O erro eleitoral que quase tirou Lula da Presidência já no primeiro turno demanda reflexão diante dos fatos, de forma isenta e ética. Sem sinceridade e diálogo aberto na esquerda, não resta humanidade para salvar. E, se tudo acaba em mero cancelamento, isso significa uma rasgadura no tecido social, em detrimento da Ágora (a praça pública), ou seja, contra a democracia.
Segue um reflexão eleitoral vinda do materialismo histórico e dialético para o partido de massas que se iniciou na esquerda e migrou ao centro liberal, e para a militância do meio identitario e cultural.
A campanha de Lula em 2026 expôs uma contradição clássica da comunicação política. Confundir capacidade de mobilização com capacidade de convencimento é um erro tão elementar que chega a surpreender quando cometido por profissionais que vivem de comunicar.
A presença de artistas consagrados, manifestações culturais, bloquinhos de carnaval e redes de militância (fomentadas supostamente pelo MinC, segundo denúncias na imprensa) produziu imagens, entusiasmo e repercussão, mas não necessariamente votos.
Na teoria das relações públicas, visibilidade não equivale a reputação, assim como engajamento não significa adesão. Uma campanha pode dominar as redes sociais e continuar perdendo a conversa (o poder da narrativa) na fila do posto de saúde ou, pior, perder votos até na fila do pão.
A questão remete a Gramsci e à disputa pela hegemonia, na qual intelectuais e artistas desempenham papel importante na formação do senso comum. Entretanto, reconhecer a influência dos intelectuais não significa supor que o público seja uma plateia obediente. O contrário ocorre quando as referências não são intelectuais que carregam a representação da razão, mas, cada vez mais, influencers adotados como lideranças de alguma força efêmera, que mal consegue argumentar, restando discursos de ódio mútuo entre identitários e fanáticos de ambos os lados, culpados pelo clima de polarização social.
Artistas podem ajudar a organizar valores e identidades, mas não possuem procuração para transferir seus públicos como eleitores ao candidato que apoiam. A militância parece ter confundido prestígio cultural com capital eleitoral, como se o aplauso de uma celebridade pudesse quitar a conta de água, reduzir o preço dos alimentos ou melhorar a segurança pública.
O eleitor, infelizmente para os marqueteiros, não aceita pagamento em autógrafos, não frequenta espetáculos, não é beneficiado pela Lei Rouanet, mas se pergunta onde estão os serviços básicos.
O erro da campanha ao se basear na cultura e na defesa de temas que trazem uma agenda negativa ao governo não passou despercebido após o primeiro turno. O resultado pode ser considerado catastrófico e impensável, pois o uso excessivo das redes sociais para promover a cultura, em vez de abordar temas voltados aos serviços básicos, gerou repulsa, resultando na virada relâmpago do candidato da extrema direita, que obteve nove pontos, ou seja, mais de 20% de crescimento acima do previsto nas pesquisas eleitorais na reta final do primeiro turno.
A crítica de J. Schumpeter à concepção idealizada do eleitor oferece outra chave de interpretação. Na democracia competitiva, cidadãos decidem sob limitações de informação, atenção e interesse, recorrendo frequentemente a atalhos cognitivos e avaliações práticas. Isso não os torna incapazes, mas tampouco os transforma em analistas permanentes de políticas públicas. O eleitor não compra a pauta imposta pela propaganda, pois tem suas próprias demandas. O eleitor sabe o que quer, mas não sabe, porém sente.
Para quem enfrenta serviços precários, a discussão sobre financiamento cultural pode parecer distante, sobretudo quando apresentada como prioridade eleitoral. O problema não é a cultura, mas a incapacidade de explicar sua relação concreta com a vida cotidiana. Ainda que a temática da cultura nos seja cara, a realidade dura é que a agenda política setorial, aos olhos da população, gera repulsa, e artistas não trazem votos. Estão falando para a bolha.
É nesse ponto que a crítica de um cientista político que tratou do MinC (este autor) revela que a narrativa da demonização versus santificação da Lei Rouanet ajuda a compreender o paradoxo. Ao transformar um mecanismo de incentivo cultural ( de orogem liberal econômica) em símbolo genérico de privilégio, o debate público simplifica uma política complexa e alimenta a percepção de que o Estado financia artistas enquanto negligencia necessidades básicas. Essa associação pode ser injusta em casos específicos, mas, politicamente, é poderosa e precisa ser entendida para o bem do realismo.
Quando a defesa da cultura se limita a celebridades, editais e verbas (com números de propaganda fantasiosos), sem demonstrar resultados sociais, a militância entrega de bandeja à oposição o argumento de que existe uma agenda corporativa e de uma elite protegida, enquanto o povo sente amargura, sem saber que a crise é mundial, marcada pela virada de Era e sujeita a gigantescas transformações e convulsões sociais.
Ouvimos discursos dos chefes dessa campanha paralela, baseada na cultura (com fomento público irregular segundo a imprensa), que reclamam que a população não compreende a importância da arte. Que o povo é fascista e odeia cultura. Será?
Convenientemente, esquecem-se de perguntar – quem falhou na comunicação ou se estamos vendendo o que eles querem e precisam?
As denúncias publicadas pelo portal Claudio Dantas (canal bolsonarista), em 2 de outubro, com base no dossiê de 3.552 páginas, feito pelo jornalista Rodrigo Juste Duarte, que apontou em detalhes os repasses do Ministério da Cultura e as relações entre estruturas financiadas pelo poder público e agentes dos movimentos de cultura, agravaram esse problema. Segundo a reportagem, um dossiê encaminhado aos órgãos de controle questiona contratos, vínculos organizacionais e possíveis usos eleitorais dessas estruturas, que se relacionam com ONGs, universidades públicas e o Ministério da Cultura. A gravidade do caso é confirmada diante do pedido de cassação de chapa Lula-Alckmin por Flávio Bolsonaro por abuso de poder econômico com recursos do MinC, supostamente desviados para financiar campanhas eleitorais.
As acusações exigem apuração e não equivalem a culpa comprovada. Ainda assim, a sobreposição de funções, recursos e eventos públicos de cultura utilizados na campanhas eleitoral quando confirmada, compromete a confiança pública e oferece combustível à suspeita de aparelhamento. Não trago isso aqui como concordância com a imprensa, ou desvios em pesquisas e apontamentos do jornalismo, mas para pensar na agenda negativa que tudo isso gera diante dos eleitores. Aliás, agenda negativa alertada anteriormente ao envio atabalhoado de tais dossiês para as autoridades, ao não medirem as consequências alertadas.
A controvérsia também evidencia um princípio elementar da comunicação pública: políticas estatais precisam ser transparentes e não podem parecer uma extensão da propaganda partidária. E, quando isso se aflora exageradamente, o efeito diante dos eleitores é contrário.
A reação jurídica aos eventos artísticos e as críticas internas, inclusive de Washington Quaquá, que questionou a capacidade desses atos de conquistar novos votos, revelaram o desgaste da estratégia. A cúpula de crise da campanha percebeu o erro e, segundo os relatos apresentados, orientou a redução da centralidade da cultura na comunicação eleitoral. A correção tardia expôs a dificuldade de uma militância que, depois de investir na própria narrativa, insistiu nela mesmo diante dos sinais de saturação. O espetáculo no Rio de Janeiro, com grandes estrelas, lotou Copacabana, pregando aos eleitores, sem, no entanto, atingir ou meramente dialogar com aqueles que não votaram no presidente Lula.
O episódio ensina que hegemonia não se decreta, reputação não se improvisa e eleitorado não é extensão de grupo de WhatsApp ou de seguidores nas redes sociais. Likes não significam necessariamente votos, como as pesquisas revelaram.
A cultura pode ampliar horizontes, fortalecer vínculos sociais e democratizar oportunidades. Mas, convertida em vitrine partidária, perde parte de sua legitimidade e passa a ser percebida como privilégio. O paradoxo da campanha até aqui foi defender uma política universal baseada na alegria e na cultura por meio de símbolos identificados com um segmento específico, sem capacidade real de atender aos anseios da população. Em vez de construir pontes, ergueu um palco, e todo espaço cênico está acima, iluminado, mas isolado da população que fica na plateia e nem sempre está gostando das dancinhas da primeira dama. E descobriu, tarde demais, que nem todo mundo que escuta a música compra o ingresso para o espetáculo eleitoral.
Marx, na obra clássica O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, faz comparações entre a política e o palco. Na análise, a forma e o funcionamento dos espetáculos são comparados aos atos políticos, com relatos das revoltas ocorridas entre 1848 e 1851 na França, que terminaram com a vitória do candidato Bonaparte (de onde vem o termo bonapartismo), Napoleão Bonaparte III, que ganhou as eleições com o apoio do lumpemproletariado e, após vencer o pleito, deu um golpe de Estado, ficando 17 anos no poder.
Este comparativo entre arte e política, entre literatura e jornalismo, a partir de um fato do passado, cabe perfeitamente ao presente do Brasil.
As massas são violentas, e os discursos intelectuais e as apresentações baseadas no pão e circo têm limitações e não resistem no médio e longo prazo sem ações efetivas em favor dos interesses populares.
Outro episódio famoso sobre erros de comunicação política e o efeito limitado do pão e circo ocorreu também na França, quando Maria Antonieta, ao tomar conhecimento da crise popular por falta de pão, pediu ao povo que comesse brioches. Acabou na guilhotina.
Juvenal, na Sátira X, cunhou o termo Panem et Circenses ao criticar as massas. Na Roma Antiga, onde festivais com gladiadores e sacrifícios públicos chegaram ao ápice com Otávio Augusto (27 a.C. a 14 d.C.), a estratégia deu certo ao aplacar as massas. Mas ele deu pão além do circo.
Ainda que Vespasiano e Tito tenham explorado a estratégia, ela foi levada ao extremo com a criação do Coliseu pelo imperador Cômodo, que, em vez de governar, entrou para a história pelos gastos gigantescos com jogos contínuos, que se tornaram espetáculos de carnificina. Historiadores apontam que seu governo foi um ponto de virada catastrófico do Império Romano. Cômodo levou a política de pão e circo a um extremo fanático e ridículo, que destruiu a dignidade da imagem do império e acelerou sua desestabilização. Cômodo confiscou bens para pagar dívidas, negligenciou completamente as contas públicas e o exército, culminando na queda violenta do imperador em 193 d.C.
Na história, a estratégia de governo do “pão e circo” ficou ridicularizada e retorna como crítica aos governantes de tempos em tempos, em diferentes nações e regimes de governo.
A campanha eleitoral baseada na cultura assemelha-se à mesma estratégia. Sem resultados econômicos nem melhora objetiva na vida do cidadão comum, adotou-se a estratégia da propaganda da alegria, da arte e da cultura. Valorizar a política cultural não encontra equivalência na narrativa da cultura como estratégia política.
Porém, o uso da cultura, ou da parte do circo, sem o pão, pode não ter convencido a população.
Do outro lado, o candidato da extrema direita adota os mitos, trajes, nomes, discursos e tradições do passado, como Napoleão Bonaparte III, usando a inocência e o desespero das massas.
O governo Lula enfrenta uma crise global causada por questões ambientais, guerras, pós-pandemia, guerra fiscal provocada pelos EUA, avanço do fim do mundo do trabalho formal, liberalismo, economia de plataformas, big techs, avanço da robótica e inteligência artificial. Uma revolução maior do que qualquer outra ocorrida na humanidade em outros tempos. Esse enfrentamento não foi realista, sendo omisso em planos de contenção real da crise. A revolta apresenta-se no voto, quando o candidato farsante da extrema direita capitaliza a revolta popular.
São tempos de revoltas. E presenciamos, após os últimos anos de crises, o início de ondas de protestos violentos na França, que se espalham pelo mundo em outubro de 2026. Como no Maio de 1968, essas revoltas tendem a crescer e se espalhar nos próximos anos, pois os governos não estão freando o capital, que cria condições para a eliminação da ampla maioria das profissões, substituindo-as pelas máquinas e pela IA. Os resultados em escala global são previsíveis. Quando as massas não encontram pão, mas somente o circo, a revolta é inevitável. E, em tempos de convulsão social, falsos messias e salvadores da pátria aparecem de forma oportunista.
Como disse Marx em O 18 de Brumário:
“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. […] Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
A derrota em escala nacional nas câmaras estaduais, na Câmara Federal e no Senado pelo governo do PT, e os acordos para tentar governar, caso vença a eleição majoritária, revelam a falha da estratégia do circo. A provável vitória da extrema direita na Presidência mostra como o povo pode aderir a ideias de moral e tradição como solução em tempos de recessão, ressentimento e ódio social. Mal sabem as massas que estão diante da desgraça e da provável instalação de um regime autoritário.
São previsíveis as catástrofes causadas pelos grandes agentes da história (remetendo a Hegel). E, como disse o editorial da Boitempo, que usou o mito de Cassandra para a autocrítica da esquerda diante de seus erros eleitorais, sabemos que a maldição da personagem presente no mito consiste em dizer a verdade, que ninguém quer ouvir. E, independentemente do resultado das eleições, a democracia e a civilização estão perdendo espaço para regimes políticos que a história registra como erros históricos, com graves consequências para as nações em diferentes tempos e nações.