
Unidade ambiental anunciada pelo GDF (em amarelo no mapa acima) seria pequena e não engloba a Gleba A (em marrom), com área dez vezes maior e que foi transferida pelo GDF para o BRB. O novo parque está longe de proteger as mais de cem nascentes já mapeadas na região. Ambientalistas se dizem decepcionados com o que para eles foi uma forma de confundir o imaginário social. Na CLDF, parque foi chamdo de “fake”.
Defensores da natureza e do verde respiraram aliviados ao saber que a nova governadora Celina Leão (PP) havia assinado um decreto criando o “Parque da Serrinha”. Para muitos, era uma vitória dos movimentos que defendiam a preservação da área repassada pelo ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) ao Banco Regional de Brasília, na sua estratégia de tapar o rombo criado nas tratativas financeiras entre o Banco Master e o BRB. A alegria, contudo, durou pouco. O parque criado nada tem a ver com a Gleba A, disponibilizada ao banco, com o aval da base governista dos deputados distritais. Ambientalistas se dizem frustrados e que Celina não fez o prometido.
Para o deputado distrital Gabriel Magno, “Celina mentiu, enganou a população. O parque é fake. Ao não preservar a área da Gleba A, bem como a área projetada para a expansão do Setor Taquari, o GDF dá um aceno a especulação imobiliária, apontando que a área ainda é passível de receber projetos habitacionais” “A Serrinha do Paranoá continua ameaçada! A governadora Celina Leão assinou um decreto que cria o Parque Distrital da Serrinha, mas a área definida é diferente daquela prevista na lei que entrega terrenos públicos numa tentativa de cobrir o rombo bilionário do BRB” – comentou o distrital Fábio Félix (Psol). Magno disse que a meta agora é tentar aprovar um projeto de lei que retire a Serrinha do rol de imóveis repassados ao BRB. Celina aventou essa possibilidade, mas segundo o parlamentar, nada fez de concreto nesse sentido.
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O distrital Max Maciel (Psol) cobrou seriedade do governo. “Celina é uma política experiente. Sabe como colocar as coisas para a população. Quando ela diz que vai criar um parque na Serrinha, ela está dizendo que discorda da doação dele para o BRB. Só que isso não se mostrou verdadeiro. A Gleba A continua à disposição do BRB” – diz ele. Na verdade, informa a ambientalista e diretora da Associação Preserva Serrinha, Lúcia Mendes, o novo parque envolve uma área que já possuía estudos técnicos e deveria ser criado, em 2022, sob a denominação “Parque Pedra dos Amigos”, por estar próximo ao mirante homônimo. Ele já era uma demanda antiga da comunidade para evitar a grilagem de terra, em especial na área do Condomínio Privê Lago Norte 2.
O parque se materializa agora, porém com novo nome. Em postagens que circulam nas redes sociais, os movimentos em defesa da Serrinha consideram a área e formato do novo parque tímidos, diante da imensa área de recarga que precisa ser protegida. E não compreende a Gleba A. Daí o fato de que, na comunidade, ele está sendo chamado de “parquinho” e “parque fake da Serrinha”. A iniciativa se transformou numa ducha gelada.
Novo estilo
Há de se reconhecer, que Celina Leão demonstrou um estilo que a distancia de Ibaneis. Embora possa ser avaliado como factóide, ela foi hábil, logo no início de seu governo, ao criar uma unidade ambiental na região alvo das polêmicas criadas por Ibaneis. Celina tenta se distanciar da imagem do ex-governador. Ibaneis, se tivesse um pouco mais de jogo de cintura, poderia ter feito isso simultaneamente à proposta de transferência de imóveis públicos ao BRB. O estilo dele, contudo, é outro, está mais para Donald Trump.
“Ficamos com um sentimento de desacordo entre a promessa e a ação. Gerou muita frustração porque na semana anterior foi criada a expectativa de solução mais definitiva para a Serrinha, com a criação de um parque ou vários parques. Esperamos que ainda seja essa a intenção da governadora. Precisamos de mais unidades de conservação de proteção integral nessas áreas de Cerrado. Vamos continuar na luta pela defesa da Serrinha!” – comenta a ambientalista Lúcia Mendes
“Parquinho”
A questão é maior do que a simples mudança de nome, que pode provocar uma má compreensão popular do que exatamente virou parque. Para muitos, transpareceu que o que estava sendo preservado era exatamente a Gleba A, alvo do BRB.
A gleba possui uma área de 716 hectares, se localiza na porção mais próxima da cidade do Paranoá e num relevo mais acima da Serrinha. A área que já foi classificada no Pdot como de expansão urbana, já foi imaginada abrigando o Taquari 2, um projetos urbanístico para abrigar 100 mil moradores.
Condomínio Privê Lago Norte
Já o novo parque tem uma área inferior a 10% da Gleba A. São 65,9 hectares, localizado às margens da Estrada Parque Paranoá, nas proximidades dos córregos do Urubu e do Jerivá e à frente do Condomínio Privê Lago Norte 1.
O decreto que cria o parque prevê a criação de uma zona de amortecimento com mais de 600 hectares, destinada a reduzir impactos ambientais no entorno do parque e disciplinar o uso do solo em áreas próximas, especialmente em regiões com crescimento urbano.
O Conselho Gestor da Área de Proteção Ambiental do Planalto Central, que é uma APA federal, reivindica a criação de um Parque Nacional que proteja integralmente toda a área da Serrinha, notadamente a Gleba A. Em moção pública, alega que além da produção hídrica, a Serrinha do Paranoá possui posição estratégica para atuar como nó estruturante de corredores ecológicos, conectando unidades de conservação, áreas de proteção de mananciais e zonas de recarga de aquíferos.
“Patas da raposa”
Quem olha para a poligonal do novo parque – que parece a silhueta de uma raposa ou cachorro – fica curioso em entender o que motivou duas porções de terra à beira da pista excluídas na área protegida.
Essas duas porções de terra lembram as patas dessa “raposa”. Entre o que seriam as patas traseiras e dianteiras há umas trinta residências erguidas, algumas bem luxuosas, com piscina. Há inclusive casa de eventos, segundo informa o Google Maps.
Esses lotes, supostamente irregulares, ficam na etapa 2 do Condomínio Privê Lago Norte (vide imagem).
O questionamento comunitário é sobre as razões que teriam motivado a exclusão desses dois conjuntos de residências. Nas redes sociais, a interrogação é forte: “Porque a poligonal foi recortada para não atingir essas casas”, perguntam uns. “Quem são os donos dessas casas?, indagam outros.
Nascentes
No informe oficial da Agência Brasília, Celina Leão afirma que “na Serrinha é onde está uma das áreas mais estratégicas para a segurança hídrica da nossa região. Ali se concentram mais de 60% das nascentes mapeadas, conectando duas importantes unidades hidrográficas, que são o Lago Paranoá e Santa Maria/Torto. Com a criação do Parque Distrital da Serrinha, a gente dá um passo firme na proteção dessas riquezas naturais, garantindo a preservação direta dos córregos Jerivá e Urubu, fundamentais para o abastecimento e o equilíbrio ambiental”.
Lúcia Mendes reconhece que o “parquinho” tem a capacidade de conter a grilagem do Privê Lago Sul e de preservar a bacia do córrego do Urubu, mas ressalta que das mais de cem nascentes já mapeadas na Serrinha, o parque irá abrigar umas três ou quatro, apenas.
Ressalta, ainda, que uma grande área acima do novo parque (marcada em vermelho na ilustração), ainda corre o risco de ser loteada para a implantação da etapa 2 do Taquari 1.
“Quando implantaram o Taquari 1, já tivemos uma redução de 30% da carga hídrica da região. Implantar a etapa 2 do Taquari 1 e mesmo o Taquari 2 será o fim da produção hídrica dessa região” – afirma a ambientalista, lembrando que a onça parda vista nos últimos dias circulando no Lago Norte – e que depois foi atropelada na Asa Norte – era proveniente dessa região de Cerrado ainda preservada.
Para ela, diante da escassez de alimentos que a expansão urbana provoca na Serrinha, a onça foi atrás do que comer, possivelmente capivaras.
Outro lado
Instada, por esta coluna, a se posicionar sobre os questionamentos comunitários referentes à nova unidade ambiental, nem a governadora, nem a assessoria dela, retornaram. O espaço continua aberto.