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MARISE MANOEL DIZ NÃO

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 Retrato da escritora e poeta paranaense Marise Manoel sorrindo, com um leque na mão.
A poeta Marise Manoel: da natureza afável dos “sims” ao mergulho profundo na geografia do “não”.

Apresentação por Hatsuo Fukuda

Marise Manoel, que todos conhecemos por sua natureza afável e gentil – ela é um sorridente sim – resolve mergulhar na geografia do não. E ela, em sua própria voz, nos aterroriza com os nãos que assombram nossas vidas.

O não rotundo, o não enfático, o não ambíguo, o não fálico… tantos nãos a assombrar a vida da poeta, que nos faz pensar em sair correndo e abraçá-la e dizer a ela dos nossos sims. Tantos sims, querida poeta! Em cada esquina de Curitiba você encontrará um: no casal de mãos dadas esperando o ônibus na Estação Tubo, na pipoqueira pipocando no Passeio Público, no sol iluminando a imagem de Helena Kolody na Praça Generoso Marques, nos cafés onde você encontra seus amigos.
Mas ela sabe disso. E mesmo assim, seu coração generoso se obrigou a dizer não. Estou chocado. Convido-o a chorar comigo e Marise, e se emocionar com as insistências do não.
Obrigado, Marise.
O POEMA
Não Rotundo

(As insistências do não)

Marise Manoel
O não enfático, bem pronunciado, estridente.
O talhe, o tato, o não-me-toque,
afasta cangas, castigos, correntes.
O não de feição ambígua,

atravessado por insistências.

O bem-me-quer, mal-me-quer,

ouvido com fascínio e renúncia

num desaforo calculado.

O não fálico, puro visco e tardança,

dedos em riste, punhos, bocarras,

palavras brutas, palavrões.
O não cumpliciado com leitor de olhar oblíquo,

enredo convulsionado, chuva grossa mato queimando,

o sulco em nosso pescoço, a memória do não.

O não que acende na neblina,

arde nas nascentes cimentadas de Hebrom,

onde a menina sua invocação de penas,

evangelho em chamas,

seus cabelos puxados por anões.
O não sem relaxamento, viciado e violador,

e a mulher morta na Cidade do Cabo,

mil delas na África do Sul,

centenas violentadas em São Paulo,

suas crianças cobertas por aranhas deixadas na selva de Darién.

O não xamânico, curativo, luz, dança, bicho,

o olho do bicho, o coito, o não humanimal,

o não que não basta.

Pés na porta do mundo, repulsa e consentimento.

Lampejos sobre a palavra mãe: ríspida, extrema, inaugural.

O não massivo recomposto por pífios pedidos de perdão.

Não desiludido, fragmentos de não.
O não viçoso impressentido, caligrafado na face,

negação e êxtase, educado para ser um sim.

Todavia é um não.

Não rotundo flama na boca da poeta

que tem febre e frio.

  1.  
Dê o play e emocione-se com a voz e a presença da poeta Marise Manoel em “Não Rotundo“. Depois de assistir, confira a biografia completa da autora logo abaixo e conheça mais sobre sua trajetória literária e musical.
Marise Manoel é autora dos livros de poemas Galo sem Turno (1980), Perfil de Sal (1983) e Mundéus – poemas escolhidos (2022). Participou de diversas coletâneas e antologias, dentre elas a Coletânea de Poemas da Casa do Poeta do Paraná e a Antologia Feiticeiro Inventor. Colaborou ativamente nas revistas Fundação, ZéBlue e Todavia, além dos jornais de cultura Nicolau e Jornal da Biblioteca. Seu estudo sobre a sátira em Emílio de Menezes foi publicado pela editora Aos Quatro Ventos em 2002. Na música, seu poema Perfil de Sal foi musicado por Mauro Marcondes e conquistou o prestigiado 2º lugar no Festival de Música Brasileira da UNICAMP em 1988, defendido pela cantora Maria Izabel Padovani.
Entre no YouTube e busque pelo canal Marise Manoel, Poetinha para ver seus maravilhosos Poemas Falados. É emoção na veia.

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