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REQUIÃO CONVOCA O POVO PARA AS RUAS. Entrevista com J. Carlos de Assis

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Deputado Federal, prefeito, governador três vezes e também por três vezes senador pelo Paraná, Roberto Requião acumula em sua carreira política um conjunto de vitórias dificilmente compatível com a recente derrota para deputado federal pelo seu Estado. Seu discurso não mudou em sua carreira. O que mudo foi o País. Requião tornou-se incompatível com a patifaria que hoje domina a República, começando pelo risco de que eleitores ingênuos e manipulados levem ao Planalto um miliciano reconhecido publicamente como tal pelo Estadão, o jornal mais conservador do País.

Nesta entrevista, o ex-Senador confessa seu inconformismo com a postura de setores ditos de esquerda que abandonaram a linha nacional desenvolvimentista de Vargas para se tornarem sócios de bandidos que literalmente venderam o Brasil por ninharia  para grandes grupos nacionais e estrangeiros  no programa de privatização. “E não se trata de apenas de discutir a corrupção  que esteve por detrás desse processo. O pior é que estamos destruindo a infraestrutura econômica criada por Vargas, sem por absolutamente nada  no lugar. Por isso, sou pela reestatização”, argumenta. Adiante, segue a entrevista:

  1. P. O que acha que dificulta a vitória de Lula no segundo turno?
  2. R. Acho que ele vai ganhar, mas, se não ganhar, é porque descolou suas práticas – embora não seu discurso – dos interesses reais do povo, que basicamente são casa e comida. O povo não quer saber de desenvolvimento industrial ou inteligência artificial. Quer saber se terá dinheiro no fim do mês para pagar suas despesas de mercado. Inteligência artificial é discurso para a elite e a classe dominante. Seu avanço rápido, por sinal, gera uma contradição: quanto mais a indústria incorpora tecnologia em seu processo produtivo, mais crescem o desemprego e subemprego, que se somam ao nosso desemprego, subemprego e desalento endêmicos.
  3. P. No início de seu atual mandato, Lula fez declarações públicas contundentes contra o nível da taxa básica de juros (Selic), desagradando especialmente a Faria Lima e a Febraban. De repente parou de criticar. O que acha que aconteceu?
  4. R. Aconteceu a submissão do Governo à política econômica neoliberal, defendida pelos barões da Febraban, sustentada pelos economistas que os servem – incluindo seu círculo de assessores, chefiado por Fernando Haddad – e respaldada pela maioria do Congresso que está a favor deles. Aliás, enquanto a relação de forças entre povo e tecnocracia pública cooptada pela classe dominante não se alterar, não há como alterar essa política. Candidatos que dizem que vão baixar a taxa  de juros na marra não sabem o que estão falando. É impossível fazê-lo sem conciliar política de juros com política de câmbio.
  5. Como assim?
  6. R. Se você baixar drasticamente a Selic sem mexer no câmbio, haverá uma sangria de nossas reservas internacionais para o exterior, na medida em que trilhões de reais em aplicações financeiras de curtíssimo prazo (over) nos nossos bancos são garantidos por nossas reservas internacionais, e migrarão de volta ao exterior.
  7. Então, não existe nenhuma forma na economia brasileira para baixar os juros significativamente?
  8. R. Existe sim. Devemos fazer como Juscelino fez em sua época, estabelecendo duas taxas de câmbio. Uma, para investimentos de capital, que não têm liquidez imediata, e outra, livre, para especulação, com variação até mesmo diária, como é o caso dos depósitos bancários no over. Com isso, se houver uma ameaça de sangria com o rebaixamento Selic, ela ocorrerá apenas na parte especulativa das aplicações externas. Depois de um período de adaptação, o sistema financeiro voltará ao normal.
  9. Qual é sua avaliação sobre a política fiscal que vem sendo aplicada no Brasil há décadas, principalmente depois dos governos de Fernando Henrique Cardoso?
  10. Tanto a política fiscal quanto a monetária estão baseadas no que os neoliberais chamam e recomendam, desde o início dos anos 80, de tripé macroeconômico: aperto monetário e fiscal para controlar a demanda e estabilizar  a inflação e câmbio flutuante para atrair investimentos estrangeiros. É um contracenso. O principal efeito de políticas fiscais  e monetárias restritivas é a queda do investimento produtivo e do PIB, o que nos torna pouco atraentes para inversões de capital, embora não para a  especulação financeira e o rentismo.

A consequência disso é que a taxa de crescimento do PIB se arrasta há décadas em torno de 2% ao ano, sendo, entre os países do  BRICS, superior apenas à da África do Sul, sabidamente um País extremamente pobre. Para o Brasil, crescer a altas taxas é um imperativo, tendo em vista as imensas demandas sociais que vimos acumulando endemicamente, notadamente em termos de alto desemprego, a que se soma agora o desemprego provocado pelo progresso acelerado da tecnologia. Sob o comando do tripé macroeconômico, o País jamais encontrará saída para suas mazelas sociais.

  1. Que acha da inflação, está controlada?
  2. Primeiramente, é preciso eliminar dois fetiches. Primeiro, que a inflação brasileira pode ser enfrentada por uma taxa de juros alta (Selic), que controlaria a demanda e a alta dos preços. Segundo, que o aumento do déficit fiscal a níveis muito elevados também geraria alta dos preços, provocando aumento da demanda e da inflação. O fato real é que não há prova científica efetiva de que, no Brasil, exista uma relação entre aumento ou queda dos juros e inflação.

É que somos uma economia onde há múltiplos monopólios e oligopólio, entre eles os do próprio setor público – como  energia elétrica, derivados de petróleo, gás e outros serviços controlados pelos governos ou mesmo privados. Ou seja, não somos uma economia concorrencial. Assim, o aumento da taxa de juros não recai uniformemente sobre a economia, mas primeiro sobre grandes empresas com capacidade repassar seus custos e preços aos consumidores. Numa palavra, não havendo concorrência efetiva, o aumento dos juros e o controle do déficit não afetam uniformemente o conjunto da economia.

Algo parecido ocorre com a política fiscal. Como qualquer economista principiante sabe, desde que não seja neoliberal, déficit público é demanda, que arrasta consigo a demanda privada. Ou seja, quando o Governo constrói uma ponte, ele compra cimento, aço e serviços ao setor privado. Somando-se déficit público e demanda privada, a demanda total pressiona a economia a produzir mais. Entretanto, se não houver oferta suficiente de financiamentos para investimentos a juros e condições financeiras favoráveis, o empresário migra do setor produtivo para o setor especulativo, onde nada produz e se torna um rentista ocioso.

  1. Finalmente, dê uma palavra final de ânimo para o País depois da arrasadora vitória da direita e da extrema direita nas eleições para o Congresso.
  2. Não se entreguem,  como não vou me entregar. Caso se  lembrem, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei inominável, que o povo chamou de PEC da Blindagem, para proteger parlamentares suspeitos de crimes da investigação pela Polícia Federal. O projeto infame passou na Câmara, mas era tão grotesco que o Senado, por unanimidade, o barrou na Comissão de Constituição e Justiça. Mas não foi por livre iniciativa. Foi diante de uma grande mobilização popular contra  o projeto, envolvendo especialmente jovens. Ou seja, a formação de direita e extrema direita do Congresso não nos impede de fazer política. A política acabará saindo dos porões corruptos do Parlamento para se manifestar em grandes mobilizações nas ruas.

* Editor Chefe da revista online Mutirão Solar.

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