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As Riquezas Estratégicas do Brasil e o Desafio de Transformá-las em Instrumentos de Desenvolvimento Nacional. Por Ricardo Guerra

O Brasil Não Pode Mais Continuar Exportando Riqueza, Importando Dependência e Perdendo Soberania

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Em um mundo marcado pela disputa entre grandes potências pelo domínio de tecnologias, energia, minerais estratégicos e cadeias produtivas, possuir riquezas naturais nunca foi suficiente para assegurar autonomia econômica a um país.

Para garantir soberania econômica, é preciso desenvolver capacidade própria para transformar riquezas e recursos naturais em produtos de maior valor agregado, conhecimento científico, inovação, empregos qualificados e desenvolvimento industrial. Algo ainda muito distante da realidade brasileira.

Esse é um dos grandes desafios históricos do desenvolvimento nacional: superar a condição de fornecedor de matérias-primas e conquistar capacidade própria de industrialização, domínio tecnológico e geração de riqueza.

O Brasil possui petróleo, terras raras, nióbio, lítio, grafite, minério de ferro, biodiversidade e enorme potencial energético. Entretanto, ainda não domina plenamente as tecnologias e as etapas industriais responsáveis pela transformação dessas riquezas em produtos de maior valor econômico, mantendo uma dependência que vai muito além da exploração mineral.

A transformação energética e tecnológica ampliou a importância estratégica de minerais como terras raras, lítio, grafite e níquel, fundamentais para cadeias industriais que envolvem, entre outras coisas, baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.

Isso significa que, além de controlar suas jazidas, o Brasil precisa investir intensamente no domínio das tecnologias de separação, refino, processamento e fabricação de componentes industriais.

Historicamente, a economia brasileira apresenta forte participação de produtos primários em suas exportações. E o fato de exportar minério e importar componentes tecnológicos produzidos a partir desse mesmo minério evidencia uma das maiores contradições do nosso modelo de desenvolvimento: possuímos os recursos, mas ainda dependemos de outros países para agregar grande parte de valor econômico a esses recursos.

O problema, portanto, não está simplesmente em exportar matérias-primas, mas em nossa limitada participação nas etapas mais sofisticadas da produção industrial e tecnológica.

Nenhum país conquista autonomia tecnológica apenas comprando máquinas e importando equipamentos. Faz-se necessário, para isso, desenvolver universidades, centros de pesquisa, engenharia nacional, formação profissional e empresas capazes de criar e produzir tecnologias.

Mais do que processar minerais, o Brasil precisa desenvolver capacidade para fabricar baterias, componentes eletrônicos, equipamentos industriais e produtos finais que utilizem essas matérias-primas. O mesmo vale para semicondutores, inteligência artificial, telecomunicações, biotecnologia, equipamentos médicos e indústria de defesa.

Enfim, a dependência de fornecedores estrangeiros em setores essenciais cria vulnerabilidades econômicas e estratégicas, especialmente diante de conflitos internacionais, restrições comerciais e interrupções nas cadeias de abastecimento. E pensar em autonomia tecnológica significa promover segurança econômica e capacidade nacional de decisão.

Ou seja, além da capacidade de produzir, o Brasil precisa ter o domínio do conhecimento científico e das tecnologias que sustentam a produção composta por cadeias complexas. Isso exige investimentos elevados, assim como planejamento e articulação entre Estado, iniciativa privada, universidades e instituições de financiamento.

Para se ter uma ideia do potencial brasileiro nesse setor, estimativas do Serviço Geológico do Brasil apontam mais de 20 milhões de toneladas de terras raras no país — podendo chegar a aproximadamente 25% das reservas mundiais:

  • Entretanto, apesar de possuir essas riquezas, o Brasil não domina as suas respectivas cadeias produtivas;
  • Mas algumas iniciativas importantes estão sendo tomadas.

Em setembro de 2026, o Brasil instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, por meio da Lei nº 15.506, prevendo incentivos à pesquisa, ao desenvolvimento tecnológico e à industrialização desses recursos: entre as medidas está a autorização para participação da União de até R$ dois bilhões no Fundo Garantidor da Atividade Mineral.

Essas iniciativas são importantes, mas o simples fato da existência de uma legislação não significa que seus objetivos tenham sido alcançados:

  • Sua implementação, transparência, fiscalização e capacidade de gerar resultados industriais concretos serão fundamentais;
  • O Estado precisa exercer seu papel de planejador e indutor do desenvolvimento, articulando investimentos, estabelecendo prioridades tecnológicas e assegurando que os benefícios econômicos atendam ao interesse público.

E tem mais, a disputa econômica e tecnológica entre Estados Unidos e China acrescenta outra dimensão ao problema:

  • Ambas as potências possuem interesses estratégicos nas cadeias de minerais críticos, energia, semicondutores, inteligência artificial e infraestrutura industrial;
  • E, nesse cenário, o Brasil precisa diversificar suas parcerias internacionais, ampliar oportunidades de financiamento e transferência de tecnologia e, sobretudo, preservar sua autonomia de decisão.

A questão, aqui, não é escolher antecipadamente uma potência em detrimento de outra, mas assegurar que as relações internacionais sejam instrumentos de desenvolvimento brasileiro, e não mecanismos de subordinação econômica e tecnológica. Sendo fundamental compreender, também, que atrair investimentos estrangeiros não significa entregar o controle estratégico das nossas riquezas.

O Brasil precisa estabelecer condições para que esses investimentos contribuam efetivamente para a formação de empresas nacionais, através da transferência de tecnologia:

  • Contemplando o desenvolvimento de fornecedores locais;
  • A geração de empregos qualificados;
  • E a ampliação da capacidade industrial instalada no país.

Em síntese, é preciso assegurar que o país participe efetivamente dos resultados econômicos e tecnológicos de sua exploração:

  • Repensar o modelo de desenvolvimento econômico que pretende construir;
  • E assim viabilizar a ampliação de sua participação nas etapas industriais e tecnológicas de maior valor agregado e transformar suas riquezas em desenvolvimento duradouro.

Isso significa fortalecer as empresas brasileiras e fornecedores locais:

  • Desenvolvendo ciência, pesquisa e inovação;
  • Formando trabalhadores e profissionais qualificados;
  • Estabelecendo parcerias internacionais com transferência efetiva de conhecimento;
  • Conciliando exploração econômica, proteção ambiental e direitos das comunidades envolvidas;
  • E assim assegurar que os resultados econômicos desse processo contribuam para o desenvolvimento regional e nacional.

A verdadeira dimensão da riqueza de um país não está apenas no que existe debaixo de seu solo: a história econômica brasileira já demonstrou que possuir riquezas naturais não garante, por si só, industrialização, autonomia tecnológica ou melhoria das condições de vida da população.

O Brasil não pode perder outra oportunidade de alavancar de vez seu desenvolvimento e afirmar definitivamente sua soberania. Chegou a hora de decidir qual lugar o país pretende ocupar na economia mundial do Século XXI:

  • Se continuará concentrando sua participação no fornecimento de matérias-primas;
  • Ou se ampliará sua capacidade de produzir, industrializar, inovar e participar das decisões que determinam seu próprio futuro.

Não se trata de fechar nossa economia ao mundo ou afastar investimentos estrangeiros — muito pelo contrário. Mas, sim, de estabelecer condições para que a participação brasileira na economia mundial produza benefícios efetivos para o próprio país: as riquezas do Brasil precisam deixar de representar apenas oportunidades de negócios para outros países e se transformar em instrumentos de emancipação econômica, soberania nacional e prosperidade para o povo brasileiro.

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