
Original em: https://hojepr.com/os-peixes-amor-passeio-publico/
Nas cercanias do Passeio Público, em um daqueles prédios que misturam dignidade antiga com encanamentos de humor duvidoso, morava um jovem de vinte e poucos anos que levava a vida com duas virtudes raras: disciplina e um aquário monumental.
Chamava-se Romeo — embora alguns amigos preferissem chamá-lo de “o Aquarista”, título conquistado com mérito. No centro de seu apartamento repousava um aquário tão grande e tão cuidadosamente iluminado que mais parecia um pequeno pedaço do Oceano Pacífico transferido, com autorização poética, para o coração de Curitiba.
Ali nadavam peixes ornamentais de todas as cores: vermelhos que pareciam brasas educadas, azuis que lembravam céu de inverno, amarelos de uma alegria quase imprudente. Romeo cuidava deles com dedicação científica e carinho paternal. A água era filtrada, a temperatura controlada e a alimentação equilibrada — dieta que, diga-se de passagem, era mais saudável do que a de muitos humanos da região.
Mas o aquário produzia um efeito colateral inesperado.
A beleza daquela paisagem aquática atraía visitantes. E, entre esses visitantes, surgiam, com certa frequência e bastante curiosidade, jovens mulheres que vinham “conhecer os peixinhos”.
Romeo, que não era tolo nem apressado, recebia-as com elegância. As noites em seu apartamento seguiam um ritual quase litúrgico: primeiro, uma boa música — ora um jazz suave, ora um pouco de Tom Jobim. Depois vinha a comida leve, preparada com esmero: massas discretas, saladas honestas, queijos civilizados. O vinho era escolhido com respeito, e as conversas deslizavam entre poesia, viagens imaginárias e comentários filosóficos sobre a vida dos peixes.
Tudo muito equilibrado. Sem drogas, sem exageros — apenas romance, curiosidade e o silencioso balé aquático iluminando a sala.
O aquário, naturalmente, tornava-se o grande cúmplice dessas noites. Enquanto os casais conversavam, os peixes nadavam em círculos elegantes, como se aprovassem discretamente cada aproximação sentimental.
Algumas visitas iam embora encantadas. Outras voltavam. Houve até quem jurasse que certos peixes piscavam de maneira conspiratória.
Mas toda história tranquila carrega dentro de si uma pequena vocação para o desastre.
Numa noite particularmente inspirada — havia vinho italiano, um disco antigo de Chet Baker e uma jovem poetisa que citava Neruda com entusiasmo — ouviu-se um som que não estava no roteiro da noite.
Primeiro, um estalo. Depois, outro.
E então um CRAAASH que ecoou pelo apartamento como um trovão doméstico.
O aquário havia estourado.
Em questão de segundos, a sala transformou-se numa espécie de improvisado litoral. A água corria pelo piso, cadeiras boiavam com dignidade e, o mais dramático, os peixes espalhavam-se pelo chão, debatendo-se em pequenas poças de sobrevivência.
A poetisa gritou. Romeo entrou em estado de emergência sentimental.
O jovem, que até então era apenas um anfitrião romântico, revelou inesperadas habilidades de resgate aquático. Pegou bacias, panelas, baldes, travessas e até uma jarra de suco de laranja — tudo o que pudesse conter água e peixes.
Em poucos minutos, o apartamento parecia uma pequena estação de salvamento marinho.
Mas havia um problema: onde colocar aquela população piscícola até a manhã seguinte?
Foi então que Romeo teve uma ideia que, embora pouco ortodoxa, parecia heroica.
O Passeio Público ficava a poucas quadras dali.
Assim, em plena madrugada curitibana, lá foi o jovem pelas ruas silenciosas carregando recipientes variados com peixes indignados. A poetisa — agora transformada em enfermeira de fauna aquática — acompanhava a operação com uma bacia azul.
Chegaram ao lago do Passeio Público ofegantes, porém determinados.
Com cuidado quase cerimonial, Romeo foi soltando os peixes nas águas tranquilas do parque. Um por um, eles mergulharam naquele novo mundo onde já nadavam, com soberana tranquilidade, as famosas carpas coloridas.
Os recém-chegados hesitaram um instante — como turistas aquáticos — e depois desapareceram nas profundezas do lago.
Missão cumprida.
Romeo e a poetisa sentaram-se num banco, molhados, cansados e rindo da própria aventura. O amanhecer começava a pintar o céu de Curitiba com aquele cinza elegante que os curitibanos chamam de manhã.
Com o tempo, o episódio virou lenda de bairro.
Frequentadores do Passeio Público passaram a notar alguns peixes diferentes nadando entre as carpas — mais ágeis, mais coloridos, com uma certa elegância de apartamento. Alguns dizem até que nadam em pares, como se carregassem memórias românticas de um aquário iluminado.
E há quem garanta que muitos casais que passeiam de mãos dadas ao redor do lago acabam se apaixonando ali mesmo, sem explicação clara.
Talvez seja influência da paisagem.
Talvez seja o vinho da noite anterior.
Ou talvez — quem sabe — sejam os antigos peixes de Romeo, discretamente espalhando pelas águas do Passeio Público um pouco da poesia que testemunharam durante tantas noites românticas.
Seja como for, até hoje o lago guarda esse segredo líquido: um aquário que se transformou em lenda… e alguns peixes que, ao que tudo indica, continuam colaborando com o amor e as paixões em Curitiba.