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A invisibilidade do Sr. Roberto. Por Luiz Henrique Lima Faria

Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).

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Na cidade em que moro, existe uma pedagogia perversa. A pedagogia da indiferença. Aprende-se cedo a não demorar o olhar sobre certas pessoas. A cidade ensina seus habitantes a atravessarem calçadas como quem evita a peste. O cidadão deitado junto à marquise deixa de ser alguém e passa a constituir apenas um pequeno desconforto urbano, com a mesma relevância emocional de um poste torto ou de uma lixeira transbordando. Vivemos tempos em que o sofrimento humano vai sendo lentamente convertido em ruído visual tendente ao invisível.

Já fazia algum tempo que eu via o Sr. Roberto pelas ruas de Vila Velha. Sempre com algum livro nas mãos. Às vezes sentado na calçada lendo. Às vezes tentando dormir enquanto as urgências artificiais da vida moderna continuavam marchando ao redor. Nunca o vi pedindo dinheiro. Havia nele algo que ainda resistia à degradação. Uma dignidade que a miséria material ainda não conseguira sequestrar de seu espírito.

Hoje pela manhã, ele estava próximo à padaria que frequento regularmente. As pessoas passavam desviando o olhar, sem lhe dirigir palavra alguma. Não era hostilidade explícita. Era algo pior. A naturalização absoluta de sua invisibilidade social. Desejei-lhe bom dia. O espanto que surgiu em seu rosto mostrou-me o retrato mais preciso da falência afetiva do nosso tempo. Um homem surpreendido porque alguém lhe ofereceu um cumprimento.

Perguntei se havia tomado café da manhã. Disse que não.

Comprei café e pão de queijo. Conversamos um pouco. O Sr. Roberto tem 64 anos. Gosta de poesia e de contos. Falava com a precisão verbal de quem ainda conserva intimidade com a literatura, apesar de viver num país que abandonou os leitores e esmagou os pobres sob a brutalidade cotidiana da sobrevivência impossível.

Não me contou muito sobre sua vida. Era reservado. Afinal, eu era apenas um estranho que acabara de cruzar seu caminho. Perguntei se aceitaria ler meu livro de crônicas. Disse-lhe que poderia buscar um exemplar em casa caso esperasse alguns minutos. Concordou com um pequeno meneio de cabeça.

Voltei com o livro ainda no plástico, recém-saído da caixa enviada pela editora. Confesso, com constrangimento, que me comovi com a delicadeza com que retirou a embalagem. Fazemos pouca ideia da violência subjetiva sofrida por alguém que passa meses ou anos sem receber quase nada que lhe pertença simbolicamente.

A miséria material é devastadora, mas há outra ainda mais cruel. A miséria de perceber que ninguém mais espera inteligência, sensibilidade ou qualquer centelha de vida vinda de você.

Antes de nos despedirmos, pedi-lhe que, quando terminasse a leitura, me dissesse o que achara das crônicas. Queria ouvi-lo. Queria sua crítica. Talvez essa tenha sido a parte mais importante daquele encontro. A inesperada necessidade de reencontro.

O Sr. Roberto não é invisível. Provavelmente possui mais substância existencial do que muitos daqueles que passaram a vida inteira desviando dele o olhar.

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