“Eu não canto para cantar/nem por ter uma voz bonita/Canto porque o violão/ tem sentido e razão.”
(primeira estrofe, canção Manifesto, Víctor Jara)
Foi preso anteontem, no Chile, o coronel reformado do Exército, Nelson Hasse Mazzei: o último condenado que estava foragido, responsável pelo assassinato do músico Víctor Jara e no sequestro, tortura e homicídio do então diretor-geral de Prisões (durante o governo Allende), Littré Quiroga Carvajal. A condenação, de 2.024, foi de 25 anos de prisão. Também foram condenados Hugo Sánchez, Raúl Jofré, Edwin Dimter, Ernesto Bethke, Juan Jara, Hernán Chacón, Patrício Vásquez e Rolando Melo. Cácon se suicidou antes de ser preso.
Víctor Jara era referência da “Nueva Canción Chilena” e foi assassinado com requintes de crueldade, em 16 de setembro de 1973, no Estádio Chile (atualmente denominado Víctor Jara), cinco dias após o golpe de Estado e a morte de Salvador Allende. No 11 de setembro, Víctor Jara cantou pela última vez, na Universidade Técnica do Estado (UTE), onde era docente, para levantar o ânimo das quase mil pessoas que resguardavam o campus.
Preso, Víctor Jara foi separado do restante dos quase 5.000 presos e levado à área dos vestiários. Junto com Quiroga, sofreu violentas agressões corporais e também psicológicas, antes de ser assassinado.
Seu corpo apresentava 56 fraturas e 44 perfurações por bala (Quiroga, 33 tiros) quando encontrado. Víctor Jara, se tal fosse possível, foi assassinado várias vezes pelos lacaios do novo governo militar de Pinochet.
O ódio mortal estava ligado à sua intensa participação cultural, uma das principais vozes da campanha que levou Allende ao poder. “Agora que temos um governo popular, nós, trabalhadores da cultura, temos uma grande responsabilidade a cumprir”, destacou numa entrevista de 1970.
Jara foi preso no primeiro dia após o assassinato de Allende. Figura pública, ao ser reconhecido levou uma coronhada no estômago. “Tragam para cá este filho da puta!” “Então você é o Victor Jara, o cantor dessas merdas? Vou ensinar você cantar canções chilenas, não comunistas, filho da puta”, como relatado na biografia “5 minutos. La vida eterna de Víctor Jara”, escrita pelo jornalista Freddy Stock e o relato de Boris Navia Pérez, um dos sobreviventes daquele massacre.
Víctor Jara contava com 40 anos na data do seu assassinato, próximo do seu aniversário (28 de setembro). Antevendo a morte iminente e já sofrendo as primeiras fraturas nas mãos, Jara conseguiu escrever, com enorme dificuldade, a derradeira canção, intitulada “Somos 5.000”.
Os versos foram escondidos na sola do sapato de Boris. Outros dois companheiros de infortúnio fizeram cópias e repassaram a presos que iam ser libertados. Um, todavia, foi preso e lhe tomam o poema até chegar a Boris, que passa a ser torturado, a fim de contar quem mais o ocultava. “Eu sabia que cada minuto que suportasse os flagelos no meu corpo, era o tempo necessário para que o poema de Víctor atravessasse as barreiras do fascismo. E com orgulho devo dizer que os torturadores não lograram o que queriam. E uma das cópias atravessou os muros e voou à liberdade e aqui estão os versos de Victor, de seu último poema”:
Somos cinco mil | de Víctor Jara
Somos cinco mil aquí.
En esta pequeña parte de la ciudad.
Somos cinco mil.
¿Cuántos somos en total
en las ciudades y en todo el país?
Somos aquí diez mil manos
que siembran y hacen andar las fábricas.
¡Cuánta humanidad
con hambre, frío, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura!
Seis de los nuestros se perdieron
en el espacio de las estrellas.
Un muerto, un golpeado como jamás creí
se podría golpear a un ser humano.
Los otros cuatro quisieron quitarse todos los temores,
uno saltando al vacío,
otro golpeándose la cabeza contra el muro,
pero todos con la mirada fija de la muerte.
¡Qué espanto causa el rostro del fascismo!
Llevan a cabo sus planes con precisión artera sin importarles nada.
La sangre para ellos son medallas.
La matanza es acto de heroísmo.
¿Es éste el mundo que creaste, Dios mío?
¿Para esto tus siete días de asombro y trabajo?
En estas cuatro murallas sólo existe un número que no progresa.
Que lentamente querrá la muerte.
Pero de pronto me golpea la consciencia
y veo esta marea sin latido
y veo el pulso de las máquinas
y los militares mostrando su rostro de matrona lleno de dulzura.
¿Y Méjico, Cuba, y el mundo?
¡Que griten esta ignominia!
Somos diez mil manos que no producen.
¿Cuántos somos en toda la patria?
La sangre del Compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas.
Así golpeará nuestro puño nuevamente.
Canto, que mal me sales
cuando tengo que cantar espanto.
Espanto como el que vivo, como el que muero, espanto.
De verme entre tantos y tantos momentos del infinito
en que el silencio y el grito son las metas de este canto.
Lo que nunca vi, lo que he sentido y lo que siento
hará brotar el momento…
Víctor Jara sempre viverá em nossos corações!
(Fonte: Canal Abierto, BBC News Brasil, Folha de SP e outros textos. Nos comentários, o áudio de sua música talvez mais conhecida, Te Recuerdo Amanda, na voz de Joan Baez).