Home Brasil Belluzzo analisa a economia e a eleição presidencial. Por Jorge Priori

Belluzzo analisa a economia e a eleição presidencial. Por Jorge Priori

Segundo Luiz Gonzaga Belluzzo, o Brasil precisa retomar o planejamento indicativo, que foi decisivo para a industrialização brasileira.

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Professor e economista Luiz Gonzaga Belluzo no programa DR com Demori, da EBC
Professor e economista Luiz Gonzaga Belluzo (foto de Paulo Pinto, ABr)

Original em: https://monitormercantil.com.br/belluzzo-analisa-a-economia-e-a-eleicao-presidencial/

Conversamos com Luiz Gonzaga Belluzzo sobre a economia e a eleição presidencial. Belluzzo é economista, professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp e foi presidente do Palmeiras no biênio 2009-2010.

Qual a sua avaliação sobre o atual estado da economia brasileira?

Se fizermos uma comparação com o segundo governo Lula, o atual desempenho da economia deixa a desejar, mas isso decorre das limitações que têm sido impostas às políticas econômicas do governo. Como existe uma dominância dos mercados financeiros, isso coloca dificuldades para que o governo possa executar a política econômica, o que é muito grave. Com isso, nós estamos fazendo políticas pontuais sem nenhuma perspectiva de longo prazo, sendo que isso não é responsabilidade do governo.

Como, em geral, os economistas subtraem a economia das outras dimensões da vida social, fica um receituário muito limitado e simplório. Talvez fosse o caso de buscarmos uma inspiração, como o segundo mandato do presidente Lula ou Juscelino Kubitschek e o seu Plano de Metas. Isso porque o que está sendo bloqueado é a possibilidade de retomarmos a ideia de planejamento indicativo, o que foi decisivo para a industrialização brasileira.

O problema é que nós não temos uma discussão mais ampla que olhe para a sociedade brasileira. Por exemplo, Getúlio Vargas discursava para plateias compostas por trabalhadores, tanto que ele começava seus discursos com a expressão “trabalhadores do Brasil”, mas, infelizmente, o avanço do capitalismo-tecnológico desmembrou, totalmente, a relação entre a política econômica e os trabalhadores, tanto que não existem manifestações populares no sentido de encaminhar uma mudança.

Atualmente, os sindicatos estão completamente desguarnecidos, e a participação da indústria de transformação, que antes da década de 1980 era de 28%, está em 9%. Existe o plano “Nova Indústria Brasil”, mas ele não está sendo colocado em prática.

Na sua opinião, quais são os principais problemas da economia brasileira?

O problema central é a desindustrialização, pois, como disse, a queda da participação da indústria foi muito significativa. Esse processo também está ligado ao declínio dos setores tecnológicos mais avançados, já que hoje é impossível fazer política industrial sem levar em conta o avanço tecnológico. Por exemplo, a China conseguiu articular os avanços industriais e tecnológicos em torno da sua política econômica.

Nós tínhamos que ter um o horizonte da política econômica, sobretudo da política industrial. Ocorre que essa questão depende de condições políticas e sociais. Por exemplo, eu tenho observado nos debates sobre a Inteligência Artificial (IA), economistas, tanto progressistas, mais keynesianos, quanto conservadores, preocupados com o avanço dessa tecnologia e a sua capacidade de eliminar muitos postos de trabalho. Essa é uma situação muito complexa, pois o Brasil está atrasado em muitos aspectos há muitos anos.

É por isso que é tão importante retomar o planejamento indicativo que a China faz, e que o Brasil já fez no passado. Diga-se de passagem, em 1980, os chineses estiveram no Brasil para se informar sobre o bem sucedido desempenho da economia brasileira. Infelizmente, nós perdemos a capacidade de fazer isso de forma prudente e organizada, sendo que hoje eu só vejo objeções a isso.

Fracamente, se Flávio Bolsonaro ganhar a eleição, nós teremos a reintrodução da ignorância no debate brasileiro, pois ao mesmo tempo em que ele é adepto do autoritarismo e de golpes de estado, ele é excessivamente liberal na economia. Essa mistura produz um resultado muito ruim.

Qual a sua avaliação sobre a forma como o presidente Lula recebeu a economia e vai entregá-la ao seu sucessor, mesmo que seja ele no caso de uma reeleição?

O presidente Lula recebeu a economia com pouco dinamismo. Obviamente, a pandemia afetou muito o seu desempenho, mas nós temos que olhar a capacidade de resistência a eventos negativos, pois foi isso que induziu as políticas econômicas brasileiras que funcionaram, inclusive as do Regime Militar.

O único problema desse período é que o meu amigo Mário Henrique Simonsen acreditou que depois do choque do petróleo e da forte acumulação de reservas em dólares por parte dos países árabes, o Brasil poderia abrir, financeiramente, a sua economia e fazer um endividamento externo, mas depois que Paul Volcker subiu a taxa de juros dos Estados Unidos e desmontou, completamente, as condições de funcionamento das economias periféricas, isso acabou sendo a causa da grande crise do início da década de 1980.

Com relação à economia que o presidente Lula vai entregar, enquanto não se recuperar a capacidade de execução de políticas econômicas em um mundo conturbado, nós sempre seremos restringidos pela ignorância das condições externas, ou melhor, das condições do fluxo de capital. Nesse contexto, é difícil entregar algo melhor, mas o Brasil poderia intensificar as suas relações com os países do Brics e criar relações monetárias bilaterais para escapar do domínio do dólar.

Na sua avaliação, a inflação está sob controle?

Na minha opinião, é impróprio falar em controle da inflação, pois esse é um problema de gestão de política econômica. Por exemplo, nós tivemos um choque de oferta que levou a uma subida do preço do petróleo, o que afeta, de forma universal, todos os setores da economia. Além da política de metas de inflação não considerar esse tipo de choque, ela não considera os efeitos da formação de preços nos setores monopolistas ou oligopolistas, que possuem uma grande capacidade de fixar seus preços.

Antes de achar que a política de metas vai resolver o problema da inflação, é preciso pensar nos controles que deveriam ser adotados para enfrentar as questões concretas que mencionei. Aliás, a economia da IA e das plataformas gera uma tremenda concentração de poder. É muito preocupante quando se ignora isso.

Aproveitando o gancho, a meta de inflação de 3% é adequada à dinâmica da economia brasileira?

Há alguns anos, eu assinei um manifesto que pedia para que a meta de inflação fosse elevada para 4%, 4,5%. Isso porque não existe uma ciência para definição da meta. A definição é como se fosse “a meta vai ser 3% e está decidido”. O problema é que quando se estabelece a meta em 3%, isso enfraquece, completamente, a capacidade da política econômica realizar seus projetos, fazendo com que ela se torne prisioneira.

A Selic está em 14,5% com o propósito de levar a inflação para a meta, mas isso não vai acontecer. Depois do choque de oferta que mencionei, vai ficar demonstrada a precariedade da meta. Como nós vamos continuar nesse mesmo sistema de combate à inflação, seria melhor subi-la.

Está se formando um combo de problemas composto pelo aumento da inflação, aumento do custo de vida e endividamento da população. O que o governo deveria fazer para ajudar a resolver esses problemas?

Recentemente, eu li uma matéria que dizia que 52% das famílias estão inadimplentes, sendo que 70% está muito endividada. O que me deixa desanimado nesse tipo de discussão é que não se vai ao fundamento das questões.

Na nossa economia capitalista, monetária e financeira, a criação de dinheiro é feita pelos bancos privados sob a supervisão do Tesouro Nacional e do Banco Central. Por exemplo, uma empresa pode analisar a possibilidade de contrair um empréstimo para fazer uma expansão, mas se ela achar que essa decisão pode ser muito arriscada, ela não leva esse assunto adiante.

No caso das famílias, o agravamento do endividamento está relacionado à mudança no padrão de consumo, que exige o convencimento das pessoas de que o mais avançado é o melhor. Isso faz com que a pessoa recorra ao endividamento para superar as suas limitações de renda.

Não dá para discutir o endividamento das famílias de uma forma muito simples, pois ele está relacionado à constituição da economia. É preciso criar regulações que diminuam esse estrangulamento.

Na sua avaliação, qual o motivo que está gerando um distanciamento entre a percepção econômica do governo e a percepção econômica, de uma maneira geral, da população?

Esse é um ponto importante. Ao longo dos anos, se foi provocando uma situação de trabalho precário e de informalidade. Além disso, por mais que o setor formal tenha tido um aumento muito grande, boa parte da população ficou de fora disso. Esse contexto fez com que essa população se sentisse prejudicada e se inconformasse com essa situação.

Frequentemente, eu converso com entregadores de comida. Eles me dizem que a situação está horrível, mas isso não é só com eles. Isso também está acontecendo, por exemplo, com engenheiros e advogados que estão trabalhando como Uber.  Por mais que o descontentamento seja compreensível, ele só pode ser superado com a participação dos movimentos sociais e dos sindicatos em busca de uma política econômica que contemple a vida das pessoas. Isso porque os economistas não prestam atenção à vida das pessoas.

Os economistas fazem cálculos de emprego formal, de emprego precário etc., mas no âmago dessa questão, está a vida das pessoas, que percebem que suas vidas estão sujeitas a um paradigma muito negativo. Como os modelos econômicos supõem que todos são iguais, isso gera um preconceito que contamina toda a visão econômica convencional.

Cabe destacar que nós estamos assistindo no mundo inteiro, um aumento brutal da desigualdade. Isso está causando um ressentimento que está movendo muitos contingentes populares para a direita e a extrema direita. Essas pessoas querem uma solução cabal, mas isso não vai acontecer.

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