
Original em: https://hojepr.com/a-menina-e-o-cello/
Naquela manhã de domingo, a pequena Donatella entrou na igreja de mãos dadas com a mãe, equilibrando os sapatinhos pretos recém-engraxados e a curiosidade própria dos sete anos. O templo estava iluminado pelos vitrais dourados do inverno curitibano, e o perfume discreto da madeira encerada misturava-se ao murmúrio das famílias procurando seus bancos. No altar, acomodava-se uma pequena orquestra de câmara. Violinos afinavam em sussurros agudos. A flauta parecia testar o voo de um passarinho invisível. Mas foi um instrumento maior, de curvas elegantes e voz grave, que prendeu os olhos da menina.
O violoncelo.
Ali estava ele, apoiado entre os joelhos de um músico silencioso, como se fosse um velho rei descansando antes da batalha. Donatella não sabia seu nome complicado. Apenas sentiu. Algumas crianças se encantam por pipas. Outras, por bicicletas. Ela apaixonou-se por aquele som profundo, parecido com a voz da chuva caindo sobre telhas antigas. Quando o arco deslizou pela primeira vez nas cordas, a menina arregalou os olhos. Parecia que alguém havia aberto uma janela secreta dentro do peito dela.
A música subiu pela nave da igreja como uma oração sem palavras. Donatella levantou-se devagarinho do banco, enquanto os pais acompanhavam o culto distraídos pelo coral. Aproximou-se da orquestra quase sem perceber os próprios passos.
Então aconteceu. Ao tocar de leve a madeira envernizada do cello, o mundo girou como um disco antigo. As paredes da igreja desapareceram.
E a menina encontrou-se em uma rua estreita da velha Veneza, onde homens usavam casacas e perucas empoadas. Pombos atravessavam o céu e canais refletiam o brilho do sol italiano. À sua frente, um homem ruivo escrevia febrilmente sobre folhas de partitura.
Era Antonio Vivaldi.— Ah! Finalmente chegou a pequena visitante! — exclamou ele, sem qualquer surpresa. — Venha ouvir o que o violoncelo ainda pode contar ao mundo! Donatella aproximou-se fascinada. Vivaldi colocou em suas mãos um instrumento quase maior que ela própria.
— Antes, o cello vivia escondido atrás dos outros instrumentos, apenas reforçando os baixos da orquestra. Mas eu lhe darei voz! — disse o compositor com entusiasmo. — Ele pode cantar como gente. E então a menina ouviu concertos inteiros onde o violoncelo deixava de ser sombra e passava a ser estrela. Mal terminara de compreender aquilo, outro portal abriu-se entre notas musicais.
Agora estava numa igreja alemã, cercada por órgãos monumentais e velas acesas. Um homem sério, de expressão concentrada, escrevia linhas musicais com precisão matemática.
Era Johann Sebastian Bach. Ao lado dele, outro cavalheiro elegante sorria discretamente: George Friederich Handel.— O cello precisa conversar com Deus — murmurou Bach.
— E também com os reis — completou Handel.
Ambos mostraram à menina como o instrumento passara a ganhar caminhos próprios dentro da orquestra. Já não era simples acompanhante. Tinha voz, intenção, sentimento.
Donatella escutava tudo como quem descobre um segredo antigo do universo.
O tempo girou novamente.
Agora os salões eram claros, refinados, iluminados por lustres dourados. Senhores batiam discretamente as mãos após cada apresentação.
Ali estavam Joseph Haydn e Wolfgang Amadeus Mozart.— Veja só! — disse Haydn, sorridente. — O cello agora possui lugar fixo na orquestra!— Ganhou seu próprio naipe! — acrescentou Mozart com alegria juvenil. — Não é mais apenas reforço do baixo.
Foi então que Donatella percebeu dezenas de violoncelos tocando juntos, firmes e elegantes, sustentando a música como colunas invisíveis de uma catedral sonora.
Mas ainda havia outra surpresa. Num ateliê perfumado por verniz e madeira recém-cortada, um senhor de mãos pacientes examinava cuidadosamente um instrumento.
Era Antonio Stradivari.
Ele mostrou à menina os antigos violoncelos enormes, desajeitados, difíceis de tocar.
— Eram grandes demais — explicou. — Precisavam encontrar sua medida perfeita.
Com delicadeza quase paternal, apresentou-lhe então o modelo harmonioso que definiria o padrão moderno do cello por volta de 1710.
Donatella passou os dedos pela madeira dourada. E naquele instante compreendeu algo que criança nenhuma consegue explicar em palavras:
Alguns objetos possuem alma. O portal começou lentamente a se fechar. As vozes dos compositores tornaram-se distantes. Os salões desapareceram. Veneza dissolveu-se como névoa.
Quando abriu os olhos novamente, estava ajoelhada perto da orquestra da igreja. O culto ainda acontecia. Ninguém parecera notar sua ausência de séculos.
Apenas o velho maestro observava a menina com um sorriso misterioso. No domingo seguinte, Donatella apareceu carregando um pequeno violoncelo infantil. E no outro domingo também.E no outro.
Os fiéis passaram a esperar aquele momento especial do culto em que a menina surgia diante da congregação, fechava os olhos e fazia o arco deslizar pelas cordas com uma serenidade impossível para seus sete anos. Alguns diziam que ela tinha talento. Outros, que possuía dom divino.
Mas havia uma senhora muito idosa sentada sempre no último banco da igreja que cochichava discretamente:
— Essa menina não aprendeu sozinha… ela trouxe música de muito longe. E talvez estivesse certa.
Porque, em certas manhãs silenciosas, quando Donatella tocava as notas mais graves do cello, era possível jurar que, misturados ao som do instrumento, ecoavam aplausos vindos de séculos atrás.