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O jogo da distração

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O Brasil é um país onde se discute muito a política em sua forma mais novelesca e ruidosa, às vezes até com requintes de baixaria, como visto no último debate, mas pouco o funcionamento do poder na prática. A distinção é importante. Discutir política, entre nós, tornou-se frequentemente um exercício de indignação seletiva, geralmente com dia e hora marcados no calendário para atingir o ápice e depois perder o fôlego.

Um jogo de empurra de quem é mais íntimo de banqueiro preso, uma controvérsia religiosa ou uma provocação nas redes sociais podem mobilizar o país durante dias. Já os mecanismos que determinam o custo e a eficiência da nossa infraestrutura, o estágio do desenvolvimento tecnológico, a distribuição dos recursos públicos, o combate efetivo a privilégios institucionais e outras questões primordiais do Estado brasileiro raramente despertam entusiasmo semelhante.

A esquerda e a direita têm divergências reais, algumas profundas, isso não se pode negar. Mas descobriram, cada uma à sua maneira, que é possível disputar intensamente a superestrutura sem necessariamente perturbar a estrutura econômica. A vantagem desse arranjo é que a disputa pode ser interminável sem que os assuntos mais inconvenientes precisem entrar em campo.

Talvez isso se explique, em parte, pelo fato de que, desde a Revolução Francesa, a política parece ter “ocupado o lugar da graça divina” como promessa de redenção do mundo. A salvação, antes assunto de Deus, passou a ser também uma responsabilidade dos homens e de seus projetos políticos.

A mudança trouxe alguns inconvenientes. O adversário virou pecador, o líder político ganhou ares de messias e cada grupo passou a acreditar que o mundo seria um lugar melhor se os outros simplesmente deixassem de existir politicamente. Não se trata de negar a importância das divergências ideológicas, mas de reconhecer que a política adquiriu, em certas circunstâncias, uma vocação religiosa pouco compatível com o debate.

E, como toda religião precisa de seus hereges, tornou-se mais interessante denunciar os pecados da oposição do que examinar os interesses econômicos que sobrevivem, com notável saúde, a todas as alternâncias de poder.

Há exceções, naturalmente. O debate sobre o fim da escala 6×1 é uma delas.

Pela primeira vez em muito tempo, uma questão diretamente relacionada à organização do trabalho conseguiu ocupar espaço relevante no debate público. Trata-se de uma controvérsia legítima, que envolve qualidade de vida, produtividade, custos e distribuição dos ganhos econômicos. O fato de uma pauta dessa natureza parecer uma exceção já diz bastante sobre a qualidade do que foi o debate esse ano.

Mas o problema não parece exatamente a ausência de projetos políticos com diferenças reais entre si: eles existem. É a extraordinária capacidade de certos interesses econômicos sobreviverem a todos eles. Mudam os presidentes, os ministros, os discursos e as prioridades anunciadas, mas o lobby, digo o hobby é o mesmo.

Os grandes grupos empresariais, representados por figuras como Walfrido dos Mares Guia, Joesley Batista, Rubens Ometto e os Setúbal, por sua vez, demonstram uma admirável flexibilidade ideológica. São liberais quando defendem a redução de impostos, desenvolvimentistas quando precisam de financiamento subsidiado e defensores da intervenção estatal quando ela lhes assegura uma reserva de mercado.

Não há contradição. Sua orientação política é determinada, antes de tudo, pela rentabilidade e pela proteção de sua posição. Basta observar a desenvoltura com que transitam entre governos adversários, participam de concessões, negociam incentivos fiscais e preservam acesso aos centros de decisão.

Na política brasileira, a divisão de tarefas costuma funcionar muito bem: uns disputam a razão, outros disputam o orçamento. Os primeiros fazem barulho. Os segundos fazem dinheiro e você não os vê no reels.

O setor elétrico é bom exemplo. Temos uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, favorecida por rios, ventos e sol abundante. Ainda assim, a conta de luz chega todo mês com a leveza de uma facada nas costas.

A explicação mais provável aponta para um emaranhado de impostos, encargos, subsídios e contratos blindados que vão caducar quando nossos netos se aposentarem. A Lei nº 15.269/2025 veio com carimbo de “modernização”, mas garantiu usinas a carvão até 2040. Em pleno século XXI, assinamos contrato de fidelidade com o século XIX. Tudo em nome da “segurança do abastecimento”, esse álibi perfeito para validar qualquer absurdo econômico.

Afinal, quando o assunto é tarifa de energia no Brasil, o horizonte é sempre âmbar. Quer dizer, dourado.

E esse é apenas um dos componentes do chamado Custo Brasil, expressão que, de tão repetida, corre o risco de perder seu conteúdo. O país transporta tudo de caminhão por estradas esburacadas, quase ignora os trilhos e opera com juros de agiota, insegurança jurídica e uma burocracia cuja única função por vezes parece ser justificar a própria existência.

Isso se soma ao déficit crônico de saneamento básico, uma negligência silenciosa que não só atravanca o desenvolvimento econômico como compromete a saúde, a educação e a produtividade da população. Segundo dados do Instituto Trata Brasil, divulgados em 2025 e referentes a 2023, cerca de 34 milhões de brasileiros (16,9% da população) viviam sem acesso à rede de abastecimento de água, e mais de 90 milhões (44,8%) não tinham coleta de esgoto.

No Norte, o quadro era ainda pior: cerca de 6,4 milhões de pessoas (39,2% da população regional) estavam sem acesso à rede de água, e 13,8 milhões (84,7%) sem coleta de esgoto.

Alguém comentou isso no último debate ou você viu isso na sua timeline nas últimas semanas?

Os cartórios também andam discretos. Deve ser o respeito ao silêncio da repartição. Em tempos de Pix e assinatura digital, certas rotinas continuam exigindo uma romaria de registros, certidões e emolumentos. Uma transação imobiliária, por exemplo, pode exigir escritura pública, recolhimento de tributos e registro, com despesas que se acumulam sobre o valor de aquisição do imóvel. Só os titulares dos cartórios lucraram R$ 10,7 bilhões em 2024, segundo o Portal de Economia do José Roberto Afonso.

Em tese, a tecnologia deveria permitir simplificação e ganhos de eficiência, aliados a ganhos de segurança jurídica. No Brasil, entretanto, a modernização de um procedimento nem sempre implica a revisão das cobranças associadas a ele. Na prática, o cidadão deixa de enfrentar uma fila apenas para descobrir que agora pode pagar pela mesma burocracia sem sair de casa.

Ainda no terreno dos imóveis, programas como o Minha Casa, Minha Vida e políticas de incentivo à Habitação de Interesse Social (HIS), em São Paulo, nasceram com a proposta quase subversiva de dar teto a quem não tem. O problema é que, no mundo, e no Brasil não seria diferente, ter um imóvel é simultaneamente uma necessidade humana básica e uma oportunidade imperdível de investimento.

Logo surgiram os subsídios que viraram aluguel de temporada, como os do Airbnb. Não é a regra, claro. É apenas o nosso alinhamento com o mundo desenvolvido, porém para o que não presta: o Estado entra com a função social e o mercado descobre o modelo de negócio.

Da habitação à previdência, muda o setor, mas a resistência de certos privilégios oferece outro exemplo. Ao longo das últimas décadas, governos de diferentes orientações promoveram reformas justificadas pela necessidade de conter despesas e preservar o equilíbrio fiscal.

No entanto, determinadas regras especiais resistiram às mudanças. No caso das pensões militares, a mudança de regime em 2001 restringiu o pensionamento das filhas para novos ingressantes, mas permitiu aos militares abrangidos pela regra de transição preservar benefícios anteriores mediante contribuição adicional de 1,5%.

Militares que optaram por essa contribuição puderam preservar, para suas filhas, condições de pensionamento previstas no regime anterior, benefício que, ao menos, não se estende aos novos ingressantes nas mesmas condições.

Diante disso, cabe perguntar por que a discussão sobre sustentabilidade fiscal costuma se concentrar em determinadas categorias, enquanto outras conseguem conservar tratamentos diferenciados durante décadas. A responsabilidade fiscal é uma exigência legítima. Sua aplicação seletiva, porém, compromete a credibilidade do próprio argumento.

Rever essas estruturas já é outra história. Quando o assunto é reforma administrativa ou política, a disposição para mudanças costuma diminuir. Projetos são apresentados com grandes ambições, submetidos a negociações intermináveis e, quando finalmente chegam à votação, frequentemente já não conservam parte significativa de seu conteúdo original.

A proposta de reforma administrativa apresentada em 2020, a PEC 32, é um bom retrato dessa dificuldade. Depois de sucessivas discussões, negociações e alterações, terminou sem aprovação pelo Congresso. É verdade que a democracia exige negociação e que nem toda mudança no texto original constitui uma concessão indevida.

O curioso é que certas matérias parecem destinadas a envelhecer nas comissões, enquanto outras descobrem, subitamente, a urgência. A diferença nem sempre está na relevância do assunto, mas na capacidade de pressão dos interessados. Não surpreende, portanto, que medidas de grande impacto fiscal possam avançar rapidamente, sobretudo quando servem de instrumento de pressão nas disputas entre Executivo e Legislativo.

São as chamadas pautas-bomba, cuja oportunidade política frequentemente importa tanto quanto seu conteúdo. Há também as votações noturnas, os textos modificados na última hora e as deliberações realizadas quando a atenção pública está voltada para alguma eliminação do Big Brother, o Carnaval ou a trajetória de algum herói improvável da Copa do Mundo que as pessoas esquecerão na semana seguinte.

Enquanto isso, as redes sociais trataram de aperfeiçoar o circo. Uma briga ideológica alimentada por desinformação faz o país parar, como a “controvérsia da suposta taxação do pix”, em janeiro do ano passado. Antigamente, para ser mal-informado, o sujeito precisava comprar o jornal e ler com bastante desatenção. Hoje, a ignorância vem entregue em domicílio, personalizada pelo algoritmo.

Uma mesma decisão judicial salva a democracia às dez da manhã e instala o fascismo às dez e cinco, a depender de qual página você está atualizando no celular. A imprensa tradicional perdeu o monopólio da narrativa. O que não significa que fosse dona da verdade; apenas vendia a edição do dia com maior cuidado e revisão.

Esquerda e direita têm lá suas divergências reais, claro. O fascinante é a atual capacidade que ambas possuem de transformar dilemas históricos em bate-boca de botequim. Conversas vagas sobre direitos irrestritos, identitarismo e pautas dos costumes monopolizam o debate; já o destino dos recursos do orçamento aprovado pelo Congresso Nacional, às vésperas do Natal, nem tanto.

Agora, deve-se reconhecer que o insulto, a baixaria e ‘mitada’ nos stories têm uma grande vantagem competitiva sobre os demais assuntos: não exigem uma abordagem muito técnica e nem uma grande digestão da leitura. Por outro lado, os tópicos que citei, aos quais poderia acrescentar outros, como a questão da reforma tributária, a fuga de cérebros por falta de fomento à pesquisa científica, a bomba-relógio da previdência etc., soam como assuntos difíceis, enfadonhos e distantes, ainda que se manifestem no nosso dia a dia, mas sem o terno e a gravata.

Não vou fingir que assisto a tudo isso com distância. Também já cobrei explicações dos adversários e aceitei desculpas dos meus preferidos. Tenho minhas posições, e elas pesam no que escolho criticar e no que demoro a perceber. Porém, independentemente de quem ganhe, fica o compromisso de fiscalizar também quando a política passa despercebida. Ou seja, quase o tempo todo. E fica o convite ao leitor para fazer o mesmo, inclusive quando o distraído for eu.

Afinal, o problema não está necessariamente no que dizem, mas naquilo que, embora saibam que é crucial, mencionam apenas vagamente nos planos de campanha e deixam de debater profundamente. Enquanto a plateia acompanha o confronto, pouca atenção é dedicada às mãos que movimentam os personagens e, principalmente, aos interesses que financiam e condicionam o funcionamento do palco.

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