– Cultura –
Cultura e democracia são conceitos que acreditávamos inoxidáveis, no entanto, já conseguimos ver as manchas opacas a olho nu.
A evolução veloz da inteligência artificial, capaz de reconhecer padrões em uma gigantesca base de dados e produzir músicas e textos emotivos, esculturas precisas, áudios visuais realísticos, entre tanto mais, nos empurra com urgência, pra reorganização das definições sobre consciência, coesão da coletividade e reforço da identidade do nosso país.
É verdade que quando olhamos através da curva do tempo, constatamos desde sempre, a fluidez esperta das manifestações culturais desviando das armadilhas nefastas do destino. Manobras vêm sendo feitas há tempo suficiente, com tal requinte camaleônico que, chocando com o suingue ‘malandro’ do nosso povo, vemos (ou queremos acreditar) uma sólida resistência.
Para os adoradores do tema é inescapável, como toda análise atual, um retorno contextual. Mais precisamente, no último quarto do século XIX arrastado depois da nossa ‘pretendida’ independência, até começo do século XX, num cenário mundial de pós-guerra faminto em vários níveis. Nesse recorte, já podemos sentir o magma nacionalista se debatendo na jovem geração crítica e de vanguarda que, esgotada pelo conformismo cultural totalmente importado daquela sociedade, se fascinou pelos movimentos modernistas disruptivos que aconteciam em outros cantos. E nessa busca ávida por um ‘basta de chupim’, nos inseriu na sedutora cena mundial, através da Semana de Arte Moderna em 1922.
Daquela orgia antropofágica intelectual, e em meio a alguns narizes torcidos, a receita acabou se esparramando com temperos aqui|ali, ao gosto da territorialidade e forjou nossa robusta estrutura cultural.
Quem se deliciou, ao som virtuoso de Villa-Lobos, com as promessas futuristas em contraponto às tradições, com genialidade multifacetada de Di Cavalcanti, com os traços expressionistas de Anita, os cubistas de Tarsila e Vicente, os concretos de Moya, como também com as leituras satíricas, poéticas, humoradas com temas decolonizadores (sim, essa palavra de modinha recente, já estava posta naquela época) dos Andrade e de Menotti, e que se rebelou nas libertas de academicismos, jamais se acomodaria.
Precisamente em 1928, depois de alguns anos de muita fervura e ‘lubrificação’ nas rodas intelecto-absintheanas, veio enfim, a lume de um Manifesto (leia-o na íntegra aqui). Um necessário comprometimento definitivo, atrevido e lúcido, onde o ‘Tupi or not Tupi’ gestado, florificou em dobraduras que pudemos ver também nos movimentos Pau Brasil, Verde-amarelismo e Anta. E a turma de caiçaras vorazes só saciou ao conseguir arrebentar a maioria dos elos do DNAzados daqueles povos até então fartamente consumidos.
Deram o basta!
NOSSO moderno pôs-se à mesa!
Nos ofereceram! ‘Experimentem!’
Nos mostraram! ‘Li – ber – tem – se!’
Artes, literatura, filos, enfim liquidificados com tal força avassaladora, produziram um caldo ufanista incopiável que, atingindo o auge nos dourados anos 50, chega agora ao seu centenário, ainda muito prazeroso.
E aqui estamos, no chamado premente e sem utopia do nosso movimento, que é pensarmos juntos sobre o que restará do nosso prato cultural original depois dessa mistura contemporânea com a inevitável I.A.
– O fastio, o tédio ou até mesmo, aversão à nova fórmula?
– As migalhas recebidas de novo, dos antigos canibalizados além das fronteiras?
– Um confortável digestivo ralo macerado pelas contingências desesperançadas da realidade, sem sabor criativo?
– Ou estaremos todos num eterno esperar pela receita pronta?
Não!
Não cabe pessimismo como possa parecer o ritmo desse último parágrafo.
Conhecemos bem nossos paladares, tempos de preparo, e o melhor, muitos de nós continuamos fartos da enjoativa cognição ultramar e seguimos, produzindo como nunca, ainda deslumbrando, (e, porquê não acreditar) influenciando os gostos externos.
É fato que atualmente a cadeira está desconfortável e quase nos expulsando da mesa de um cenário nebuloso, mas nos resta teimar, se acomodar por direito, abrir o velho caderno de receita, dominar as novas técnicas e externar como queremos nosso segundo centenário ‘neoabaporu’ conectado com o Paraíso Brasil.
Estão todos convidados para mais uma semana – opa, semana é pouco! – para mais uma temporada de resgate culturesco de NÓS, afinal como é de conhecimento, o resistente borogodó tupinaque é uma adorável brisa viciante.
Fartemo-nos!

– Setembro | 2020 –


