
As principais estimativas de crescimento do PIB para este ano – Banco Central, Mercado Financeiro e Governo Federal – prevêem expansão em torno de 2%. Entretanto, considero isto um exagero. Diante do pedido de recuperação judicial da Casas Bahia e Marabraz, no montante de R$ 17,8 bilhões, podemos nos preparar para um cenário macroeconômico pior. No total, são R$ 68 bilhões em pedidos recentes de recuperação judicial por parte de empresas varejistas brasileiras, indicando o pior cenário de crise por que temos passado há anos.
Este e o resultado das políticas monetária e fiscal de Fernando Haddad, Simone Tebet e Daniel Galípolo. Esses três sustentaram uma política econômica inviável que levaram o presidente Lula a um caminho arriscado num ano eleitoral. Somos a economia que menos cresce entre os BRICS, ou cerca de metade do que cresce a Rússia, um país em guerra há mais de três anos. Nesse mesmo grupo, possuímos certamente o maior potencial de crescimento econômico, não fosse o fato de que temos sido governados, há décadas, pela Faria Lima e a Febraban, sob pressão do Congresso retrógrado.
Os resultados das Casas Bahia, e de outras varejistas em crise são efeitos diretos das políticas monetária e fiscal ditadas pelo neoliberalismo. Muitos pensam que se trata apenas de taxa de juros. Mas é muito mais. É a política fiscal restritiva que persegue um equilíbrio impossível nas condições brasileiras, e por isso provoca um estreitamento generalizado no mercado financeiro, impossibilitando muitas empresas, pequenas e grandes, a ter acesso ao crédito. Acrescentando a isso o endividamento cumulativo das famílias por causa dos juros, impossibilitando-as de continuar comprando, é uma tempestade perfeita.
Estou certo que Lula ganhará as eleições. Não há melhor candidato do que ele. Contudo, a sociedade brasileira merece um compromisso dele de que mudará a política econômica. Ele mudou seus conceitos em relação a Vargas, reconhecendo os grandes méritos de seu antecessor na Presidência. Poderá também mudá-los em relação às políticas fiscal e monetária, desde que se livre do círculo neoliberal de ferro que o mantém atrelado aos interesses do grande capital e, especialmente, do mercado financeiro rentista, que ganha bilhões de reais no over sem fabricar um prego.
No meu entender, contudo, Lula não mudará sua política econômica sem que haja pressão e mobilização social. Do contrário, as classes dominantes continuarão impondo sua vontade ao Congresso corrupto e, através dele, à própria tecnocracia e burocracia públicas, e ao Executivo. A pior coisa que pode acontecer, e que em parte já acontece, é que as lideranças sindicais e, principalmente, as Centrais, se deixem cooptar pelo Governo, que aparentemente as representa desde as históricas greves do ABC, e percam sua identidade de classe diante do capital, que acaba controlando o Governo em nome das classes dominantes.
A essência da política numa economia capitalista, como a brasileira, são as relações de força entre capital e trabalho. Se não há equilíbrio nessas relações, um lado imporá sua vontade ao outro e, ao final, ao próprio Estado. Além disso, quando predomina a corrupção política, como é o nosso caso, a força do dinheiro comandará a política e próprio Estado. Contra isso, os trabalhadores e as classes dominadas só têm uma saída: mobilizações de massa, já que não têm dinheiro para comprar parlamentares, nem para fazer da defesa geral de seus interesses.
Entretanto, estamos a pouco mais de um mês de eleições decisivas para o Brasil. É notória a fraqueza financeira das Centrais Sindicais, e dos sindicatos de trabalhadores em geral, para financiarem candidatos que defendam, diante do poder do capital, suas pautas prioritárias. Isso não acontece por acaso. Resultou de decisão deliberada do presidente golpista Michael Temer ao acabar com o imposto sindical. Com isso ele limitou a capacidade de mobilização social e de financiamento de campanhas eleitorais pelos trabalhadores, assim como sua capacidade de arrastar atrás de si milhares de eleitores.
Diante disso, a revista Mutirão Solar online decidiu criar um esquema especial para o financiamento eleitoral de candidatos progressistas por filiados a Centrais Sindicais e Conselhos Profissionais. É simples: de sua receita líquida, 95% serão direcionados para a Aliança Social Trabalhista, uma articulação informal de 10 partidos e Centrais Sindicais de inspiração trabalhista e socialista, cujos candidatos serão indicados pelos dirigentes dos respectivos partidos (cinco de cada lado). Os 5% restantes serão destinados a pequenas despesas de campanha e de produção da própria revista, que custa pouco porque é online.
Para evitar que intrigantes considerem essa iniciativa apenas como um esquema para promover a venda da revista, é importante esclarecer que o papel da Mutirão Solar nesse processo se resume essencialmente à intermediação entre a compra de um exemplar dela, por 10 reais, por parte de um filiado a sindicato ou conselho profissional, e a destinação do grosso de sua receita líquida de venda para a Aliança Social Trabalhista. Se os dirigentes das Centrais Sindicais e dos Conselhos Profissionais induzirem seus filiados, em nome da defesa da democracia e da luta contra a extrema direita bolsonarista, a comprarem a revista, sua receita líquida de vendas poderá atingir um nível considerável, considerando o número de potenciais compradores.
Mas voltemos ao tema abordado no início deste artigo. A virtual estagnação da economia (2% de crescimento do PIB) antecipa a maior crise que a classe trabalhadora brasileira vai enfrentar a curto prazo, tendo em vista os efeitos da escalada do progresso tecnológico no mercado de trabalho. Isso não tem volta, porque empresas capitalistas concorrem entre si incorporando novas tecnologias em seus processos produtivos, o que implica desempregar trabalhadores em massa. Não dá para estimar exatamente os efeitos da introdução da automação, dos robôs e da inteligência artificial no mercado de trabalho. Mas avaliamos que não demorará muito, por causa da velocidade do processo de inovação.
A médio prazo é possível visualizar uma saída para os trabalhadores comuns vítimas do desemprego tecnológico: defendo principalmente a organização em larga escala no País de Arranjos Produtivos Locais, Territoriais e Vocacionais. Para quem ainda não está familiarizado com o conceito de Arranjos, podemos simplificá-lo como a organização, na forma de cooperativas, de trabalhadores expulsos do mercado de trabalho pela escalada do progresso tecnológico, e que têm que buscar uma alternativa de trabalho. O emprego na forma tradicional estará fora do alcance deles simplesmente pelo fato de que as empresas, pressionadas pela concorrência tecnológica, continuarão desempregando-os.
Como suspeito de que o Governo, amarrado pela burocracia, não fará a curto prazo um programa em larga escala de organização de Arranjos Produtivos no País na velocidade necessária, entendo que, para defender a indústria nacional e, principalmente, o emprego dos brasileiros, devemos criar, como saída intermediária, um Programa de Substituição de Exportações para o mercado norte-americano dos principais produtos em que somos super taxados pela política de Donald Trump: aço, alumínio e madeira. Há espaço interno para substituir o mercado dos Estados Unidos nessas áreas, com grande impacto no emprego e na produção internos, desde que não sejamos restringidos pela política monetária e fiscal internas.
Na verdade, nossa integração com a China num único programa, denominado Cinturão e Rota, centrado na produção de ferrovias, expandiria rapidamente nosso mercado interno para o aço, alumínio e madeira (janelas e esquadrias) que são supertaxados nos EUA. Além do efeito comercial externo, isso implicaria o enfrentamento de profundas deficiências no Brasil nas áreas ferroviária e habitacional, que podem deslanchar internamente com apoio chinês, já demonstrado em menor escala em outros projetos menores, e com algum tipo de subsídio interno em reais, financiado por receitas revistas do petróleo.