar uma postura paciente: esperar que os Estados Unidos cometam algum erro.
No entanto, considerando esse aspecto, a China possui pontos fracos. A atitude em relação a possíveis erros americanos, grandes ou pequenos, será importante. Se forem pequenos, os EUA lidarão com eles, facilmente. Se forem grandes, porém, podem fazer com que os Estados Unidos tropecem. Diante desses tropeços, a China poderia se entregar a uma arrogância excessiva, como no passado, o que a levaria a cometer grandes erros.
A segunda questão fundamental, como visto nos últimos anos, é a fraca capacidade analítica chinesa para interpretar a realidade — especificamente, a dificuldade em compreender as nuances do mundo e dos Estados Unidos. Isso poderia fazer com que a China tropeçasse. Mas, se permanecer prudente, a China poderá potencialmente tirar proveito de sua posição. Os Estados Unidos devem ser prudentes, igualmente.
Além disso, existe a questão mais ampla dos EUA, com a atual ordem internacional. Em teoria, é aceitável que os EUA decidam que a ordem mundial, que construíram há 80 anos, não funcione mais. Portanto, os EUA pressionarão por mudanças quando julgarem apropriado. Mas não está claro se essa pressão será um ajuste que irá restaurar a ordem mundial ou se levará todos a correrem para as armas nucleares e a considerar a resolução de problemas, pela força.
Se não houver coordenação política da resposta militar, e o exército resolver sistematicamente os problemas, sozinho, então o mundo inteiro seguirá o exemplo da Coreia do Norte: armar-se com um grande arsenal nuclear, fazer o que bem entender e ignorar o resto.
Dessa forma, não teremos mais uma ordem global. Enfrentaremos um caos medieval muito perigoso, e a primeira vítima será a potência remanescente mais forte, os próprios Estados Unidos. Os EUA correm, assim, o risco de se tornarem vítimas de suas próprias ações imprudentes.