Home Brasil Institucionalização no século 21: o belicoso século 20. Por Pedro Augusto Pinho

Institucionalização no século 21: o belicoso século 20. Por Pedro Augusto Pinho

As guerras, disputas ideológicas e transformações territoriais que marcaram o século 20 e influenciaram a configuração política e econômica do mundo contemporâneo

0

Original em: https://monitormercantil.com.br/institucionalizacao-no-seculo-21-o-belicoso-seculo-20/

O alvorecer do século 20 é frequentemente tratado como se o mundo se circunscrevesse à Europa. Efetivamente, havia poucas nações verdadeiramente independentes fora do continente europeu. Prevaleciam as colônias europeias na África e na Ásia, além do domínio econômico e cultural exercido sobre as Américas, com exceção dos Estados Unidos da América (EUA).

Naquele início de século, a Europa era marcada por uma intensa efervescência científica, tecnológica e cultural. A eletricidade transformava as cidades; os primeiros voos de avião surgiam em 1906; o automóvel começava a aparecer nas ruas, ainda restrito aos muito ricos; e o telégrafo sem fio dava seus primeiros passos com Marconi. Ao mesmo tempo, surgiam as teorias revolucionárias de Albert Einstein, avançavam os estudos sobre a radioatividade e, em 1900, Freud publicava A Interpretação dos Sonhos.

A efervescência cultural desse período ficou conhecida como Belle Époque, marcada pela relativa prosperidade nas grandes cidades e por uma fé quase religiosa no progresso. Paris, Londres e Viena viviam um intenso boom cultural, com a expansão da Art Nouveau, o surgimento dos primeiros cinemas e cafés lotados de artistas e intelectuais.

Mas, por trás desse cenário de prosperidade e entusiasmo, também cresciam as hostilidades.

As grandes potências europeias – Alemanha, Áustria-Hungria, França, Reino Unido e Rússia – disputavam colônias e áreas de influência. O nacionalismo ganhava força, enquanto alianças militares eram formadas, criando o mesmo emaranhado de interesses e rivalidades que levaria à Primeira Grande Guerra, em 1914.

Do outro lado do Atlântico, os EUA, que haviam descoberto petróleo em seu território e souberam fazer bom uso dele, ingressavam na era dos chamados barões ladrões (robber barons) e no início dos movimentos progressistas, impulsionados pela industrialização.

Quando chega a Primaira Grande Guerra, Woodrow Wilson, 28º presidente dos EUA (1913-1921), apresenta um plano de paz que defendia a autodeterminação dos povos, a diplomacia aberta e a redução de armamentos. Ao mesmo tempo, avança no empoderamento do Estado, criando o Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, para regular a moeda, e estabelecendo leis antitrustes destinadas a controlar o poder dos grandes monopólios.


As guerras e as energias

Os EUA descobriram a importância do petróleo como fonte primária de energia e trataram, tão logo terminou a I Grande Guerra, de cartelizar sua produção e comercialização por meio do Acordo de Achnacarry (1928), considerado o berço das denominadas “Sete Irmãs”.

As empresas que compunham o grupo eram:

Do Reino Unido:

  1. British Petroleum (BP) – hoje opera sob a marca BP;
  2. Royal Dutch Shell – em associação com os Países Baixos, hoje simplesmente Shell;

Dos EUA:
3. Standard Oil Company of New Jersey – hoje ExxonMobil;
4. Standard Oil Company of New York – depois Mobil, hoje ExxonMobil;
5. Standard Oil of California – depois Socal, hoje Chevron;
6. Texas Company – depois Texaco, hoje Chevron;
7. Gulf Oil – absorvida pela Chevron.

Portanto, as “Sete Irmãs” hoje são quatro. Esse grupo chegou a controlar cerca de 85% das reservas mundiais de petróleo até a crise de 1973.

Se da Primeira Guerra (1914-1918) surge, no campo da energia, o poder do petróleo, da Segunda Grande Guerra (1939-1945) surge a energia do átomo, a energia atômica ou nuclear.

A energia do petróleo avança no campo dos fertilizantes e da petroquímica. Já a energia nuclear, quer produzida pela fissão, quer pela fusão, hoje somente obtida em laboratório pela República Popular da China, invade outros campos além da produção de energia, como a medicina e a saúde, com aplicações em radioterapia, diagnósticos mais precisos por imagem e eliminação de fungos e bactérias.

Na agricultura, é utilizada no controle de pragas e no melhoramento genético. Na engenharia e na indústria, permite a inspeção de soldas, tubulações e estruturas de aviões sem destruí-los; o controle milimétrico da espessura de papéis, chapas metálicas e fluidos em latas; e a detecção de vazamentos em oleodutos. Há ainda outros usos científicos, como a datação exata da idade de fósseis, rochas e artefatos arqueológicos, o rastreamento de águas subterrâneas e a identificação da origem de gases poluentes e metais pesados na atmosfera e nos oceanos.

Se o petróleo é encontrado em reservas desigualmente distribuídas pelo mundo, concentradas no Oriente Médio, na Rússia e em partes da América Latina e da África, a energia nuclear depende somente de decisões dos países de investir em sua obtenção e em suas aplicações. Ou seja, a energia nuclear é uma decisão ligada à soberania dos Estados Nacionais.

É nesse contexto que se insere o caso que envolve o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, cuja prisão veio a reboque da Lava Jato, com condenação a 43 anos de prisão pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, embaraço às investigações, evasão de divisas e participação em organização criminosa. O almirante Othon, cientista e militar, dedicou sua vida ao Brasil, mais especificamente ao Projeto Nuclear Brasileiro. Foi presidente da Eletronuclear e teve essa injusta condenação posteriormente revogada por instâncias superiores da Justiça.

Mas o mal já está feito. Com a denominada “redemocratização”, a energia nuclear, trazida para o Brasil pelo presidente Ernesto Geisel, foi embrulhada em supostos crimes dos governos militares e perdeu a importância que deveria ter para o reerguimento industrial e militar brasileiro. Como em tantas outras áreas, o Brasil retrocedeu na “Nova República”.

Mas podemos tirar uma lição dessa ação impatriótica do paranaense Sérgio Fernando Moro (1972), hoje senador, filiado ao Partido Liberal (PL), e que foi ministro da Justiça e Segurança Pública do governo do hoje em prisão domiciliar humanitária Jair Messias Bolsonaro. O Brasil, como tantos outros países, precisa reanalisar seu modelo institucional.


Mudanças no mapa euroasiático até 1950

As duas Grandes Guerras provocaram mudanças significativas no mapa da Europa e da Ásia, mas foram acompanhadas por guerras localizadas que também transformaram as formas de governo e colocaram o Japão no mundo bélico de então.

Cronologicamente, enumeramos a Guerra Russo-Japonesa, entre 1904 e 1905, que deu ao Japão o controle da Manchúria e da Coreia, e a Guerra dos Balcãs (1912-1913), que deixou para o Império Otomano a região da Trácia Oriental, que incluía a cidade de Constantinopla (atual Istambul) e uma faixa de terra contínua em seu entorno.

As guerras denominadas Civis, na Rússia, foram a resposta do capitalismo europeu ao socialismo soviético; e, na China, representaram a tentativa do Kuomintang de impedir a constituição da República Popular da China. A Guerra Sino-Japonesa, de 1937 a 1945, foi a tentativa japonesa de conquistar a China e acabou se fundindo com a Segunda Grande Guerra.


As guerras e seus efeitos após 1950

Enumeram-se mais de três dezenas de guerras nestes últimos 50 anos do século 20. Em boa parte, tratam-se de lutas pela independência entre facções de um mesmo país, mas prosseguem também as guerras de conquista, herança das guerras coloniais do século 19. Sendo também o século 20 um período de intensa luta ideológica, algumas dessas guerras foram resultado armado das disputas entre o capitalismo e o socialismo, em duas diversas versões, que vão do mais arraigado liberalismo aos totalitarismos da direita e da esquerda.

Temos, em ordem cronológica, os seguintes embates bélicos:

  • Guerra da Coreia (1950-1953): envolvendo os EUA e as Coreias;
  • Guerra da Indochina (1946-1954): envolvendo a França e o movimento vietnamita;
  • Revolução Húngara de 1956: quando as tropas russas esmagaram o levante popular da Hungria;
  • Crise do Suez (1956): resposta do Reino Unido, da França e de Israel à nacionalização promovida pelo Egito do canal de 193 km que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho;
  • Guerra pela Independência da Argélia (1954-1962): que levou à queda da Quarta República, na França;
  • Crise no Congo (1960-1965): quando os colonizadores belgas assassinaram Patrice Lumumba, levando à instabilidade a recém-independente república africana;
  • Conflitos fronteiriços entre a China e a Índia (1962, 1967 e 1987);
  • Guerra no Vietnã (1955-1975): provocada pelos EUA, que se aliaram ao governo do Vietnã do Sul contra o Vietnã do Norte. Este conflito, transmitido ao vivo pela televisão, provocou reações em todo o mundo e abalou a confiança nos EUA, que analistas veem estender-se até o Caso Watergate;
  • Guerra em Biafra, na Nigéria (1967-1970): crise humanitária em que cerca de dois milhões de pessoas morreram, em grande parte pela fome;
  • Guerra dos Seis Dias (1967): invasão de Israel na Península do Sinai, Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Colinas de Golã, no intuito de constituir o “Estado Judeu” proposto por Theodor Herzl, em 1897;
  • Guerra de Israel contra o Egito (1967-1970): conflitos permanentes com o mesmo objetivo da Guerra dos Seis Dias, mas sem mudanças territoriais;
  • Independência de Bangladesh (1971): entre o Paquistão Oriental e o Paquistão Ocidental, inserida nas autonomias buscadas por países ou partes deles;
  • Golpe no Chile (1973): insere-se em uma série de golpes de Estado como elementos da Guerra Fria, geralmente definida como o período entre 1947 e 1991, em que os EUA e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) lutavam por meio de correntes políticas interpostas de diversos países;
  • Guerra do Yom Kippur (1973): mais uma luta com os mesmos objetivos da Guerra dos Seis Dias. Esses confrontos vêm acrescentando novas terras ao Estado de Israel, que, em 1949, ocupava 20.770 km² e, em 2025, 29.400 km²;
  • Guerra de Libertação de Angola (1975): como em diversos países africanos, a luta pela independência foi travada entre duas facções principais, uma apoiada pela URSS e outra pelos EUA, com outros envolvidos, variando conforme o país. No caso de Angola, participaram Cuba e África do Sul. Em Moçambique (1977), a Rodésia e a África do Sul;
  • Guerra no Líbano (1975-1990): embora com forte componente religioso – cristãos, muçulmanos, drusas, católicos e judeus -, tratou-se também da internacionalização do plano expansionista do Estado de Israel;
  • Guerra de Ogaden (1977-1978): Ogaden, ou Ogadênia, é uma vasta e semiárida região localizada no leste da Etiópia, predominantemente habitada por pastores nômades de etnia somali. Esta guerra envolveu a Somália e a Etiópia, com a vitória deste último país;
  • Guerra Cambojana-Vietnamita (1978-1989): o Vietnã invadiu o Camboja para derrubar o Khmer Vermelho, conduzido pelo genocida Pol Pot, nascido Saloth Sar (1925-1998);
  • Invasão da URSS no Afeganistão (1979-1989): o Afeganistão é um país muçulmano, sunita na quase totalidade e fortemente religioso e conservador, que se molda pela sharia (lei islâmica). A URSS queria manter um governo socialista que fosse seu aliado, daí esta guerra, que enfraqueceu a própria URSS e que muitos analistas atribuem à própria dissolução da URSS, em 1991. Sem dúvida, os EUA utilizaram a Central de Inteligência Estadunidense (CIA) para fortalecer os afegãos;
  • Guerra das Malvinas (1982): as ilhas denominadas Falklands pelo Reino Unido foram invadidas pelo general Leopoldo Galtieri, então presidente da Argentina, para uma demonstração de força nacionalista. O conflito durou 74 dias e foi travado militar e midiaticamente. Rende ainda hoje, como se pode observar na derrota da Inglaterra pela Argentina na Copa do Mundo de 2026, promovida pela FIFA;
  • Conflitos na América Central (1979-1992): em El Salvador, Nicarágua e Guatemala, tendo por motivo os embates políticos da Guerra Fria;
  • Guerras Iugoslavas na década de 1990: com o fim da URSS, a Iugoslávia se fragmentou, surgindo Estados independentes – Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Sérvia, Montenegro e Kosovo. Etnias, fronteiras e diferentes conduções políticas, aliadas a interesses europeus, levaram a diversas guerras que chegaram a tipificar crimes julgados no Tribunal Penal Internacional (TPI);
  • No presente, o mundo acompanha as Guerras de Conquista do Estado de Israel e as guerras pela posse de reservas de petróleo e russofóbicas na Europa.

Como é evidente, muitas outras guerras ocorreram nesta segunda metade do século 20, mas enumeramos aquelas que julgamos mais significativas. Algumas delas nem ultrapassaram as fronteiras de seu país, mas se deveram à falta de representação popular dos governos. E não se trata apenas de ex-colônias, mas de países colonizadores cuja classe dirigente se recusou à abertura democrática, mantendo o poder restrito a uma oligarquia ou ao poder plutocrático.

Se o início do século encontrou a Europa esperançosa e festiva, seu fim foi bem diferente. Muito do que temos atualmente pode-se entender como consequência das desregulações financeiras da década de 1970 e da invasão neoliberal que assolou o mundo nas duas últimas décadas do século 20, com a vitória da especulação financeira sobre o capitalismo industrial e com interesse globalizante, dando reforço à ignorância, ao jogo e à segregação, que fazem ressurgir um novo nazifascismo com voto, como se observa na Europa e em muitas de suas antigas colônias.

No Brasil, um ignorante e misógino ex-capitão do Exército assume a liderança com cerca de um terço dos eleitores.

NO COMMENTS

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Sair da versão mobile