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DO BRASIL AO CHILE: A contribuição dos exilados brasileiros para a construção da Via Chilena ao Socialismo

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O golpe de 1964 não destruiu apenas uma experiência política brasileira. Produziu também uma diáspora intelectual, política e militante que espalhou pelo continente uma geração de brasileiros obrigados a transformar o exílio em espaço de reflexão, organização e construção de alternativas para a América Latina.

O Chile de Salvador Allende seria um dos principais destinos dessa geração. Entre universidades, centros de pesquisa, organizações políticas, movimentos populares e espaços de formulação econômica e social, brasileiros exilados passaram a participar intensamente da vida intelectual e política chilena. Não chegaram como um grupo homogêneo, tampouco carregavam uma única concepção de socialismo. Eram homens e mulheres formados por experiências distintas, atravessados pelas derrotas brasileiras, pelas lutas latino-americanas e pela necessidade de compreender as estruturas profundas que submetiam nossos países à dependência.

Foi nesse encontro entre o exílio brasileiro e a experiência chilena que se produziu uma das mais importantes circulações de ideias políticas da América Latina no século XX.

O golpe de 1964 funcionou, nesse sentido, como uma advertência histórica. O Brasil havia experimentado um ciclo de reformas, nacionalismo econômico, mobilização popular e disputa em torno do desenvolvimento. O golpe demonstrou que o imperialismo não aceitaria passivamente determinadas transformações econômicas e sociais. Para muitos dos brasileiros que chegaram ao Chile, a pergunta fundamental deixou de ser apenas como conquistar o poder político. Era preciso compreender quais forças econômicas, políticas, militares, nacionais e internacionais poderiam bloquear ou destruir um processo de transformação.

O exílio transformou essa pergunta em investigação.

No Chile, uma parte decisiva dessa geração encontrou espaço no Centro de Estudios Socioeconómicos, o CESO, da Universidade do Chile. Ali se reuniram intelectuais brasileiros e latino-americanos que estavam produzindo uma interpretação radicalmente nova da realidade do continente. Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra e Ruy Mauro Marini, ao lado de André Gunder Frank e outros pesquisadores, ajudaram a consolidar aquilo que posteriormente seria conhecido como Teoria Marxista da Dependência.

A importância dessa corrente ultrapassava o debate acadêmico.

Sua questão central era política: por que países formalmente independentes permaneciam submetidos a estruturas econômicas que limitavam sua soberania e condicionavam suas possibilidades de desenvolvimento?

A resposta colocava em xeque a ideia de que todas as sociedades percorreriam necessariamente o mesmo caminho histórico seguido pelas nações industrializadas. A dependência não era compreendida simplesmente como atraso. Era uma estrutura produzida pela própria forma como o capitalismo internacional havia organizado as relações entre centro e periferia.

Essa interpretação encontrou um terreno particularmente fértil no Chile de Allende.

Quando a Unidade Popular chegou ao governo em 1970, o país buscava construir uma experiência inédita: avançar em direção ao socialismo utilizando as instituições democráticas, a participação popular e a soberania nacional como instrumentos de transformação. A nacionalização do cobre, a ampliação da área estatal da economia, a reforma agrária, a expansão dos direitos sociais e a democratização da educação faziam parte de um projeto que procurava alterar não apenas a distribuição da riqueza, mas a própria estrutura de poder da sociedade chilena.

A experiência brasileira no exílio dialogava profundamente com esse processo.

Theotonio dos Santos aproximou-se do Partido Socialista chileno e participou diretamente do ambiente político e intelectual da Unidade Popular. Estudos posteriores sobre sua trajetória demonstram a importância de sua presença nos debates do período e a influência que a teoria da dependência exerceu sobre a formulação programática da Unidade Popular.

Vânia Bambirra também desempenhou papel fundamental nesse ambiente intelectual. Sua reflexão sobre a dependência procurava demonstrar que a soberania nacional não poderia ser reduzida à existência formal de um Estado independente. Uma nação somente poderia ser efetivamente soberana se tivesse condições de controlar suas estruturas econômicas fundamentais e superar as formas de dominação associadas ao capital estrangeiro e aos monopólios.

Ruy Mauro Marini, por sua vez, levou ao Chile uma reflexão ainda mais radical sobre a natureza do capitalismo dependente. Sua trajetória no CESO e sua aproximação com setores revolucionários chilenos do MIR contribuíram para transformar o Chile em um dos principais centros latino-americanos de elaboração da teoria da dependência.

A presença desses intelectuais brasileiros produziu algo maior do que uma simples transferência de conhecimentos acadêmicos. O exílio criou uma espécie de laboratório latino-americano no qual experiências nacionais diferentes começaram a ser comparadas, confrontadas e reinterpretadas.

O Brasil de 1964, a Revolução Cubana, o processo peruano, as experiências nacional-populares, as lutas camponesas, o movimento operário e a própria realidade chilena passaram a ser compreendidos como partes de uma mesma questão continental: como construir sociedades soberanas em países submetidos historicamente à dependência econômica e à pressão das grandes potências?

É nesse contexto que a experiência chilena ganha uma dimensão extraordinária.

A Unidade Popular não pretendia simplesmente repetir Cuba. Tampouco pretendia reproduzir experiências europeias. Tratava-se de buscar uma via própria, adequada às condições históricas do Chile: uma transformação socialista articulada à democracia, ao pluralismo político, à organização popular e às instituições existentes.

Essa singularidade também chamou a atenção de Darcy Ribeiro.

Darcy não foi apenas um observador distante da experiência chilena. Durante seu exílio, esteve profundamente envolvido com a vida intelectual do país e atuou como assessor de Salvador Allende. Participou de debates sobre educação, universidade, desenvolvimento e transformação social, mantendo contato com intelectuais e dirigentes envolvidos na construção do novo projeto chileno.

Sua presença ajudou a incorporar ao debate chileno uma preocupação que atravessava toda a sua obra: a construção de uma sociedade nacional capaz de desenvolver plenamente suas potencialidades humanas.

Para Darcy, desenvolvimento não poderia significar simplesmente crescimento econômico. Era necessário formar cidadãos, democratizar o conhecimento, transformar a universidade e construir uma educação vinculada às necessidades concretas de uma sociedade em transformação.

A experiência chilena também dialogava com outra contribuição brasileira fundamental: a de Paulo Freire.

Embora sua presença no Chile fosse anterior ao governo Allende, sua pedagogia havia deixado marcas profundas na educação popular chilena. A alfabetização, a educação de adultos e a valorização da experiência concreta dos trabalhadores e das comunidades haviam encontrado no Chile um terreno fértil para se desenvolver.

A ideia de que educação não deveria ser apenas transmissão de conhecimento, mas instrumento de conscientização e participação social, aproximava-se das grandes questões colocadas pela Unidade Popular: como transformar uma sociedade sem transformar também a consciência daqueles que deveriam protagonizar essa transformação?

Assim, a educação aparecia como parte da própria construção política.

Não bastava nacionalizar empresas. Era necessário formar uma população capaz de compreender o significado da soberania econômica.

Não bastava realizar reformas. Era necessário criar sujeitos sociais capazes de defendê-las.

Não bastava ocupar o Estado. Era necessário construir participação popular suficiente para sustentar um processo de transformação diante das forças que procurariam interrompê-lo.

Também nesse ambiente esteve Maria da Conceição Tavares, cuja trajetória intelectual ligada ao desenvolvimento latino-americano a levou ao Chile e posteriormente à assessoria econômica do governo da Unidade Popular. Sua presença integrava uma rede mais ampla de economistas e intelectuais brasileiros que pensavam os problemas do desenvolvimento, da industrialização, da dependência e da soberania econômica.

A experiência chilena tornou-se, portanto, um ponto de encontro de diferentes vertentes do pensamento latino-americano.

Ali estavam socialistas, comunistas, democratas, revolucionários, economistas, sociólogos, educadores e intelectuais provenientes de diferentes tradições. Não havia consenso absoluto entre eles. Pelo contrário: havia disputas profundas sobre o ritmo da transformação, a relação entre Estado e movimento popular, a estratégia econômica, a questão militar e o papel das instituições democráticas.

Mas havia uma questão que atravessava grande parte daquele universo: a necessidade de construir uma alternativa à dependência.

É justamente por isso que a experiência da Unidade Popular não pode ser compreendida apenas como um episódio da história chilena.

Ela foi também um momento privilegiado da história intelectual e política da América Latina.

O Chile tornou-se uma espécie de encruzilhada continental. Brasileiros exilados encontraram ali argentinos, uruguaios, bolivianos, peruanos, mexicanos, cubanos, chilenos e intelectuais de diversas partes do mundo. As fronteiras nacionais continuavam existindo, mas as perguntas políticas já eram continentais.

Como construir soberania?

Como controlar os recursos estratégicos?

Como superar a dependência?

Como democratizar a riqueza?

Como transformar a educação?

Como combinar socialismo e democracia?

Como impedir que as forças econômicas derrotadas utilizassem seu poder para destruir, por dentro ou por fora, um processo de transformação?

Essas perguntas continuam atuais.

O golpe de 11 de setembro de 1973 interrompeu violentamente aquela experiência. O bombardeio do Palácio de La Moneda não significou apenas a derrubada de um governo. Representou a destruição de uma experiência histórica que procurava demonstrar que a transformação social poderia encontrar uma via própria, democrática e latino-americana.

A ditadura de Pinochet perseguiu, prendeu, matou e expulsou milhares de pessoas. Muitos dos brasileiros que haviam encontrado no Chile uma pátria provisória tiveram novamente de enfrentar o exílio.

Mas as ideias produzidas naquele período não desapareceram.

A Teoria da Dependência atravessou fronteiras. A experiência educacional chilena deixou marcas. Os debates sobre soberania econômica continuaram. A memória da Unidade Popular permaneceu como referência para gerações posteriores de latino-americanos.

Por isso, olhar para a relação entre os exilados brasileiros e o Chile de Allende significa afirmar que a Via Chilena ao Socialismo foi uma experiência essencialmente chilena, construída por sua classe trabalhadora, seus movimentos populares, seus partidos, seus intelectuais e sua sociedade.

Mas também não é possível ignorar a contribuição daqueles brasileiros que, expulsos de seu próprio país, encontraram no Chile a possibilidade de continuar pensando e lutando.

Para os exilados, nesse sentido, o processo chileno transformou-se paradoxalmente em uma forma de internacionalização da experiência brasileira.

A derrota de 1964 atravessou a fronteira e encontrou outras lutas.

O pensamento produzido no Brasil encontrou o Chile.

O Chile devolveu ao continente novas perguntas.

E, durante alguns anos, Santiago tornou-se um dos grandes centros de elaboração de um pensamento latino-americano que recusava a ideia de que nossos povos estavam condenados à dependência.

Talvez esteja aí uma das maiores lições daquele período.

As derrotas nacionais não necessariamente produzir silêncio. Também produziam conhecimento, organização e consciência histórica.

Os brasileiros expulsos pela ditadura levaram consigo a memória de uma experiência interrompida. No Chile, essa memória encontrou outras experiências e se transformou em pensamento.

E o pensamento, quando atravessa fronteiras, pode transformar uma derrota nacional em patrimônio de todo um continente.

A Via Chilena ao Socialismo terminou tragicamente em 1973. Mas as perguntas que ela colocou continuam abertas.

Afinal, a questão central nunca foi apenas qual caminho o Chile deveria seguir.

A questão era — e continua sendo — se os povos latino-americanos podem construir democracias socialmente justas, economicamente soberanas e capazes de decidir seu futuro.

Essa pergunta atravessou o Brasil, chegou ao Chile e permanece esperando uma resposta na história da América Latina.

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