
Original em: https://hojepr.com/nezinho-fumaca/
Nézinho Fumaça já fora cabra de respeito.
Não era desses sujeitos que precisavam levantar a voz para serem escutados. Bastava apertar os olhos, ajeitar o chapéu de palha e ficar quieto, que até cachorro sem dono procurava outro rumo. Nos tempos antigos, lá pelas bandas do interiorzão deste Paraná, diziam que Nézinho fizera uns serviços que ninguém perguntava direito como terminavam. E ele também não contava. Homem de profissão antiga não costuma carregar currículo debaixo do braço.
Tivera, segundo suas próprias contas, muitos clientes importantes na política paranaense. Gente graúda, de terno bem passado e discurso comprido, que depois de apertar a mão de Nézinho ficava, misteriosamente, mais tranquila.
Mas isso era coisa de antigamente. Aposentara o 38 e os punhais.
Agora o homem estava velho, adoentado, tossindo mais que motor de trator velho e caminhando com a lentidão de quem precisava consultar os joelhos antes de cada passo.
Morava numa casinha de fazenda com Carminha, sua mulher, trinta anos mais nova. Carminha era catarinense, loira, bonita e tinha sido retirada por Nézinho de uma Casa de moças alegres e prestativas. Apaixonado, ele a levara para a fazenda e passara a chamá-la carinhosamente de “minha neguinha”, embora ela fosse tão loira que, quando tomava sol, parecia espiga de milho madura.
Durante vinte e cinco anos, viveram naquela casinha entre café passado no coador de pano, galinha ciscando o terreiro, chuva batendo no telhado e as pequenas guerras domésticas que fazem um casamento durar mais que muita promessa de político.
Até que um dia Carminha cansou.
Não se sabe exatamente quando começou a desgostar do marido. Talvez tenha sido quando Nézinho passou a roncar como locomotiva. Talvez quando começou a reclamar da comida. Ou, mais provavelmente, quando apareceu na fazenda o tratorista.
O homem era moço, forte e tinha uma vantagem considerável sobre Nézinho: ainda conseguia subir num trator sem precisar negociar com os joelhos.
Certa manhã, Nézinho acordou sozinho. Chamou:
— Carminha!
Silêncio.
— Minha neguinha! Nada.
Procurou no quarto, na cozinha e no terreiro. Foi então que viu um papel pregado na porta de entrada. Leu:
“Véio safado e nojento, fui embora pra sempre.” Nézinho leu umas três vezes. Depois sentou-se na soleira da porta lá fora. Ficou olhando para o bilhete como quem olha para uma sentença.
Dedéo, o cachorro, aproximou-se devagar e encostou o focinho na perna do dono. Jujú, o gato, continuou dormindo em cima de um saco de milho.
— Ocês dois vão ficá comigo, né? Dedéo abanou o rabo. Jujú removeu uma palha.
Nézinho entendeu aquilo como solidariedade.
Nos dias seguintes, a tristeza virou raiva. E a raiva virou plano.
Nézinho resolveu voltar para Curitiba. Tinha uma velha mala de couro, uma fotografia amarelada e a lembrança de antigos comparsas. Gente que, segundo ele, ainda devia favores.
— Vou pegá o ônibus — anunciou ao cachorro.
— Chego na cidade, encontro os companheiro véio de guerra e volto pro batente. Dedéo ergueu as orelhas.
— E depois vou acertá umas conta.
O cachorro ficou sério. Primeiro aquele tratorista. Dedéo abaixou as orelhas.
Jujú abriu um olho, pareceu desaprovar o plano e voltou a dormir.
Na véspera da viagem, Nézinho preparou a mala. Colocou uma camisa xadrez, uma calça de brim, dois pares de meias e o velho chapéu. Dormiu pouco.
Sonhou que estava novamente no auge da carreira, andando pelas ruas de Curitiba, cercado pelos antigos comparsas. No sonho, todos o recebiam de braços abertos. Acordou sorrindo. Levantou-se da cama. No dia seguinte, foi até o ponto do ônibus.
Levava a mala numa mão e o orgulho ferido na outra. E o 38 cheio de munições. Quando o ônibus apareceu na estrada, levantou o braço. O motorista reduziu. Nezinho deu um passo para a frente. Depois outro. Parou.
Olhou para a escada do ônibus.
— Ô, motorista! — gritou. Esse ônibus sobe Curitiba?
— Sobe! E desce? Também!
Nézinho pensou um pouco.
— Então deixa pra próxima.
O ônibus foi embora levantando poeira.
Nézinho ficou parado no acostamento.
Depois olhou para a mala e soltou um suspiro.
Naquele instante, compreendeu que talvez o mundo tivesse mudado mais depressa do que ele. Os antigos comparsas provavelmente estavam aposentados. Alguns podiam até ter virado avôs respeitáveis. A política já não era a mesma. E ficou ali, olhando a estrada. Lá longe, um trator levantava uma nuvem de poeira.
Nézinho apertou os olhos. Por um instante, a velha valentia voltou. Pegou a mala, voltou devagar para a casinha e preparou um café.
Naquela tarde, pela primeira vez em muitos anos, Nézinho Fumaça percebeu que talvez sua última grande batalha não fosse contra Carminha, nem contra o tratorista, nem contra os fantasmas do passado. Era contra o tempo. E esse, danado de ser, nunca perdeu uma briga.
Quanto à vingança? Bem…
— Valentia é uma coisa. Juízo é outra. E, na minha idade, meu fio, até a coragem precisa de descanso. E jogou, o 38 no Poço de Água!