
Foto Agência Brasil
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A guerra trumpista contra o Irã, que polariza o mundo, tem um efeito imediato sobre os trabalhadores: arrocha salários, ao produzir aumento geral dos preços.
Inevitáveis aumentos de preços provenientes da guerra reduzem poder aquisitivo dos salários.
Para enfrentar essa circunstância extraordinária, a saída, evidentemente, é fortalecer o poder de compra dos trabalhadores, para evitar aumento das tensões sociais que eleva o nível geral da luta de classes.
No cenário do conflito, cujas consequências sociais são incógnitas, o governo Lula vai sendo pressionado a enfrentar o problema social com vista à batalha eleitoral que já está em curso.
Trata-se de desafio contraditório que se aprofunda com a guerra.
Seu governo apresenta dados conjunturais positivos – inflação, preços relativamente estáveis, desemprego cadente etc – mas a opinião pública, segundo pesquisas, está insatisfeita.
Falta salário no final do mês no bolso do trabalhador, obrigado a consumir menos, razão maior pela sua insatisfação.
A maior conquista social lulista – reajuste do mínimo pela inflação mais correção pelo PIB dos dois anos anteriores – foi para o ralo com o arcabouço neoliberal, que substituiu o teto de gastos programados pelos governos Temer e Bolsonaro.
Na prática, representou troca de seis por meia dúzia, porque o governo decidiu, depois de 2023, com a PEC da Transição, aumento de gastos, na casa dos 8/9% ao ano, mas, em 2024 e 2025 déficit de 0,5% do PIB, e, em 2026, tentar superavit fiscal de 0,25% do PIB.
Nesse cenário, sob pressão do mercado financeiro, a economia está submetida à taxa de juro Selic de 15%, cujas consequências são baixo crescimento, porque, conforme o arcabouço neoliberal, não se pode, neste ano, aumentar os gastos acima da inflação, na casa dos 2,5% do PIB.
Desse modo, a guerra trumpista, que cria ambiente inflacionário, no cenário do aumento dos preços do petróleo, muda as circunstâncias econômicas.
De um lado, tem pressão inflacionária, mas, de outro, aumento da arrecadação, pois, sendo produtor e exportador de petróleo cru, o Brasil, no meio da guerra, tende a aumentar a arrecadação, enquanto a inflação poderá estar corroendo os salários.
O que o governo Lula, nesse cenário, fará: utilizará a arrecadação para minimizar os prejuízos sobre os salários, utilizando os recursos do petróleo para dinamizar a economia no curtíssimo prazo ou utilizará a arrecadação para fazer superavit primário, na tentativa neoliberal, de forçar queda da taxa de juro?
O JOGO DO PODER ELEITORAL
A deterioração do poder de compra dos trabalhadores aumentou endividamento das famílias – 95% estão endividadas no crédito ao consumidor – e das empresas, que estão em crise, como demonstra a falência do Supermercado Pão de Açucar.
Tal contexto eleva o risco econômico que mantém juro alto para sustentar rentabilidade dos bancos que compram os títulos da dívida pública, especulativamente.
O governo, conforme entrevista do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao jornalista Breno Altman, editor do Ópera Mundi, não consegue sair dessa armadilha.
Por isso, a economia, sob juro alto não cresce, sustentavelmente.
Sem projeto de desenvolvimento de médio e longo prazo – Haddad disse a Breno que tentou levar esse assunto dentro do governo, mas não teve aderência a ele – o país vive da mão para a boca, no curtíssimo prazo.
Encontra-se, na prática, dominado pelos interesses da Faria Lima, o que deixa o governo Lula incapaz de vender horizonte otimista, como mostram pesquisas, especialmente, agora, que tem pela frente efeitos inflacionários à vista produzidos pela guerra trumpista, decorrentes da inevitável crise do petróleo em marcha.
Como grande produtor de óleo cru para exportação, está diante da possibilidade de aumentar a arrecadação para aproveitar vantagem desse ciclo favorável de commodity.
Duas opções estão se abrindo ao governo: primeira, aproveitar o dinheiro do petróleo para melhorar poder de compra dos trabalhadores.
ABONO SALARIAL COMPENSATÓRIO
Decisão nesse sentido aumentaria a popularidade de Lula em disputa eleitoral.
Os recursos tributários advindos do aumento das exportações de petróleo dariam injeção de ânimo as atividades produtivas, no curtíssimo prazo, ao lado das lutas políticas em favor da eliminação da jornada de trabalho 6×1, bem como em favor da tarifa zero que ficaria viável, especialmente, com aumento da arrecadação das exportações de petróleo.
Será essa a alternativa a ser adotada pelo chefe do Planalto, no curto prazo?
Ou prevalecerá o que os representantes do mercado financeiro – o pessoal da Faria Lima – já começa defender: que essa renda extra do petróleo advinda do aumento de preço do produto bombeado pela guerra trumpista seja utilizado para fazer superavit primário a fim de reduzir juro, com o que favoreceria retomada dos investimentos, para aquecer as atividades produtivas, arrefecendo soluço neoliberal?
LUTA DE CLASSE EM TEMPO ELEITORAL
Mais uma vez entram em cenas as disputas de classe: os desenvolvimentistas, de um lado, e os neoliberais, de outro, na disputa por concepções de desenvolvimento econômico.
O fato é que a guerra, se, de um lado, pressiona inflação, de outro, proporciona aumento da arrecadação, graças ao fato de o Brasil ser exportador de petróleo.
O interesse de curto prazo do governo, de aumentar sua popularidade, aproveitando as circunstâncias emergentes, favoráveis, para melhorar salários, seria desperdiçado, deixado de lado, para priorizar interesse do capital financeiro, da Faria Lima em tempo de disputa eleitoral?
A vantagem comparativa dada pela existência da Petrobras, como maior ativo desenvolvimentista nacional, e da autossuficiência brasileira na produção petrolífera, para atender a demanda nacional, no cenário da guerra, tende ou não a favorecer o interesse político eleitoral de Lula, diante de circunstâncias novas criadas pela guerra?