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A hipocrisia funcional. Por Edoardo Pacelli

Análise da Otan expõe a “hipocrisia funcional” do Artigo 5º e questiona sua relevância diante das mudanças geopolíticas atuais.

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Otan. Imagem: GABIENLAIGUANA

Original em: https://monitormercantil.com.br/a-hipocrisia-funcional/

Se considerarmos o Artigo 5º do Tratado da Otan, veremos que ele formaliza uma defesa coletiva que, na prática, recai inteiramente sobre os Estados Unidos; devemos, portanto, concluir que o tratado nasceu e se desenvolveu a partir de uma “hipocrisia funcional”.

O tratado, de fato, voltou a ter extrema relevância após a invasão da Ucrânia pela Federação Russa; de acordo com este artigo 5º, uma vez que um país membro seja atacado, todos os outros membros são obrigados a intervir para contribuir com a sua defesa.

Ora, é bastante claro que, quando a Otan foi estabelecida, em 1949, ou seja, no auge da Guerra Fria, tendo os Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, França e Itália como seus fundadores, o artigo 5º soava hipócrita.

Sob o termo “neutro”, que, como tal, se referia a cada membro, o único país capaz de assumir a responsabilidade pela potencial defesa contra um ataque soviético eram os Estados Unidos, o promotor daquela aliança atlântica, que respondia à estratégia precisa de bloquear a expansão soviética, às custas da Europa Ocidental, para cuja reconstrução o Plano Marshall já estava em andamento desde 1948.

Essa hipocrisia, segundo a qual participar da Otan significava, apenas aparentemente, assumir a defesa coletiva, na verdade significava colocar-se sob a proteção armada dos Estados Unidos.

A supremacia americana refletia-se na Otan, tornando-a mais forte e formidável, sem que muitos outros membros tentassem acompanhar o ritmo, fortalecendo e modernizando seus exércitos e, simplesmente, concedendo bases aos americanos em seus territórios.

Isso continuou até o colapso da URSS, com a subsequente libertação dos países do Leste Europeu, ansiosos por ingressar na Otan, produzindo, assim, uma expansão gradual destinada a se estender aos países do Norte da Europa, após a invasão russa da Ucrânia.

Mas algo havia mudado aos olhos dos Estados Unidos, a ponto de adquirir uma relevância claramente perceptível sob a segunda presidência de Trump.

Ao contrário dos europeus, os americanos já não consideravam mais provável um ataque da Rússia, reduzida a uma potência regional, no Velho Continente. Rebaixaram a tentativa de invasão da Ucrânia, com a intenção (Cuba nos ensina) de criar uma zona tampão, incluindo a Bielorrússia, contra uma Otan que alcançara suas fronteiras.

Sendo assim, os Estados Unidos estavam certamente dispostos a ajudar a Ucrânia, mas dentro da estrutura de uma solução que não envolvesse ruptura com a Rússia de Putin. Afinal, essa continuava sendo essencialmente uma questão que a Europa tinha que resolver, sem contar com os próprios Estados Unidos, por sua própria conta e risco.

O fato é que, para os americanos, o cenário estava mudando completamente; o verdadeiro concorrente havia se tornado a China, e não mais a Rússia. Tendo mudado a atenção do Atlântico para o Pacífico, a Otan perdeu, portanto, toda a sua relevância na defesa coletiva, com grave consequência paradoxal: os Estados Unidos, cansados de apoiar uma aliança que havia perdido relevância estratégica, exigiam dos agora numerosos membros do tratado um aumento substancial na porcentagem do PIB dedicada a armamentos.

A hipocrisia parecia ter chegado ao fim. O artigo 5º da Otan continuou a prever a defesa coletiva, mas foi repassado a todos os membros; parecia ter chegado ao fim porque, na realidade, a própria previsão de defesa coletiva, concebida em relação à URSS, e certamente não reproduzível para a nova Federação Russa, havia terminado.

O artigo 5º foi invocado apenas uma vez, após o ataque às Torres Gêmeas, considerando o ataque a um país membro da Aliança como um ataque terrorista.

Isso justificou um mal-entendido, o de Trump, que, independentemente da falta de qualquer aviso, mesmo que absolutamente necessário, acreditou que poderia envolver a Otan numa tentativa de impedir que um Estado terrorista, como o Irã, possuísse a bomba atômica.

Ora, supondo que Trump estivesse formalmente errado, a Europa errou ao optar completamente por ficar de fora, arriscando-se a condenar-se à marginalização numa área de grande importância estratégica. Entretanto, resta a dúvida se não seria oportuno reformular sua função, para que possa ser usada em operações de pressão militar em áreas estrategicamente importantes para a Europa, dado que o papel da Otan como defesa coletiva contra a ameaça russa foi bastante enfraquecido.

Deixar as coisas como estão significaria trocar uma hipocrisia por outra: acreditar, ontem, que o artigo 5º realmente contava com todos os membros da Aliança; acreditar, hoje, que esse mesmo artigo 5º ainda é relevante!

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