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Fragmentos com Jaime Lerner. Por Rubens Gennaro

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jaime lerner

Original em: https://hojepr.com/fragmentos-com-jaime-lerner/

Exalando odores de madeira de pinho, as pranchetas se espalhavam pelas salas de aula como pequenas ilhas de rigor e sonho. Sobre elas repousavam as réguas T, as lapiseiras Caran d’Ache, as réguas de escala, a borracha disciplinada e o papel sulfurizado esticado com esmero, formando um plano onde a imaginação ganhava contornos técnicos. Em torno dessas superfícies, aglutinava-se um mosaico vibrante de calças e blusas coloridas — jovens de arquitetura e urbanismo que se equilibravam nas banquetas com a ansiedade própria de quem suspeita estar prestes a ouvir algo importante.

A luz daquela manhã entrava enviesada pelas janelas envidraçadas, desenhando diagonais suaves no ambiente. Do lado de fora, o ônibus azulão dos estudantes serpenteava pela rua interna do Centro Politécnico, despejando mais juventude e expectativa. Dentro, um frisson tomava conta. Havia disputa por lugares, um leve empurra-empurra contido pela formalidade acadêmica. A professora de PUR II deu as boas-vindas ao palestrante, e então ele surgiu — discreto, mas imediatamente central.

Sentou-se à esquerda da plateia, acomodando-se em uma banqueta. Desabotoou o paletó acinzentado, afrouxou a gravata com elegância quase automática, como quem se prepara não apenas para falar, mas para pensar em voz alta. E começou.

Falou do Projeto Rurbana, e nós, atentos, nos alinhamos em torno daquela ideia que parecia, ao mesmo tempo, simples e revolucionária: um território de transição entre o campo e a cidade, onde o homem não precisaria abandonar suas habilidades naturais ao migrar. Uma utopia prática, se é que isso não é uma contradição.

O Departamento abraçou a proposta. Trabalhamos, desenhamos, projetamos. Havia uma crença silenciosa de que aquilo poderia, de fato, acontecer. Mas o Governo do Estado jamais a viabilizou. E assim, como tantas boas ideias no Brasil, a Rurbana permaneceu pairando — não como fracasso, mas como possibilidade suspensa.

Algum tempo depois, em 1982, uma nova proposta atravessava os corredores: Jaime Lerner seria candidato ao Governo do Paraná. Esteve conosco em Casas de Estudantes, em encontros diretos, quase íntimos, onde a política ainda tinha cheiro de conversa, e não de marketing. Mas foi preterido. A escolha recaiu sobre Saul Raiz, que acabaria derrotado por José Richa. A história, como sempre, seguiu por caminhos próprios, nem sempre os mais férteis.

Naqueles dias, eu também exercia outro ofício: cartunista nos jornais curitibanos. Em bico de pena, registrei alguns momentos de Lerner — seus gestos contidos, sua expressão concentrada, aquela mistura de engenheiro e sonhador que parecia sempre calcular o futuro. O traço fino tentava capturar algo que escapava: a convicção tranquila de quem enxerga a cidade como organismo vivo.

Mas foi durante as filmagens de Oriundi, em Curitiba, que o reencontrei em outra circunstância. O ator Anthony Quinn estava na cidade, e fomos recebidos no Palácio Iguaçu. Estávamos reunidos: Karlos Rischbieter, Anthony Quinn, Mara Paludo, Marcelo Willer, Gerson Guelman e eu.

A conversa foi longa, cordial, atravessando temas diversos — cultura, urbanismo, identidade. Havia respeito mútuo, mas também tensões sutis. No final, como acontece entre pessoas de convicções fortes, o diálogo ganhou uma leve aspereza, dessas que não rompem, mas também não se escondem.

Depois, com o lançamento de Oriundi em Curitiba e o retorno de Anthony Quinn, fomos novamente reunidos — desta vez em um almoço no Chapéu Pensador da então Copel. O ambiente era outro: mais leve, mais solto.

Entre pratos saborosos e risos discretos, falávamos de cinema. Fellini apareceu à mesa como velho conhecido, a Itália se insinuava em memórias e referências, e até Valêncio Xavier foi lembrado, como quem reforça que Curitiba também produz seus próprios enigmas criativos.

Sim… há um Jaime Lerner para cada um que o conheceu. Para alguns, o gestor; para outros, o urbanista; para outros ainda, o homem de ideias firmes e escuta seletiva. Sua trajetória é entrecortada por realizações que moldaram não apenas a cidade, mas a forma de pensar a cidade. Foi, sem dúvida, um vetor de aglutinação — alguém que reunia em torno de si projetos, pessoas e possibilidades.

Suas utopias urbanísticas não eram devaneios: eram convites.

E, como todo convite sério, exigiam trabalho, disciplina e, sobretudo, continuidade — algo que nem sempre soubemos oferecer. Ainda assim, permanecem como herança. Cabe a nós não apenas admirá-las, mas compreendê-las e, quando possível, retomá-las.

Hoje, na Rua XV, há uma estátua: Jaime Lerner desenhando. Um gesto simples, quase íntimo, transformado em símbolo.

Ali, ele não está governando, nem discursando — está projetando. Talvez seja essa a imagem mais fiel: a do homem que desenha futuros.

Ícone e mestre, quem sabe, nos próximos anos, essa presença silenciosa não se transforme em uma espécie de romaria laica — um ponto de encontro para os que ainda acreditam que a cidade pode ser pensada com inteligência e sensibilidade.

Uma devoção curiosa, quase brasileira: Jaime Lerner como uma Nossa Senhora Aparecida dos urbanistas utópicos.

E, convenhamos, num mundo tão dado à destruição, não seria má ideia rezar um pouco para quem soube construir.

Amém.

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