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LUGAR PERIFÉRIO, IDEIAS MODERNAS – Aos intelectuais paulistas as batatas. Por Fabio Mascaro Querido – Ed. Boitempo, SP – 2024 –

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INTRODUÇÃO

À primeira vista, este livro não apresenta nada de novo. Em especial no que se refere ao tem. Afinal, muitos dos intelectuais aqui abordados já foram objeto de pesquisas, livros, artigos e/ou homenagens, porém, arrisca o que aqui é proposto: um balanço “global” da tradição intelectual paulista que se inicia, simboli8camente, em 1958, com a formação do chamado “Seminário d´O Capital’ estendendo=-se até tempos bem recentes. Balanço “global” porque, a partir do presente no qual escrevemos, o texto desenvolve alguns dos caminhos e bifurcações tomados por esses intelectuais ao longo das décadas de 1960/1970,1980 e 1990, do acerto de contas com o nacional-desenvolvimentismo, passando pelas aspirações democráticas do período da Abertura, até chegar à eleição de um deles, FHC, à presidência da República.

Como expressões das tomadas de posição dos intelectuais, as ideias são apreendidas, portanto, à lua de um espaço relacional “interno”, concernentes às disputaas no interior dos departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), mas também de um ambiente “externo”, qual seja, a cena inttelecual e política brasileira da época. A princípio, nos anos 1960 e 1970, as afinidades “internas” que soldaram os primórdios dessa tradição intelectual se produziram contra adversários “externos” comuns, identificados com a nebulosa nacional-desenvolvimentista: o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), a Comissão Econômica para a América Latina e o Cariba (Cepal). Sob as condições institucionais propiciadas pela cultura acadêmica gestada na USP, tais intelectuais forjaram interpretações que se pretendiam a um só tempo mais radicais (porque marxistas) e mais rigorosas (porquanto científicas) que as que vinham sendo elaboradas pela esquerda nacionalista.

A primeira festa “interna” foi aberta pelo cientista político Francisco Weffort, ainda ao fim dos anos 60. Para Weffort, para ser politicamente consequente, a ruptura com o nacional-desenvolvimentismo precisaria ser total também no plano teórico0-metodológi8co, o que significava, a seu ver, a necessidade do abandono de qualquer referência ao modelo da dependência, tido parcialmente tributár8io do dualismo cepalino, a despeito das intenções em contrário. Nos anos 1970, Francisco Weffort direcionou essa perspectiva à procura de novos sinais que vinham das ruas e das fábricas, reafirmando um modelo analítico fundado no primado das classes sociais tais como elas existiam, para além das determinações estruturais que estringiriam  sua capacidade de ação. Foi com esse espírito de revisão radical que, em 1976, Weffort fundou o Centro de Estudos de Cultura Contemporãnea (CEDEC), escancarando uma avenida que seria, depois dos anos 1980, trilhada pelos intelectuais do coletivo Desvios.

Paralelamente, por outras vias, , Francisco de Oliveira também propôs um quadro interpretativo da modernidade brasileira em ruptura, não apenas com o modelo da Cepal – espécie de tipo ideal da razão dualista – , mas também com a perspectiva da dependência . Em “Crítica à Razão Dualista”, em meio aos debates que ocorriam no Centro Brasileiro de Analise e Planejamento (CEBRAP) e publicado em 1972, na Revista Estudos Cebrap , Oliveira compreende o processo de acumulação capitalista catapultado a partir de 1930 na sua configuração interna à formação social brasileira, ou seja, como resultado de um arranjo político que, bem ou mal, o tornou possível (1) . Para Oliveira, este processo continuou em marcha mesmo quando as condições externas não eram as mais favoráveis, fato que seria revelador dos limites, tanto das teorias tradicionais de desenvolvimento, quanto das análises da dependência.

Maria Sylvia de Carvalho Franco , por sua vez, também vinha investindo, à época, contra a vertente dos sociólogos  paulistas que, da sociologia da modernização do primeiro Florestan Fernandes aos estudos da dependência em Cardoso, supunham a existência, no Brasil, de uma sobreposição de formações sociais distintas, uma mais moderna, outra ainda arcaica, razão pela qual recairiam no dualismo do qual acreditavam estar a salvo. Já em sua tese de doutorado sobre “os homens livres numa ordem escravocrata”, defendida em 1964,  Carvalho Franco havia sustentado  uma interpretação oitocentista da sociedade brasileira, em que o capitalismo aparece como “conceito  inclusivo” que engloba – além do favor – a escravização, tida acima de tudo como “instituição subordinada”. Nos anos 1970, depois de ter se deslocado para a Filosofia, Carvalho Franco voltou suas baterias , ao lado de Marilena Chaui, para a crítica das implicações ideológicas dos esquemas interpretativos que -como os do Iseb , mas também da sociologia uspiana das décadas de 1950 e 1960 – tendiam à idealização do moderno, em contraste com o qual assinalavam as ausências e incompletudes da modernização brasileira.

Enquanto isso, FHC dava início à virada que, duas décadas mais tarde, o levaria à Presidência da República. Ao longo da década d 1970, além de arrematar a crítica às concepções estagnacionistas oriundas do ideário nacional-desenvolvimentista, Cardoso se voltou contra as perspectivas – como as de Ruy Mauro Marini , Andrew Gunther Frank e mesmo Francisco de Oliveira – que enxergavam limites estruturais ao desenvolvimento capitalista nos países dependentes. Se, em 1963, em sua tese de livre-docência, a única alternativa ao socialismo era, para Cardoso, o “subcapitalismo”, na década subsequente começava a se perfilar a possibilidade de um desenvolvimento dependente e associado, cujo alcance seria definido pela luta política interna do país. É nesse cenário que Cardoso se aproxima do MDB, partido pelo qual se tornaria Senador da República em 1982, após herdar a vaga de Franco Montoro, eleito governador de São Paulo.

Nos anos 1980, portanto, as divergências se tornam políticas. As afinidades moldadas contra o adversário comum (o nacional-desenvolvimentismo no plano teórico e a ditadura no político) davam lugar à discordância quanto aos rumos possíveis do processo de democratização. Em linha com a defesa teórica da agência das classes populares, Weffort e os intelectuais do coletivo Desvios aderiram ao Partido dos Trabalhadores (PT), fundado em 1980. Embora tenha permnacido no Cebrap, Oliveira também se aproximou da formação liderada por Lula. O mesmo rumo seria tomado pelo agora “sociólogo militante” Florestan Fernandes, eleito deputado constituinte pelo partido. FHC e José Arthur Gianotti, por sua vez, estiveram entre os arquitetos do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), formado em 1988 após uma cisão pela esquerda com o já então PMDB. Não é difícil perceber, assim, a importância dessa tradição intelectual na cena políti8ca brasileira contemporânea. Afinal, saíram das fileiras desses dois partidos tipicamente paulistas os vencedores de todas as eleições presidência de 1994 a 2014.

Posição singular nessa história é ocupada por Roberto Schwartz, razão pela qual ele aparece como uma espécie de fio vermelho que atravessas as demais perspectivas acalentadas pelos intelectuais paulistas de que aqui se trata e, ao mesmo tempo, delas se diferencia. De um lado Schwatz não acompanhou Cardoso em suas opções intelectuais e políticas que se desdobraram a partir do fim dos anos 1970, mantendo=se, ao contráio, mais próximo dos intelectuais do Cebrap (Oliveira)  ou no Cedec ((Weffort) chancelaram a construção do PT. De outro, porém, na contramão do que fizeram Weffort, Maria Sylvia de Carvalho Franco ou Marilena Chaui, o crítico paulista se recusou a abandonar a reflexão sobre as singularidades periféricas da formação nacional (e, portanto, sobre a dependência e o imperialismo, retornando-a à luz da problemática de classes e de suas expressões ideológicas.

O modo específico pelo qual Schwartz analisa a formação nacional brasileira se vincula à maneira singular como articulou, sem reducionismos, crítica literária e análise histórico-social, pensando o Brasil, por meio do pensamento dos outros (“ao quadrado” -2) . Foi por esse caminho que, sobretudo a partir dos anos 1970, Schwartz foi descortinando uma ótica própria para analisar a formação social brasileira. Uma ótica  que se diferenciava, por exemplo, da sociologia uspiana da modernização, mas que se distinguia também da perspectiva de sua primeira grande referência literária – Antonio Cândido – , uma vez que muito mais que o mestre, interessava a Schwartz  apreender na forma os impasses talvez insolúveis de nossa formação moderna. De onde, aliás, o flerte precoce e aparentemente fora do lugar com Adorno e os frankfurtianos, ausente do repertório principal  tanto dos jovens marxistas da USP quanto do de Candido.

Nos anos 1990, Schwartz  se postou como uma espécie de autoconsciência dessa tradição intelectual paulista, buscando salvá-la do conformismo que dela se apoderou , para parafrasear Benjamin (3) , e isso no momento mesmo que seus tenores mais eminentes – Cardoso, Gianotti e, a partir de 1994-5, Weffort – se utilizavam da legitimidade acadêmica  para colocar abaixo a Era Vargas, aí incluída toda a cultura política contra a qual haviam se manifestado desde os anos 1960. O acerto de contas com o nacional-populismo se transmutava assim em adesão ao receituário neoliberal, visto como o único caminho possível em um cenário em que, parafraseando Margareth Tatcher, não havia mais alternativa. Basta uma leve mirada nas intervenções de Cardoso, Gianetti ou Weffort à época para se perceber como o lado negativo – o da crítica ao estatismo nacionalista – se tornava agora ponto de partida para o engajamento positivo em favor da adequação neoliberal à inescapável globalização.

Neste cenário, Schwartz radicalizou a dimensão “negativa” da crítica em oposição ao desenlace nada alvissareiro do interesse dos intelectuais paulistas – desde os tempos do “Semnário d´O Capital”- em encontrar alguma solução para os dilemas congêneres do país. Para ele, a hora era a da “crítica independente”, na qual a problemática nacional, sem desaparecer se torna o laboratório de uma crítica mais ampla do capitalismo ainda desigual e mal combinado. É o “nacional por negação”. Não por acaso, é nesse contexto que Schwartz passa em revista a experiência  original do Seminário d ´O Capital a fim de resgatar sua dimensão crítico-negativa e, ao mesmo tempo, descartar seu ímpeto ainda modernizador e desenvolvimentista , entre cujas consequências desabonadoras estava o desinteresse pela crítica do progresso e da mercantilização. `A procura da modernidade, os “seminaristas” teriam tangenciado a própria crítica do capitalismo, o grande objetivo, afinal, da obra da Karl Marx.

Ao lado de Francisco de Oliveira, que deixou o Cebrap, assim como o filósofo Paulo Arantes, Scwatz se estabeleceu, então, no flanco esquerdo da tradição intelectual paulista marxista acadêmica, mantendo=se como crítico não apenas do governo do ex professor e referência bibliográfica, mas também, e sobretudo, da sociedade brasileira em fase de desagregação. Professor do Departamento de Sociologia da USP desde os fins dos anos 1980, Oliveira participou da fundação do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic), em 1995, com Maria Celia Paoli e Vera Telles. No Centro de Estudos, desenvolveu suas análises sobre o Brasil contemporâneo, destacando os impasses do país que, sem deixar de ser periférico, não era mais propriamente subdesenvolvido num amálgama mais ou menos orgânico para cuja elucidação mobilizou a figura do “ornitorrinco”, esse animal que não é isso nem aquilo.

Pela ótica da filosofia, Paulo Arantes se concentrou no ataque ao patrono filosófico dos intelectuais marxistas da USA e seu ex-professor J.A. Gianotti, que não hesitava, por seu lado, em espezinhar os antigos aliados ainda apegados ao que, segundo ele, já havia sido superado pelo tempo. A Gianotti, Cardoso ou Weffort, Arantes dedicou alguns dos pontos altos de sua ironia crítica. Simultaneamente, explorou a hipótese schwatziana de que o ponto de vista de periferia abre a possibilidade, nos dias atuais, de uma visão crítica sobre o conjunto do sistema capitalista. Em 2003, no primeiro ano do governo Lula, Arantes e Oliveira deixaram o PT aproximando-se do Partido Socialismo e Liberdade (Psol) . Schwartz, embora distante, nunca rompeu por completo com o PT. Marilena Chaui não apenas permaneceu no PT como viria a se tornar, ao lado de Emir Sader, uma das grandes figuras intelectuais identificadas com o partido.

Nesse trajeto de mais de meio século, vemos em marcha, portanto, uma geração intelectual que, dos marxismo acadêmico gestados nos anos 1950 e 1960 às inflexões ocorridas nas décadas de 1970 e, sobretudo, de 1980 a 1990 foi elaborando suas tomadas de posição sob a pressão direta ou indireta quer das querelas internas ao espaço social do qual faziam parte (a esquerda universitária), quer da cena intelectual e política nacional. O que começou como tentativa de aclimatação do marxismo á realidade local foi se desdobrando em visões  distintas sobre a formação nacional, a dependência, o papel das classes sociais etc., bifurcando=se mais tarde seja na atualização “negativa” da perspectiva marxista original, como nos casos de Schwartz, Oliveira e Arantes, seja na virada para uma orientação liberal-democrática como se vê em Cardoso, Giannotti e Weffort.

Em suma, se, num primeiro momento, o do pré -64 ou pré-1968, os jovens intelectuais marxistas da USP se situaram como contraparte crítica da nebulosa nacional-desenvolvimentista, como se observa no primeiro capítulo, a verdadeira virada viria mesmo a partir do início dos anos 1970. Em um momento marcado pela derrota política das esquerdas, tais intelectuais paulistas orgarizaram o contra=ataque no plano teórico, colhendo os frutos da crítica à perspectiva nacional-populista iniciada na passagem para a década de 1960. É o começo da revanche dos paulistas, tematizada no segundo capítulo. Desde então, de dominados no espaço intelectual nacional passaram a dominantes, construindo a legitimidade necessária á intervenção em lima “esfera pública”, que, a despeito de seus limites,, se estabeleceria nos anos 1980 em meio ao processo de abertura democrática. Explicitar as diversas camadas que envolvem as diferenças políticas no interior dessa tradição intelectual é o objetivo do quarto capítulo, cujos desobramentos levam ao quinto e último, sobre o antagonismo que se forma entre os integrados e os apocalípticos, isto é, entre os convertidos aos imperativos da globalização e aqueles que, mesmo sob a tentação do catastrofismo, se recusaram a aderir  ao irrecusável  e preferiram conjurar o abismo e aceita de bom grado o bilhete da locomotiva que rumava ao precipício.

Assim, enquanto nos anos 1950 e 1960 a “relativa hegemonia cultural” da esquerda, no dizer de Roberto Schwartz, encontrava no Rio de Janeiro seu epicentro geográfico, o lócus por excelência do intelectual demiurgo da nação e/ou do povo, a coisa muda de figura nas décadas subsequentes. Agora, são os intelectuais paulistas as encarnações não da nação, cuja problemática deixou de reinar absoluta, mas sim da democracia que estava por ser edificada. A hora era a da valorização da sociedade civil, da lógica dos interesses e dos valores das classes sociais, outão das instituições democráticas que quebrariam as vértebras autoritárias legadas pelos vinte anos da ditadura militar – sem falar nos rescaldos do varguismo. De onde o referido acerto de contas, notadamente de suas vertentes “universalistas” ( como a que vai de Weffort ao coletivo Desvios) , não apenas com o nacionalismo, mas também com a própria questão da formação nacional, a um só tempo tema e horizonte de expectativas do pensamento social e político brasileiro desde o século XIX.

É nesse sentido que, segundo a hipótese geral do trabalho, desdobrada nos seus objetivos mais específicos, esse conjunto de intelectuais expressa, em suas similitudes e diferenças, o auge e, ao mesmo tempo, o declínio do pensamento sobre as singularidades da modernidade brasileira. Auge porque, nos anos 1960 e 70 , saíram da lavra desses intelectuais (como Cardos, Weffort, Oliveira, Marilena Chay entre outros) algumas análises mais sofisticadas do passado e do presente da sociedade brasileira, quase sempre em oposição às teses nacional=desenvolvimentistas dominantes nas décadas anteriores. E declínio, sobretudo porque, a partir  da década de 1980 , foi em São Paulo que se decretou o esgotamento das reflexões sobre a formação social, em benefício de uma abordagem pretensamente mais “universalista”, seja da luta de classes, como nos intelectuais próximos ao PT, seja das instituições democráticas, como no caso daqueles engajados na fundação do PSDB, em 1988. A exceção que confirma a regra é Roberto Schwartz, esse derradeiro representante da tradição crítica nacional, como lembrado por Paulo Arantes, .

Ao fim, como se verá , o balanço é ambivalente. Se por um lado, tais intelectuais tiveram uma importância inegável, e mesmo decisiva, na conformação das cenas intelectual e política do Brasil da segunda metade do século XX, por outro, seu desdobramento tardio parece cindido entre a resistência crítica de uns e a adesão sem complexos ao mundo vigente por outros. Que um tenor dessa tradição se tornaria presidente da República, à frente de uma coalizão liberal-conservadora, três décadas depois de haver desencadeado as esperança de algum desenvolvimento “progressista” dentro da ordem, era algo que não podia prever. É possível, porém, ainda que sob o risco do anacronismo por vezes inevitável, divisar que a perspectiva política que o alçaria ao posto máximo do país começou a ser elaborada já a partir de meados ou do fim dos anos 1970, sendo cada vez mais empurrada ao centro e à direita, nas décadas seguintes, conforme o PT ia se tornando hegemônico à esquerda.

Foi essa vertente cardosiana a grande legatária da ascensão dos intelectuais paulistas ao poder nos anos 1990. É sobretudo a esses “vencedores” , portanto, que são destinadas as “batatas” referidas no subtítulo. Venceram adaptando-se, enquanto aos “vencidos” restou o “ódio ou a compaixão”, como escreve Machado de Assis em Quincas Borba. A alusão machadiana e, como se sabe, shwartziana, em razão do título de seu primeiro estudo sobre o escritor carioca, procura justamente jogar luz sobre esse irônico paradoxo das consequências está o silenciamento de todo dissenso, doravante visto como ressentimento dos que teriam muita convicção, mas pouca responsabilidade. Os vencedores ficaram com as “batatas”, mas ao preço de se fazer pela direita o que (a demolição da Era Vargas) , outrora, se pretendia levar a cabo pela esquerda. E, nesse processo, acabaram comprometendo igualmente o lado crítico dessa tradição intelectual, “recolhendo os despojos” da vitória, para escrever , como Machado, no mesmo passo que buscaram “aniquilar por inanição” os antes aliados e agora adversários.

Por isso mesmo, aos opositores de tal tournant, passado o intervalo dos anos 1980, restou o apego à crítica como única válvula de resistência , como princípio de uma tradição dos vencidos que se recusa a acatar a história “tal como ela efetivamente foi”, preferindo também destacar aquilo que poderia ter sido, se fossem outros os caminhos escolhidos. Não o foram e, para eles, a tendência não se modificou , nem mesmo com a ascensão do PT à Presidência, no início do século XXI. Mesmo porque, embora tenham estancado alguma das consequências sociais, mais que na busca de alternativas até segunda ordem aparentemente inexistentes. São eles os herdeiros heréticos desta tradição intelectual que hoje se encontra em vias de esgotamento, e a cujo percurso histórico esse trabalho é dedicado. A eles, mais do que o “ódio” ou a “compaixão”, a compreensão.

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