
Original em: https://hojepr.com/os-filhos-de-colo/
No salão principal do clube — onde o silêncio é tão educado quanto os talheres de prata — o reencontro aconteceu com a naturalidade ensaiada de quem nunca teve pressa de sentir. Clotilde e Cléo, quinze anos depois, reconheceram-se de imediato. Não pelo rosto — que o tempo redesenha — mas pelo modo de segurar a vida: ambas com pequenos cães de raça no colo, como se fossem extensões legítimas do próprio afeto.
— Olá, querida! Quanto tempo! — disse Cléo, inclinando-se com cuidado para não desalojar o “bebê”.
— Pois é… — respondeu Clotilde, ajeitando o laço de seda do seu. — E veja só… que lindos nossos cachorros!
Os cães, alheios ao reencontro, disputavam silenciosamente o troféu invisível de mais mimado.
— E a família? — perguntou Cléo, com a delicadeza de quem pergunta sabendo que a resposta cabe numa frase.
Clotilde respirou fundo, mas sem drama, como quem anuncia uma reforma.
— Mamãe faleceu semana passada.
— Oh… sinto muito…
— Nós a cremamos e espalhamos as cinzas nas águas de Balneário Camboriú. Ela adorava aquele mar. Foi lindo. Contratamos um tenor e uma soprano para a solenidade… emocionou a todos.
Houve um breve silêncio respeitoso — não pela perda, mas pela produção do evento.
— E seu pai? — devolveu Clotilde.
Cléo sorriu com a serenidade prática de quem terceiriza o inevitável.
— Papai está no asilo. Eu o vejo a cada dois meses. Está bem.
“Está bem” ali significava tudo: vivo, medicado e fora do caminho.
Os cachorros trocaram de posição no colo, exigindo mais centralidade na conversa.
— E as crianças? — insistiu Cléo, como quem cumpre protocolo.
— Ah, Renata e Roberto Jr. estão no colégio integral — disse Clotilde. — Deixo às sete e pego às dezoito e trinta. A babá cuida muito bem deles.
A frase “cuida muito bem” tinha o peso de um selo de qualidade. Amor, afinal, também pode ser delegado — desde que bem pago.
— E o seu marido, o Roberto? — perguntou Clotilde.
— Sempre viajando… negócios — respondeu Cléo, com um leve encolher de ombros que misturava resignação e conveniência. — Aliás, vamos passar uma temporada em Paris.
— Que maravilha!
— Um mês. Sem as crianças, claro. Mas levo meus bebês… — disse, apertando o cachorro com ternura genuína. — Não vivo sem eles.
Clotilde assentiu, com a cumplicidade de quem compreende prioridades modernas.
— E as crianças?
Cléo sorriu, quase didática:
— Amiga… Paris não é para crianças… se liga. A babá e o motorista cuidam deles.
Nesse ponto, o garçom aproximou-se com discrição cirúrgica, servindo chá importado e pequenos doces de nomes impronunciáveis. As duas agradeceram sem olhar — estavam ocupadas demais acariciando o que realmente importava.
Havia algo de profundamente organizado naquele mundo: os pais em instituições adequadas, os filhos em escolas eficientes, os maridos em aeroportos e os sentimentos… bem, os sentimentos acomodados em almofadas felpudas que latiam baixo.
O curioso é que nenhuma das duas parecia infeliz. Pelo contrário: havia nelas uma espécie de paz administrativa. Tudo estava no lugar certo — ainda que esse lugar fosse sempre um pouco distante.
— Sabe — disse Clotilde, num raro lampejo reflexivo —, às vezes penso como a vida ficou… prática. Temos um Pet Shop chiquérrimo que fornece mantimentos e atendimento veterinário VIP a domicílio. Para nossos bebês. Te passo o contato querida!
— Sim — concordou Cléo, enquanto o cachorro lhe lambia o pulso com devoção. Uma fofura perfumada. — Hoje a gente consegue dar conta de tudo.
E de fato davam. Davam conta de tudo — exceto, talvez, daquilo que não se terceiriza: o desconforto de estar presente.
Ao fundo, um piano começou a tocar alguma coisa clássica, perfeitamente adequada para não ser ouvida. As duas amigas sorriram, brindaram com suas xícaras delicadas e voltaram a falar dos cachorros — suas rotinas, seus tratamentos, suas sensibilidades alimentares.
Porque, no fim das contas, havia ali um consenso silencioso: gente dá trabalho, exige tempo, cria vínculos. Já os cães… ah, os cães cabem no colo, obedecem com doçura e, sobretudo, não fazem perguntas difíceis.
E isso, convenhamos, é um alívio imenso.