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Eleições 2026: Candidatura Augusto Cury Outro Engodo da Direita Para Engabelar o Sofrido Povo Brasileiro. Por Ricardo Guerra

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A trajetória de Augusto Cury é um exemplo emblemático de como determinadas narrativas ganham força no Brasil contemporâneo — não pela sua consistência científica, mas pela sua utilidade ideológica.

Sob o verniz de “profundidade” psicológica e linguagem pseudocientífica (travestida de acessível), construiu-se uma obra que promete libertar o indivíduo — mas que, na prática, o isola. 

Não se trata apenas de literatura de autoajuda, trata-se de um tipo específico de discurso que transforma problemas complexos em dilemas individuais:

  • Ansiedade, depressão, angústia diante da vida — tudo é reduzido a uma questão de “gestão da mente”, como se o sofrimento humano pudesse ser resolvido por meio de fórmulas internas, descoladas da realidade material;
  • Um tipo de abordagem que ignora deliberadamente fatores estruturais como desigualdade, precarização do trabalho, insegurança econômica e ausência de políticas públicas robustas — deslocando o foco da crítica do sistema para o indivíduo.

Se a pessoa sofre, a responsabilidade é dela. Se “não venceu”, faltou disciplina emocional. E assim  por diante. Ou seja, uma narrativa confortável para quem deseja manter tudo como está e converge para o conceito de meritocracia.

Não por acaso, esse tipo de discurso dialoga com o ambiente político que se consolidou no Brasil nos últimos anos, especialmente em torno de Jair Bolsonaro:

  • Um ambiente que rejeita explicações estruturais;
  • Despreza o papel do Estado;
  • E aposta na ideia de que cada indivíduo é o único responsável pelo seu destino — mesmo em um país profundamente desigual.

A chamada “psicologia” de Cury, sem validação robusta na Psicologia, cumpre assim um papel funcional:

  • Oferecer uma “sensação de conforto emocional imediato” ao mesmo tempo em que desarma qualquer impulso de transformação coletiva;
  • Uma espécie de anestesia social sofisticada — que “diz aliviar a dor”, mas preserva (intacta) a doença.

Além de tudo isso, se utiliza de uma estratégia clara de construção de autoridade:

  • Termos técnicos, teorias próprias e uma constante associação à figura de especialista, criando a falsa impressão de rigor científico;
  • Mas, na verdade, o que se tem é apenas uma retórica bem construída, pensada para convencer incautos – e que não se sustenta nos critérios acadêmicos mais básicos.

Num país que precisa urgentemente reconstruir sua capacidade de pensar o desenvolvimento, reindustrializar sua economia e enfrentar suas desigualdades históricas, esse tipo de discurso atua como um freio invisível:

  • Ele não confronta — acomoda; não mobiliza — apazigua;
  • E, principalmente, não transforma — adapta o indivíduo a realidade posta – extremamente injusta.

É por isso que não se pode tratar esse fenômeno como inofensivo.

Ele faz parte de um ecossistema maior, onde ideias aparentemente neutras ajudam a sustentar projetos políticos que rejeitam o desenvolvimento nacional, a soberania e a justiça social:

  • Enquanto o Brasil precisa de consciência crítica, organização coletiva e um projeto de futuro;
  • O que se oferece é introspecção despolitizada e soluções individuais para problemas que são, em essência, coletivos.

A eventual candidatura de Augusto Cury não surge, portanto, como um fato isolado ou meramente circunstancial — mas como a agudização de tudo aquilo que sua obra já representa no plano simbólico e ideológico.

Ao transpor para a arena política o mesmo arcabouço discursivo que o consagrou no mercado editorial, o que se tem não é uma novidade, mas a amplificação de um projeto:

  • A transformação da complexidade social em narrativa individual;
  • Agora aplicada à gestão do próprio país.

Nesse cenário, o risco deixa de ser apenas cultural ou subjetivo e passa a ser institucional:

  • A lógica que reduz o sofrimento humano a falhas individuais;
  • Que despreza mediações coletivas e ignora as estruturas econômicas e sociais;
  • E que, quando elevada à condição de projeto político, reforça exatamente aquilo que mantém o Brasil preso a um ciclo histórico de dependência.

Há uma recusa em enfrentar problemas estruturais com soluções estruturantes:

  • Ao invés de um povo mobilizado por um projeto nacional, soberano e desenvolvimentista;
  • Constrói-se uma sociedade voltada para dentro de si, culpabilizada, dispersa e incapaz de reconhecer as engrenagens que condicionam sua própria existência.

É a vitória da adaptação sobre a transformação – e, no limite, da subserviência sobre a soberania.

Por isso, mais do que uma candidatura, o que está em jogo é a consolidação de uma visão de mundo:

  • Uma visão que anestesia a crítica e esvazia o debate público;
  • E contribui diretamente para a manutenção de um Brasil dependente, periférico e distante de sua verdadeira pujança.

É preciso muita atenção contra esse tipo de projeto — silencioso, sofisticado e profundamente funcional aos interesses contrários ao desenvolvimento nacional — sendo necessário e urgente reafirmar a necessidade de consciência crítica, organização coletiva e soberania.

Em síntese, não é apenas de mais uma candidatura que estamos falando, mas da tentativa de transformar a resignação em projeto de país — uma lógica que despolitiza o sofrimento, fragmenta a consciência coletiva e serve aos interesses de quem lucra com um Brasil dependente, desorganizado e incapaz de realizar seu potencial, quando o que se exige é um Estado forte, capaz de planejar o desenvolvimento, promover justiça social e afirmar a soberania nacional.

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