
Deputado Federal, prefeito, governador três vezes e também por três vezes senador pelo Paraná, Roberto Requião acumula em sua carreira política um conjunto de vitórias dificilmente compatível com a recente derrota para deputado federal pelo seu Estado. Seu discurso não mudou em sua carreira. O que mudo foi o País. Requião tornou-se incompatível com a patifaria que hoje domina a República, começando pelo risco de que eleitores ingênuos e manipulados levem ao Planalto um miliciano reconhecido publicamente como tal pelo Estadão, o jornal mais conservador do País.
Nesta entrevista, o ex-Senador confessa seu inconformismo com a postura de setores ditos de esquerda que abandonaram a linha nacional desenvolvimentista de Vargas para se tornarem sócios de bandidos que literalmente venderam o Brasil por ninharia para grandes grupos nacionais e estrangeiros no programa de privatização. “E não se trata de apenas de discutir a corrupção que esteve por detrás desse processo. O pior é que estamos destruindo a infraestrutura econômica criada por Vargas, sem por absolutamente nada no lugar. Por isso, sou pela reestatização”, argumenta. Adiante, segue a entrevista:
- P. O que acha que dificulta a vitória de Lula no segundo turno?
- R. Acho que ele vai ganhar, mas, se não ganhar, é porque descolou suas práticas – embora não seu discurso – dos interesses reais do povo, que basicamente são casa e comida. O povo não quer saber de desenvolvimento industrial ou inteligência artificial. Quer saber se terá dinheiro no fim do mês para pagar suas despesas de mercado. Inteligência artificial é discurso para a elite e a classe dominante. Seu avanço rápido, por sinal, gera uma contradição: quanto mais a indústria incorpora tecnologia em seu processo produtivo, mais crescem o desemprego e subemprego, que se somam ao nosso desemprego, subemprego e desalento endêmicos.
- P. No início de seu atual mandato, Lula fez declarações públicas contundentes contra o nível da taxa básica de juros (Selic), desagradando especialmente a Faria Lima e a Febraban. De repente parou de criticar. O que acha que aconteceu?
- R. Aconteceu a submissão do Governo à política econômica neoliberal, defendida pelos barões da Febraban, sustentada pelos economistas que os servem – incluindo seu círculo de assessores, chefiado por Fernando Haddad – e respaldada pela maioria do Congresso que está a favor deles. Aliás, enquanto a relação de forças entre povo e tecnocracia pública cooptada pela classe dominante não se alterar, não há como alterar essa política. Candidatos que dizem que vão baixar a taxa de juros na marra não sabem o que estão falando. É impossível fazê-lo sem conciliar política de juros com política de câmbio.
- Como assim?
- R. Se você baixar drasticamente a Selic sem mexer no câmbio, haverá uma sangria de nossas reservas internacionais para o exterior, na medida em que trilhões de reais em aplicações financeiras de curtíssimo prazo (over) nos nossos bancos são garantidos por nossas reservas internacionais, e migrarão de volta ao exterior.
- Então, não existe nenhuma forma na economia brasileira para baixar os juros significativamente?
- R. Existe sim. Devemos fazer como Juscelino fez em sua época, estabelecendo duas taxas de câmbio. Uma, para investimentos de capital, que não têm liquidez imediata, e outra, livre, para especulação, com variação até mesmo diária, como é o caso dos depósitos bancários no over. Com isso, se houver uma ameaça de sangria com o rebaixamento Selic, ela ocorrerá apenas na parte especulativa das aplicações externas. Depois de um período de adaptação, o sistema financeiro voltará ao normal.
- Qual é sua avaliação sobre a política fiscal que vem sendo aplicada no Brasil há décadas, principalmente depois dos governos de Fernando Henrique Cardoso?
- Tanto a política fiscal quanto a monetária estão baseadas no que os neoliberais chamam e recomendam, desde o início dos anos 80, de tripé macroeconômico: aperto monetário e fiscal para controlar a demanda e estabilizar a inflação e câmbio flutuante para atrair investimentos estrangeiros. É um contracenso. O principal efeito de políticas fiscais e monetárias restritivas é a queda do investimento produtivo e do PIB, o que nos torna pouco atraentes para inversões de capital, embora não para a especulação financeira e o rentismo.
A consequência disso é que a taxa de crescimento do PIB se arrasta há décadas em torno de 2% ao ano, sendo, entre os países do BRICS, superior apenas à da África do Sul, sabidamente um País extremamente pobre. Para o Brasil, crescer a altas taxas é um imperativo, tendo em vista as imensas demandas sociais que vimos acumulando endemicamente, notadamente em termos de alto desemprego, a que se soma agora o desemprego provocado pelo progresso acelerado da tecnologia. Sob o comando do tripé macroeconômico, o País jamais encontrará saída para suas mazelas sociais.
- Que acha da inflação, está controlada?
- Primeiramente, é preciso eliminar dois fetiches. Primeiro, que a inflação brasileira pode ser enfrentada por uma taxa de juros alta (Selic), que controlaria a demanda e a alta dos preços. Segundo, que o aumento do déficit fiscal a níveis muito elevados também geraria alta dos preços, provocando aumento da demanda e da inflação. O fato real é que não há prova científica efetiva de que, no Brasil, exista uma relação entre aumento ou queda dos juros e inflação.
É que somos uma economia onde há múltiplos monopólios e oligopólio, entre eles os do próprio setor público – como energia elétrica, derivados de petróleo, gás e outros serviços controlados pelos governos ou mesmo privados. Ou seja, não somos uma economia concorrencial. Assim, o aumento da taxa de juros não recai uniformemente sobre a economia, mas primeiro sobre grandes empresas com capacidade repassar seus custos e preços aos consumidores. Numa palavra, não havendo concorrência efetiva, o aumento dos juros e o controle do déficit não afetam uniformemente o conjunto da economia.
Algo parecido ocorre com a política fiscal. Como qualquer economista principiante sabe, desde que não seja neoliberal, déficit público é demanda, que arrasta consigo a demanda privada. Ou seja, quando o Governo constrói uma ponte, ele compra cimento, aço e serviços ao setor privado. Somando-se déficit público e demanda privada, a demanda total pressiona a economia a produzir mais. Entretanto, se não houver oferta suficiente de financiamentos para investimentos a juros e condições financeiras favoráveis, o empresário migra do setor produtivo para o setor especulativo, onde nada produz e se torna um rentista ocioso.
- Finalmente, dê uma palavra final de ânimo para o País depois da arrasadora vitória da direita e da extrema direita nas eleições para o Congresso.
- Não se entreguem, como não vou me entregar. Caso se lembrem, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei inominável, que o povo chamou de PEC da Blindagem, para proteger parlamentares suspeitos de crimes da investigação pela Polícia Federal. O projeto infame passou na Câmara, mas era tão grotesco que o Senado, por unanimidade, o barrou na Comissão de Constituição e Justiça. Mas não foi por livre iniciativa. Foi diante de uma grande mobilização popular contra o projeto, envolvendo especialmente jovens. Ou seja, a formação de direita e extrema direita do Congresso não nos impede de fazer política. A política acabará saindo dos porões corruptos do Parlamento para se manifestar em grandes mobilizações nas ruas.
* Editor Chefe da revista online Mutirão Solar.