
Original em: https://hojepr.com/a-perereca-da-agua-verde/
João, Genésio e Bello eram daqueles amigos que pareciam ter nascido para as aventuras noturnas. Desde a pequena cidade onde moravam, costumavam organizar pescarias pelos rios e lagoas do interior do Paraná. Mas não eram pescarias comuns. Levavam no barco, além dos remos, varas e anzóis, pequenas fisgas — lanças que funcionavam como arpões — destinadas à captura de jacarés e rãs, ou das delicadas pererecas, como gostavam de chamá-las.
Numa dessas noites, saíram quando a lua cheia já derramava sobre a água uma claridade prateada. O barco deslizou silencioso até uma lagoa de águas tranquilas. O mundo parecia adormecido. À margem, as árvores desenhavam sombras compridas, e de vez em quando uma brisa fazia estremecer as folhas, espalhando pela superfície da água pequenos círculos luminosos.
João segurava o remo. Genésio cuidava do farolete, uma lanterna de mão com a qual varria lentamente as margens. Bello, atento, permanecia com a fisga pronta.
Os três conversavam em voz baixa, como se estivessem numa igreja.
— Ali! — murmurou Genésio.
Os outros dois se inclinaram imediatamente.
Era apenas um galho.
— Se continuar vendo galho como jacaré, vamos voltar com uma floresta inteira no barco — cochichou Bello.
Riram baixinho.
Depois, sentaram-se para picar fumo de corda com seus canivetes. Cada qual preparou sua palha, enrolou o fumo e acendeu o cigarro artesanal. A fumaça subiu lentamente, misturando-se à névoa fina que começava a repousar sobre a lagoa.
Havia, contudo, um assunto que os três evitavam comentar muito: onças.
Tinham ouvido histórias de animais que apareciam silenciosamente nas margens dos rios, principalmente à noite. Por isso, além das fisgas, levavam rifles. Não sabiam se algum dia precisariam deles, mas naquela região prudência nunca era considerada exagero.
E assim ficaram.
O farolete percorria a margem.
Nada. Depois, novamente: Nada.
Uma hora se passou. Duas.
Os jacarés não apareciam. As pererecas, embora numerosas, pareciam ter feito um pacto de invisibilidade.
Somente os coaxados enchiam a noite. Eram tantos que pareciam uma orquestra desafinada ensaiando para uma tempestade.
— Vai chover — disse João.
— Com esse concerto, até São Pedro já deve ter entendido — respondeu Bello.
A lua continuava enorme, branca e silenciosa, refletida na água verde da lagoa. O cenário era de uma beleza quase romântica. Quem estivesse ali sem fisga, sem rifle e sem medo de onça poderia imaginar que se encontrava num lugar encantado.
Mas os três estavam ali para trabalhar.
Passaram a noite inteira esperando.
Farolete para cá.Farolete para lá.Olhos atentos.
Fisgas prontas.E nada de jacaré.
Nada de perereca.
Nada de rã que se deixasse convencer de que aquela era uma noite apropriada para virar jantar.
Quando o céu começou a clarear, a lua perdeu seu brilho diante do primeiro azul da manhã. A neblina se desfez vagarosamente e os contornos das árvores ficaram mais nítidos. Os pássaros começaram a cantar, como se estivessem anunciando o encerramento oficial da pescaria.
Os três olharam para dentro do barco. Vazio.
Nenhum jacaré. Nenhuma rã. Nenhuma perereca.
A pescaria fora um fracasso.
Mas foi justamente naquele momento que nasceu uma conclusão que jamais esqueceriam: em noite de lua cheia, principalmente quando a água estava verde, jacarés, rãs e pererecas pareciam preferir a discrição à aventura.
João guardou a fisga.
Genésio apagou o resto do cigarro.
Bello olhou para a lagoa, agora iluminada pelo sol.
— Perdemos a noite inteira — disse.
— Não perdemos — respondeu João. — Aprendemos.
E talvez fosse essa a verdadeira pescaria.
Porque, às vezes, o rio não entrega o peixe, a lagoa não entrega o jacaré e a perereca não se deixa fisgar. Em compensação, entrega histórias.
E aquela manhã, depois de uma noite inteira sob a lua prateada, ensinou aos três amigos uma lição que o tempo não apagaria.
Se eu fosse um daqueles pescadores, jamais me esqueceria da perereca da Água Verde.
Não porque a tivesse capturado, saboreado.
Mas justamente porque, naquela noite, ela foi mais esperta do que nós. Escapou!