Home Brasil Ligações e coligações. Por Rubens Gennaro

Ligações e coligações. Por Rubens Gennaro

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Original em: https://hojepr.com/ligacoes-e-coligacoes/

Desde que o homem resolveu olhar para dentro da matéria, descobriu que o Universo não era feito de coisas simplesmente soltas por aí. Havia ligações.

A Química começou a organizar essa confusão quando, no século XIX, Dmitri Mendeleev colocou os elementos conhecidos numa tabela que se tornaria a famosa Tabela Periódica. Ali estavam hidrogênio, oxigênio, carbono, ferro, hélio e tantos outros, cada qual com seu número atômico, seus prótons, seus elétrons e suas manias particulares.

O próton, com sua carga positiva, mora no núcleo. O elétron, negativo e ligeiro, fica por perto, como quem não quer nada, mas participa de quase tudo. E o nêutron, mais discreto, ajuda a manter a família reunida.

O carbono, então, é um sujeito de muitas amizades. Seus átomos conseguem formar ligações entre si, construindo cadeias e estruturas extraordinariamente complexas. Graças a essas ligações, temos desde moléculas simples até a imensa variedade da química orgânica que sustenta a vida.

Na natureza, as ligações químicas fazem coisas ainda mais interessantes. Algumas reações absorvem energia: são endotérmicas. Outras liberam energia: são exotérmicas. Umas puxam calor para dentro; outras devolvem calor ao ambiente.

E não é só no laboratório que isso acontece.

Olhemos para o céu.

Nas estrelas, elementos como o hidrogênio e o hélio participam de processos nucleares que liberam enormes quantidades de energia. No interior das estrelas, matéria e energia vivem numa espécie de baile cósmico. Mais tarde, elementos como o oxigênio, o carbono e outros podem ser produzidos em diferentes estágios da evolução estelar e espalhados pelo espaço.

E nós, aqui embaixo, bebemos água formada por hidrogênio e oxigênio. A água dos rios corre para o mar; o mar devolve vapor à atmosfera; a atmosfera devolve chuva aos rios. Tudo ligado.

Nas nebulosas interestelares, imensas nuvens de gás e poeira ficam vagando pelo espaço, enquanto novas estrelas podem nascer. O Universo, ao que parece, nunca gostou muito da ideia de cada um ficar sozinho.

Até aqui, tudo funciona admiravelmente bem.

Então alguém teve a ideia de inventar a política.

No Brasil, descobriu-se que os partidos também gostam de ligações. Só que, em vez de elétrons, prótons e nêutrons, temos presidentes, governadores, senadores, deputados, prefeitos, vereadores e dirigentes partidários.

A Química chama de ligação aquilo que mantém átomos unidos.

A política chama de aliança aquilo que mantém partidos unidos — pelo menos até a próxima convenção.

Existem as federações partidárias, que têm caráter mais duradouro e devem atuar conjuntamente por pelo menos quatro anos. Já as coligações, atualmente, são permitidas nas eleições majoritárias — presidente, governador, senador e prefeito — e têm natureza essencialmente eleitoral, terminando depois do pleito.

É aí que começa a parte divertida. Na Química, dois elementos verificam suas propriedades antes de formar uma ligação. Na política, dois partidos podem fazer coisa parecida:

— Qual é o seu programa?— Depende.
— E o seu?
— Também depende.
— Então podemos conversar.

E conversam. Conversam tanto que, às vezes, o eleitor precisa de uma Tabela Periódica para descobrir quem está ligado a quem.

Na química, uma ligação mal calculada pode provocar uma reação exotérmica.

Na política, uma coligação mal calculada pode provocar uma reação… eleitoral.

Há ainda uma diferença interessante. Na Química, quando duas substâncias reagem, alguém sabe, mais ou menos, o que pode acontecer.Na política, nem sempre.

Um partido anuncia:

— Somos absolutamente independentes!

No dia seguinte aparece abraçado com outro:

— É uma aproximação programática.

Nesse momento, até Mendeleev pediria um café..

Na Química, uma molécula estável depende de forças que mantenham seus átomos unidos. Na política, a estabilidade da molécula partidária depende de algo ainda mais misterioso: o cálculo eleitoral.

E o cálculo eleitoral brasileiro é uma criatura de muitos números.Há quem diga que entende perfeitamente. Essas pessoas geralmente explicam tudo durante duas horas e terminam dizendo:

— É muito simples.

Nesse instante, o cidadão olha para o céu e pensa nas nebulosas.Talvez seja melhor voltar para a Astronomia..

No Universo, as estrelas continuam brilhando.

As nebulosas continuam formando estrelas.

E os partidos continuam fazendo alianças.

A diferença é que as estrelas não precisam de horário eleitoral para explicar por que estão juntas.

Talvez seja por isso que brilham tanto.

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