O povão está vendo, mas parece que ninguém quer falar. Estourou um escândalo que botou luz num esquema podre que vem sangrando o dinheiro dos servidores estaduais e municipais. Fundos de pensão da Bahia, Pernambuco, Rio e Minas – que deviam cuidar do futuro dos trabalhadores – resolveram brincar de banqueiro. Aplicaram bilhões em papéis do Banco Master e, adivinha? Perderam tudo.
Não foi “azar do mercado”. Foi safadeza. Gestão temerária, daquelas que qualquer Zé Mané desconfia. E em muitos casos a suspeita é mais grave: tem cheiro de fraude, de desvio, de dinheiro público sumindo enquanto o trabalhador que contribuiu a vida inteira fica a ver navios.
Esse episódio escancarou o que a Auditoria Cidadã da Dívida denuncia há anos: quando a previdência pública cai nas garras do mercado financeiro, o dinheiro do povo vira petisco para tubarão.
E é exatamente esse o perigo que ronda agora os aposentados federais. O nome do perigo é Decreto 10.620/2021.
Como querem fazer a mesma lambança em escala nacional
Tudo começou com a reforma da Previdência do governo Bolsonaro, a PEC 103/2019. Ela enfiou na Constituição um artigo proibindo cada órgão público de ter sua própria aposentadoria. Universidades, IBAMA, IBGE, FIOCRUZ – todos teriam que entregar a gestão para um único gestor.
Em 2021, Bolsonaro baixou o Decreto 10.620, nomeando o INSS para essa função. Mas o INSS é só a porta de entrada. O que querem é criar um caixa único da previdência – um balaio de gato com bilhões, pronto para ser entregue aos bancos e gestores privados.
Foi o que aconteceu com o Funpresp. Foi o que aconteceu com os fundos estaduais que quebraram no Banco Master. Primeiro centralizam, depois terceirizam, depois o dinheiro “some”.
O que muda na vida do aposentado?
1. Atendimento vira inferno: O INSS já está entupido. Colocar nas costas dele também os aposentados das autarquias vai ser fila interminável, processo parado, benefício que não sai.
2. Seus direitos vão pro brejo: Paridade, integralidade, RSC – tudo isso são regras do Regime Próprio, que o INSS não está preparado para aplicar. Seu direito vira letra morta.
3. Caminho da privatização escancarado: Com tudo num caldeirão só, fica fácil dizer: “O INSS não dá conta, vamos passar para uma gestora privada”. Aí entra o mesmo pessoal que quebrou os fundos estaduais.
O governo Lula deu uma segurada, mas não resolveu
Com a pressão dos sindicatos e o escândalo do Banco Master, o governo Lula suspendeu o decreto até dezembro de 2026. Quem ainda não migrou, por enquanto, fica onde está.
Mas suspender não é revogar. O decreto continua lá, encostado, esperando oportunidade. E o governo anda conversando sobre criar uma nova unidade gestora – sem diálogo nenhum com os servidores.
O recado está dado
O caso do Banco Master mostrou a que ponto chega a sacanagem: bilhões viraram pó enquanto os gestores responsáveis ficam impunes. Agora querem repetir a dose em escala federal, com a aposentadoria de todo servidor público do país.
A diferença é que agora tem um decreto presidencial abrindo a porteira. E uma ação no Supremo (ADI 6767) que pode enterrar ou liberar de vez essa jabuticaba.
Quando o Estado abre mão da Previdência e entrega para o mercado, o resultado a gente já viu: o dinheiro do trabalhador vira petisco de tubarão. Quem fica a ver navios é quem mais precisa: o aposentado, a viúva, o pensionista.

