
No âmbito das relações internacionais, as hostilidades e rivalidades geralmente não se formam com base em emoções; em vez disso, estão enraizadas em interesses, poder e cálculos estratégicos. Dessa perspectiva, para entender a razão do atual confronto entre os Estados Unidos e a República Islâmica do Irã, é preciso ir além do nível dos slogans e reivindicações oficiais e abordar os fundamentos geopolíticos, econômicos e estratégicos desse confronto.
Mais de quatro décadas se passaram desde a vitória da Revolução Islâmica, mas as pressões políticas, as sanções econômicas, as operações psicológicas, as guerras de inteligência e os esforços para conter o poder do Irã continuam. Essa realidade levanta uma questão importante: por que os Estados Unidos e a estrutura de poder que governa o sistema internacional têm problemas com a existência de um Irã poderoso, independente e influente no Oriente Médio? A resposta a essa pergunta deve ser buscada na posição singular que o Irã ocupa nas equações regionais e globais.
Poucos países no mundo desfrutam de uma posição que os conecta simultaneamente à Ásia Central, ao Cáucaso, ao Golfo Pérsico, ao Golfo de Omã, ao subcontinente indiano e ao Mediterrâneo Oriental. O Irã está localizado em um dos pontos geopolíticos mais sensíveis do mundo e há muito tempo é uma encruzilhada de rotas comerciais, energéticas e civilizacionais.
Na visão estratégica dos Estados Unidos, controlar ou ao menos conter um ator com tais capacidades é de vital importância. Um país com uma extensão geográfica considerável, vastos recursos energéticos, uma população jovem e instruída e um histórico que abrange vários milênios, se possuir independência política, pode se tornar um dos polos de poder regional.
Deste ponto de vista, a questão principal não é meramente a República Islâmica ou um governo específico; em vez disso, é a própria existência de uma potência independente no coração da Ásia Ocidental que pode desafiar os acordos desejados por Washington.
Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se esforçaram para consolidar uma ordem internacional baseada em sua superioridade política, econômica e militar. Dentro dessa estrutura, muitos dos aliados de Washington em diversas regiões do mundo foram, de uma forma ou de outra, integrados à estrutura de segurança e econômica liderada pelos EUA.
No entanto, a Revolução Islâmica do Irã em 1979 criou uma equação diferente. A República Islâmica não apenas saiu da órbita estratégica dos Estados Unidos, como também transformou a ideia de independência política e resistência à pressão das grandes potências em um dos princípios de sua política externa.
Na realidade, o principal desafio da perspectiva de Washington é que o Irã se recusa a aceitar o papel de ator subordinado. A experiência das últimas quatro décadas mostra que, sempre que um país se opõe à ordem vigente das grandes potências e trilha um caminho independente, enfrenta diversas pressões. O Irã não é exceção a essa regra.
Outra dimensão importante desse confronto diz respeito ao lugar de Israel na estratégia regional dos Estados Unidos. Nas últimas décadas, Israel se tornou o aliado mais importante de Washington no Oriente Médio, e uma parte significativa das políticas regionais americanas foi concebida levando em consideração a segurança e a superioridade desse regime.
Nessas condições, o surgimento de uma potência regional que não seja comparável a Israel em termos de população, geografia, civilização e peso estratégico, e que simultaneamente se oponha às suas políticas, torna-se um sério desafio.
O Irã é o único país da região que não apenas se recusou a aceitar a hegemonia de Israel, como também se negou a apoiar a formação de acordos regionais baseados na supremacia absoluta desse regime. Portanto, uma parte significativa das pressões exercidas sobre Teerã pode ser analisada no contexto dos esforços para manter o equilíbrio de poder favorecido pelos Estados Unidos e por Israel na região.
A questão não se resume apenas ao poderio militar do Irã. Talvez ainda mais importante do que sua capacidade militar, de mísseis ou econômica seja o modelo de independência política que o Irã apresentou.
As grandes potências geralmente temem mais a disseminação de um modelo do que a de um único país. Se um país consegue manter sua trajetória de desenvolvimento, progresso científico, capacidade defensiva e influência regional sem depender de potências estrangeiras, ele transmite a mensagem a outros países de que a dependência de potências dominantes não é inevitável.
Dessa perspectiva, o Irã não é meramente um ator regional; é um exemplo da possibilidade de resistência contra ampla pressão estrangeira. Esse mesmo fato torna os sucessos do Irã uma fonte de preocupação para alguns atores internacionais.
As extensas sanções econômicas impostas ao Irã também devem ser analisadas dentro dessa mesma estrutura. Ao contrário do que se alega, uma parcela significativa dessas sanções não está relacionada a uma questão específica, mas ao próprio princípio da capacidade do Irã.
A experiência tem demonstrado que, sempre que o Irã fez progressos em áreas como tecnologia nuclear, indústrias de defesa, energia, nanotecnologia, aeroespacial ou tecnologias modernas, uma nova onda de pressões também surgiu.
O principal objetivo dessas pressões tem sido limitar as capacidades do poder nacional iraniano e aumentar os custos de sua independência política. Em outras palavras, a questão não é simplesmente mudar uma política específica, mas impedir que o Irã se torne uma potência modelo na região.
Os acontecimentos dos últimos anos no mundo também aumentaram a importância do Irã. A ascensão de potências como a China, o ressurgimento do papel da Rússia, a expansão de instituições como o BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai, e o declínio relativo da concentração do poder global no Ocidente criaram novas condições.
Nesse ambiente de transição, o Irã pode se tornar um dos atores efetivos na nova ordem global. Sua posição geográfica, capacidade energética, acesso a corredores de trânsito e extensas relações com potências emergentes fortaleceram a posição do Irã nas futuras equações do cenário.
É natural que, nessas circunstâncias, os Estados Unidos tentem impedir que o Irã se torne um dos polos de influência da nova ordem, pois o fortalecimento do Irã significaria uma redução de parte da influência tradicional de Washington na região.
O confronto entre os Estados Unidos e o Irã não pode ser explicado apenas por meio de diferenças políticas cotidianas ou disputas episódicas. A raiz desse confronto reside em uma realidade mais profunda: a realidade de um país que possui uma posição geopolítica privilegiada, vastos recursos, um histórico civilizacional, capacidades humanas e a vontade política de preservar sua independência.
Na perspectiva de muitos observadores, a principal questão para os Estados Unidos não são simplesmente as políticas da República Islâmica, mas a própria existência de um Irã poderoso, independente e influente, um Irã que se recusou a ser definido dentro da estrutura da ordem preferida pelas potências dominantes e que se esforçou para seguir seu próprio caminho com base em interesses e cálculos nacionais.
É por essa razão que, quanto mais capaz o Irã se torna em diversas esferas científicas, econômicas, de defesa e regionais, mais aumentam as sensibilidades e pressões contra ele. Nesse contexto, uma parte significativa dos acontecimentos das últimas quatro décadas pode ser entendida não como uma mera divergência política, mas como um esforço contínuo para conter o poder de um país que fez da independência um dos componentes mais importantes de sua identidade e política.